A saúva e o suplente

Sebastião Nery

RIO – Depois de 12 anos de governador e 16 de senador, Benedito Valadares (1892-1973) havia acumulado toda a sabedoria da política mineira. Estava conversando com alguns jornalistas no palácio Monroe, ali na Cinelândia, onde ficavam os escritórios do Senado no Rio, antes de ser destruído pela insensibilidade do governo militar, quando passa o quase deputado Clóvis Stenzel, cumprimenta-os e sai. Benedito pergunta:

– Quem é aquele?

– É o Clóvis Stenzel, suplente do Rio Grande do Sul.

– Ih!, tenho pavor de suplente.

E foi embora rápido.

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CAMARA E SENADO

O suplente virou uma praga nacional, como a saúva  de Monteiro Lobato (“Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”).

O suplente de deputado menos um pouco, mas mesmo assim, depois de cada eleição, há dezenas de brigas na Justiça Eleitoral, pelo pais a fora, para saber a quem cabem os mandatos de suplentes federais ou estaduais, se às coligações, aos partidos ao apenas ao próprio candidato.

No Senado, é muito pior. É o escândalo permanente, institucional. O suplente é um berne. Está colado no senador como uma larva no animal. Se o senador morre, ele pula dentro do caixão e só sai no cemitério, para voltar correndo e herdar a cadeira, o gabinete, os direitos, tudo. E sem ter tido um voto.

Se o senador renuncia, vai ser governador ou ministro, o suplente também se senta na cadeira, no gabinete, nas regalias do titular e fica plantado ali, até o final do mandato. E sem um só voto.

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MINAS

Pode-se chamar o suplente de senador? Legalmente, constitucionalmente, sim. Para assegurar a Federação, a Constituição garante 3 senadores por Estado, do maior ao menor. Se qualquer um dos três senadores abre vaga, o suplente assume e tapa o buraco. Sem voto.

Mas de repente surgem situações absurdas. Minas, o segundo maior Estado da Federação, está submetida agora a ter um só senador e dois suplentes, que legalmente são senadores, mas politicamente são zero voto.

Em 2006, Itamar Franco era o maior nome político de Minas e, alem disso, com o apoio do governador Aécio, eleição garantida para senador.

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ITAMAR

Mas o PMDB mineiro era mais uma das fazendas do ex-governador Newton Cardoso. E Lula ainda se deu ao desplante de, como presidente da Republica, ir à convenção do PMDB para ajudar a impedir Itamar de ter a legenda para ser o candidato e garanti-la para Newton.

Itamar perdeu a convenção, não foi candidato. Aécio humilhou Lula e o PMDB. Para substituir Itamar, lançou pelo DEM o ex-ministro Eliseu Rezende, que derrotou Newton Cardoso fragorosamente. E pôs como suplente de Eliseu o presidente da Confederação Nacional de Transportes, Clesio Andrade. Eliseu morreu, Clesio virou senador. Sem um voto.

Com Itamar, repetiu-se a tragédia. Já fora do PMDB, que lhe havia negado a legenda, Itamar saiu candidato no ano passado pelo pequeno PPS (Partido Popular Socialista). Como sabiam Aécio imbatível, Lula e o PT imaginaram derrotar Itamar com o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel. Aécio, com o ex-embaixador do Brasil em Cuba Tilden Santiago na suplência, e Itamar, ganharam e ainda elegeram o governador Anastásia.

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JOSÉ  

E quem seria o suplente de Itamar? O nome obvio era o ex-prefeito de Conceição do Mato Dentro, deputado federal e principal líder do PV (Partido Verde) em Minas, José Fernando Aparecido, filho do ex-ministro da Cultura e ex-governador de Brasília José Aparecido, o maior amigo de Itamar em toda a sua vida política, desde quando prefeito de Juiz de Fora.

Itamar convidou o José Fernando, com apoio natural de Aécio, mas José Fernando não pôde aceitar, porque precisava sacrificar-se para assegurar em Minas um palanque jovem à candidatura de Marina Silva à presidência da Republica, saiu candidato a governador pelo PV e fez um belo papel, terminando a campanha como o quarto mais votado.

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PERRELLA 

Itamar e Aécio convidaram o ex-senador, ex-ministro e presidente da Academia Mineira de Letras Murilo Badaró, que já estava preparando os papeis para inscrever-se na Justiça Eleitoral, quando morreu de repente, em 14 de junho passado. Aécio pôs no lugar de Murilo o Perrela do “Cruzeiro”.

Veio a eleição, elege-se Itamar, que adoece e morre. E foi assim que Minas caiu numa esparrela, dando oito anos de mandato ao sem voto Perrella, que nem Perrella é, porque é José Costa. Como trabalhava em um açougue Perrella, incorporou o açougue ao nome e virou senador Perrella, 

Minas precisa rezar. É muita esparrela em um ano só.

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