A semana seguinte a mais uma derrota do povo brasileiro

Sandra Starling

Escrevo este artigo com um pouco menos de esperança sobre o futuro próximo de nosso país. De um lado, pessoas que consideram que eu não deveria ter-me lamentado pelas mortes ocorridas em Santa Maria, porque, a todo instante, morrem milhares e milhares de pobres no Brasil. Não! Não me conformo com as mortes precoces nem dos pobres nem dos que são vítimas da impunidade reinante, ainda que estes deem manchetes, e os outros, não. Mortes precoces e injustificadas serão sempre mortes precoces e injustificadas, seja qual for a origem das vítimas.

De outro lado, a “classe política” brasileira acaba de dar mais um espetáculo de descaso em relação a práticas éticas e republicanas na arena do Senado Federal. E, de quebra, sobram enfrentamentos eivados de escárnio e deboches, como demonstrou o discurso de Collor defendendo a eleição de Renan Calheiros e atacando o procurador geral da República.

O que esperar do comportamento geral e anônimo dos cidadãos brasileiros se os que os representam mostram tão pouco respeito pela ação das demais autoridades? O direito de crítica e de inconformidade com a ação dos de cima não precisa vir acompanhado de adjetivos destemperados como os que foram usados pelo senador de Alagoas. Aliás, bem ao seu antigo e jamais abandonado estilo…

APOIO DE TUCANOS

E ainda ressoam em minha memória, uma a uma, as palavras com que o jornal carioca “O Globo” anunciou o resultado da eleição para a presidência do Senado: “Com apoio até de tucanos, Renan está de volta”.

A frase esconde dois sentidos que revelam a que ponto chegou a política partidária brasileira: de um lado, omite que o PSDB também esteja enlameado pelas práticas que misturaram, em Minas e no Brasil, as ligações entre sistema financeiro, empresas de propaganda, governos e parlamentos, em esquemas de tenebrosas transações. De outro lado, mostra também como o PT, antigo partido de transformação e mudança, tornou-se mais um partido como os outros, disposto a ir fundo apoiando qualquer um, desde que se mantenha à frente do governo do país.

Enquanto tudo isso ocorria, em Brasília, cedinho, a presidente pegou o helicóptero no Palácio da Alvorada e foi para a base aérea, de onde se mandou para o Pará, em suposta visita anteriormente, muito anteriormente agendada, de modo a parecer nada ter tido pessoalmente a ver com o que se passava nos salões atapetados do Congresso Nacional. E, enquanto isso, também seu antecessor, o ex-presidente Lula, completava seu périplo pelas Américas, levado nas asas de conhecida empreiteira, como tem sido noticiado.

O retrato mais sintomático e patético, porém, foi o discurso pronunciado da tribuna por Eduardo Suplicy, que, às voltas, com receio de perder a indicação partidária nas próximas eleições para o Senado Federal, apelava a são Francisco de Assis por uma fórmula milagrosa que o salvasse (a ele) do horror de sufragar, com um lenço no nariz, o nome conhecido de Renan Calheiros.

São Francisco, orai mesmo pelo Brasil!

(Transcrito do jornal O Povo)

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