À sombra das conferências em flor para a Odebrecht

Pedro do Coutto

O título está inspirado em obra de Marcel Proust e o texto na reportagem de Chico de Gois, Eduardo Bressiani e Francisco Leali, edição de ontem de O Globo. A matéria revela as ações desenvolvidas em diversos países pelo presidente Lula em favor da realização de obras da Odebrecht, várias das quais com financiamento do BNDES. Em sete viagens realizadas o ex-presidente da República foi acompanhado por Marcelo Odebrecht, presidente da empresa e em alguns casos pelo ex-ministro José Dirceu, um dos condenados no processo do mensalão.

As viagens foram realizadas em 2011, 2012, 2014, portanto ao longo do governo Dilma Rousseff, cujo silêncio diante dos fatos realçados inclusive pela diplomacia brasileira, endossou as articulações desenvolvidas. Os pagamentos a Lula foram realizados sob a forma de remuneração da empresa por palestras que ele realizou. Ora, é evidente que as conferências foram apenas um pretexto para o pagamento de intermediações as quais foram desenvolvidas com apoio do governo. Não fosse assim, na verdade não haveria palestras, porque qual o interesse da Odebrecht em que fossem feitas?

Aliás, penso eu, efetivamente nenhuma empresa se interessa pelo conteúdo exposto em qualquer palestra, seja de governante, ou de ex-governantes. As empresas se interessam, isso sim pela repercussão nos jornais dos eventos que patrocinam e que, portanto, destacam seus nomes e marcas. De outro lado, empresários não querem ouvir teorias e sim iluminar caminhos para alcançar seus objetivos de empreendedores. É natural tal comportamento. Por parte dos empresários. Mas não é nada natural a aceitação por parte dos que ontem ocuparam o poder e mantêm prestígio político e influência administrativa nos seus países.

REFLEXOS POLÍTICOS

Não me refiro apenas a Lula, mas também a outros ex-presidentes, como Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton. Este último, nos EUA, certamente agora receberá mais convites, pois sua mulher Hilary, disputa com chance de vitória, em 2016, a sucessão de Barack Obama. O caso de Lula é diferente do de FHC, porque as palestras deste são feitas em universidades, sob o patrocínio delas, e não de empresas diretamente interessadas em obras e financiamento. Seja como for, na grande maioria dos casos assistir palestras leva a uma sensação de sonolência. Mas esta é outra questão.

A reportagem de O Globo de ontem, domingo, produz reflexos políticos de peso. O maior deles a ampliação do isolamento da presidente Dilma Rousseff, que, se já podia contar pouco, agora não conta quase nada com um possível apoio de seu antecessor, personagem até de investigação promovida pela Procuradoria Geral da República do Distrito Federal. Investigação reforçada agora pelas manifestações das embaixadas do Brasil em Cuba em Portugal. Em Havana, inclusive o comunicado ao governo afirma que em sua chegada ao hotel Lula foi cumprimentado por José Dirceu e pelo empresário Marcelo Odebrecht. O primeiro cumpre prisão domiciliar, porém viajava para o exterior. O segundo encontra-se sob prisão preventiva por decisão do juiz Sérgio Moro. O caso de José Dirceu, inclusive conduz a um enigma. Como poderia ele viajar para o exterior, cumprindo pena em prisão domiciliar? Quem lhe forneceu passaporte?

BNDES É ÓRGÃO DE GOVERNO

Como se constata indiretamente, de todo esse quadro as restrições de comportamento ético não terminam apenas em Lula, que se revelou um político influente em favor da Odebrecht, apoiado em financiamento do BNDES. Estendem-se ao governo do país que não teve forças ou condições de divergir desse tipo de comportamento.

Por isso o processo de que Lula é alvo tem seu raio ampliado para a esfera do Palácio do Planalto. Torna-se, diante da evidência dos fatos, mais um fator negativo para a presidente Dilma Rousseff. Afinal de contas, o BNDES é um órgão do governo. E os empresários, no fundo das questões somente se mobilizam, no caso do Brasil em busca de apoio governamental. Seja por repercussão pública, seja através de ações nos bastidores. São muitos os bastidores no poder.

8 thoughts on “À sombra das conferências em flor para a Odebrecht

  1. “O caso de Lula é diferente do de FHC, porque as palestras deste são feitas em universidades, “sob o patrocínio delas, e não de empresas diretamente interessadas em obras e financiamento……(pois é).

    Como sempre aquele sabãozinho efeagaciano para livrar a cara da Rainha da França.

    Esquece o nobre articulista e vou lembrá-lo que o Instituto da Rainha da França é um dos que recebe dinheiro de empreiteiras, que segundo a propria Rainha não há problema algum em receber, só háproblema se for com os institutos do Bill Clinton, Jimmy Carter, lulamolusco dentre outros.

    Para os amigos aquelas cartas de vinhos,champagnes francesas e muito caviar, para os inimigos as duras penas das Leis…”(eh!eh!eh).
    Noticia no proprio Jornal “deles”…..

    http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/06/1646844-fhc-diz-que-nao-ha-problema-em-seu-instituto-receber-verba-de-empreiteiras.shtml

    • Caro Armando,

      Palavras do Lula

      “Para fazer o mesmo que o Fernando Henrique, preferia que Deus me tirasse a vida. Muita gente tem o direito de mentir, de enganar. Eu não tenho.”
      Lula, Caros Amigos do PT, 2000

      Já que Lula esta fazendo igual ao FHC gostaria de saber quando ele vai fazer o “Seppuku”?

  2. No mínimo, no mínimo este senhor não tem ética. Também não tem cuidado e respeito pelo cargo que ocupou, de mais alto mandatário do país. Me faz ter certeza de que fui enganado quando depositei minha confiança nele.

  3. Mais um tiro no pá do Aloprísio Mercadante ???
    ” A pedido de Dilma, Eduardo Paes viajou hoje a Brasília para uma conversa no Palácio da Alvorada.

    Dilma apelou a Paes que atue como bombeiro junto a Eduardo Cunha.

    Embora lá na frente possam acabar adversários e em palanques diferentes, neste momento tanto Dilma quanto Paes têm interesse em preservar a aliança entre o PT e o PMDB.

    Cunha pode não lembrar, mas falta um ano para a Olimpíada, evento cujo sucesso depende de um boa relação entre o Planalto e o Rio de Janeiro.

    Por Lauro Jardim

  4. Mais um B.O para o Bebum de Rosemary…
    ” O ministro Napoleão Nunes Maia Filho, do STF, fará, a qualquer momento, que cumpra o que foi pedido no Mandado de Segurança 20895, impetrado pelo repórter Thiago Herdy e pelo jornal O Globo. Desde 27 de março, a 1ª Seção do STJ já tinha chegado a um acórdão que autorizou o acesso aos dados do cartão corporativo do governo federal usado pela ex-chefe da representação da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Nóvoa de Noronha. As demoras e segredinhos no Caso Rose causam estranheza generalizada (sem trocadinho).

    O Governo Federal está obrigado, judicialmente, a acesso aos gastos, com as discriminações de tipo, data, valor das transações e CNPJ/razão social. O ministro Napoleão Nunes Maia Filho considerou que a recusa de fornecer os documentos e as informações a respeito dos gastos efetuados com o cartão corporativo, com o detalhamento solicitado, constitui violação ilegal do direito líquido e certo da empresa e do jornalista de terem acesso à informação de interesse coletivo, assegurado pela Constituição e regulamentado pela Lei 12.527/11 (Lei de Acesso à Informação):

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