A teoria na prática é outra coisa; falta combinar com o adversário

Joaquim Levy torce para que suas teorias deem certo na prática…

Pedro do Coutto

São duas frases, em épocas diferentes, porém convergem entre si e se eternizam no tempo. A primeira é do antigo senador Benedito Valadares, a respeito da tecnocracia. A segunda é atribuída a Garrincha, o grande jogador brasileiro, presença determinante em nossa equipe nas vitórias de 58 e 62. Garrincha ouviu uma preleção do treinador Vicente Feola, antes de uma partida contra a Rússia, quando traçava o esquema tático que julgava completo para o sucesso do time. Você vai pela direita, outro entra pela esquerda, cruza para o meio da área e um terceiro marca o gol. Aí o extraordinário ponta direita ressalvou que faltava apenas combinar com os russos.

Foi aproximadamente isso que aconteceu em São Paulo na sexta-feira quando o ministro Joaquim Levy anunciou, na sede da ANBIMA novas regras a respeito dos financiamentos a serem concedidos pelo BNDES as empresas que solicitarem seu crédito. Hoje os créditos incluem os juros de apenas 6% anuais, quando os bancos privados cobram, para esse tipo de operação 3% mensais. Mas esta é outra questão . O fato essencial é que, pela nova regulamentação, as empresas para obterem os juros de 6% terão que emitir no mercado aberto 25% do crédito solicitado com a emissão de debêntures ou títulos voltados para captação de recursos. Caso não o façam perderão o direito à taxa de juros subsidiada.

Muito bem. Emitir debêntures não é o problema. A questão, dentro da lógica de Garrincha, é encontrar quem os absorva na prática do mercado de capitais. O volume a ser negociado não pode ser pequeno, já que as operações mínimas de financiamento pela TJLP devem ser de 200 milhões de reais.

O objetivo, disse o ministro da Fazenda, é ampliar o crédito de longo prazo, mas falta certamente combinar com àqueles que se dispuserem a aceitar os papeis, cuja remuneração evidentemente não pode ser de apenas 6% ao ano. Claro. Pois neste caso a rentabilidade seria inferior a que é oferecida pelos títulos que lastreiam a dívida interna do país, regidos pela Selic, agora no patamar de 13,75% a/a.

NO LIMITE

O ministro Joaquim Levy afirmou que os mecanismos antigos de crédito de longo prazo com utilização de recursos da poupança e do FGTS estão no limite, mas existe demanda no mercado para emissões privadas de projetos de longa duração. Fundos de investimentos e de pensão já querem comprar papeis de prazo maior e essa procura – acrescentou – deve crescer com o cenário econômico melhor.

Melhor? Pergunto eu. Como? Por coincidência, o titular da Fazenda responde: Enfrentando a questão fiscal e a confiança voltando, as pessoas vão querer investir. O Brasil amadureceu, tem novos desafios e temos que estar preparados para respondê-los.

A dúvida é se as emissões previstas por Joaquim Levy vão se realizar na prática. Ele parece ter certeza que sim, baseando-se na força teórica de seus amplos conhecimentos econômicos, mas a teoria é uma coisa a prática outra. O papel,da mesma forma que o computador, aceita o que nele se coloca. A realidade, não.

QUESTÃO DE LIQUIDEZ

Dificilmente o mercado de capitais poderá absorver títulos de empresas que buscam financiamentos a longo prazo, trata-se de uma questão de liquidez. A menos, isso sim,que adquiram notas do Tesouro Nacional que são garantidas pelo governo e apresentam remuneração muito acima do índice inflacionário. É só comparar: de um lado 13,75%, de outro 8,2%.

Essa captação, sem dúvida alguma, é atraente. Tanto assim, como revela a reportagem de Lino Rodrigues e Thais Lobo, O Globo edição de sábado,06, a taxa de remuneração pela Selic é, em termos concretos, a maior do mundo. Daí seu poder de atração de grande parte por empresas estrangeiras, conforme divulgou o Financial Times, traduzido pela Folha de São Paulo, também na edição de sábado. O Financial Times assinalou que 20% da dívida pública brasileira, portanto 480 bilhões de reais, estão nas mãos de estrangeiros.

A captação de recursos com base na taxa Selic torna-se, assim, essencial para o Brasil. Cada vez mais. Pois não teria sentido o devedor propor ao credor aumentar a taxa de juros que paga, se não tentasse com esse lance obter novos financiamentos no mercado nacional e também no mercado internacional. Devedor propor ao credor pagar mais pelo financiamento? Essa não. A teoria na prática é outra coisa.

13 thoughts on “A teoria na prática é outra coisa; falta combinar com o adversário

  1. Concordo com o Chicão Bendl. O noticiário político nacional anda muito chato, é de uma mesmice marcante. Nada contra os colunistas. Já sabemos, mais ou menos, entre colaboradores e comentaristas quem são, quem é contra o governo federal e quem é a favor. Pode ser a banalização dos escândalos, dos bilhões … mas não vemos novidade no final do túnel.

    Às vezes, um debate ou outro sobre Religião dinamiza um pouco.

    Ou somos nós (eu?) que escorreguei na mesmice?

    Mas observo que o enfado com políticos é internacional… eles vivem no rico e nababesco mundículo, em uma redoma de vidro blindado com Direitos a Shoppings Congressuais…

    Humanamente falando, pelo voto não temos condições de mudar. E não há outra forma, a não ser o “romântico” voto…

    • Oi Lionço, se o Congresso Brasileiro conseguir ajudar no merecido processo de Paz entre os irmãos judeus e palestinos será uma coisa boa.

      Mas não retiro a crítica que, a meu ver, o Congresso Brasileiro é inoperante desde a sua fundação, para ajudar os pobres e melhorar as distâncias sociais neste país.

  2. Caro CN … pedindo desculpas ao Pedro do Coutto … Terá a Palestina combinado com Israel?

    Temos que ocupar no Cenário Mundial o lugar a que somos convidados!

    São vários os motivos que nos levam a aceitar a sugestão de nossos irmãos palestinos.

    Nossos irmãos israelitas certamente que estarão nas reuniões.

  3. O Ministro da Fazenda LEVY determinou que daqui para a frente, os grandes financiamentos do BNDES, os acima de R$ 200 Mi, e na prática os acima de R$ 1.000 Mi = R$ 1 Bi,( que tem Custo fixo SUBSIDIADO de TJLP + Comissão, hoje em torno de 8,2%aa), sejam acompanhados de 25% do Financiamento em emissões de Debêntures da Empresa, a Juros de Mercado, (X% + SELIC). Como o Custo nos Bancos hoje, para esse tipo de Financiamento de longo prazo está em 36% – 40$ aa, estima-se que o (X% + SELIC) seja de ( 6% + 13,75%) = 18,75% aa.

    A meu ver, a Medida é acertada por dois motivos. Primeiro porque reduz o SUBSÍDIO do Governo, aos empréstimos do BNDES, e nosso Governo é altamente DEFICITÁRIO. E principalmente Segundo, porque assim o MERCADO seleciona qual os melhores Projetos, estabelecendo o Juro Mínimo no MERCADO ABERTO, para as necessárias Debêntures.

    Pergunta-se o grande e experiente Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO, se haverá DEMANDA para tais Debêntures no Mercado Aberto. Eu não tenho dúvida de que: para as Boas Empresas e bons Projetos, não faltará DEMANDA ( Liquidez como diz o grande Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO). Entre a alternativa de aplicar em Títulos do Tesouro a 13,75%aa, ou em Debêntures de uma BOA EMPRESA num BOM PROJETO a 18,75%aa a 20%aa, acho que o Mercado fica com a segunda opção. E a medida que cai a SELIC e a INFLAÇÃO, cada vez mais. Abrs.

  4. Pedro, há uma diferença fundamental entre o BNDES usar recursos do governo, como vem fazendo, e as empresas financiadas captarem recursos pela emissão de debêntures: no primeiro caso, o governo pega empréstimos a taxas altas e repassa os recursos para as empresas a taxas subsidiadas. O ônus é do governo, ou melhor, de todos nós. Com isso a dívida pública aumenta, os juros que o Brasil deve pagar aumentam, e o buraco financeiro do governo cada vez aumenta mais. E o risco é do Brasil, não das empresas. Se as empresas emitem debêntures, o ônus da captação é delas, e não do país, e a dívida pública não aumenta.
    A finalidade principal da SELIC alta para o combate à inflação não é captar investimentos estrangeiros, é aumentar o custo do crédito interno e reduzir a pressão de demanda. Captar investimentos externos pagando juros altos e vendo o lucro dos investimentos ser remetido para fora do país é exatamente o contrário do que precisamos, vai aumentando a dívida sem produzir efeitos estruturais. É a mesma coisa que usar o cheque especial porque a renda não dá para pagar as contas. A nossa atratividade para investimentos externos tem que ser baseada não em juros financeiros, mas em oferecer condições de produtividade às indústrias que quiserem se instalar aqui.

  5. Prezado Sr. LIONÇO RAMOS FERREIRA, Saudações.
    Os Governos Autoritários ( 1964 – 1985 ) muito fizeram para desenvolver e expandir o MERCADO PRIMÁRIO FINANCEIRO. Agora a Presidenta DILMA, via Czar da Economia Sr. JOAQUIM LEVY tenta desenvolver e expandir o MERCADO SECUNDÁRIO FINANCEIRO. E assim nós vamos evoluindo na Economia de Mercados de Iniciativa Privada. Abrs.

  6. Por um simples motivo. O Tesouro que desde 2009 fez aportes superiores a R$ 400 bilhões ao BNDES, quebrou. Os gerentes do Banco do Brasil estão pegando clientes a laço, para ver se eles depositam na quebrada caderneta poupança.

  7. Caro amigo Rocha,
    Alegro-me que concordes comigo quanto à situação do Brasil.
    E, eu concordaria contigo a respeito dos debates que surgem quando o tema versa sobre religião, que anima um pouco o blog.
    Com exceção deste último, sobre o Buda, onde mais uma vez a discussão sobre “elevação espiritual” demonstrou que nossas almas não atingiram patamares de compreensão e entendimento quando divergimos neste aspecto.
    Radicalismos, fundamentalismos, fanatismos, são predominantes em algumas mentes que não debatem por medo das consequências impostas pelas suas crenças ou, então, porque não se permitem maiores liberdades de pensamento com relação à continuidade desta vida após a morte.
    Acho que somos muito imaturos neste sentido.
    Da minha parte, acho que eu posso seguir com as minhas dúvidas enquanto meus professores nesta matéria são pessoas como eu. Não que não saibam mais, ao contrário, sinto-me muito inferior aos mestres, mas eu me refiro a ter o espírito independente, que admite o que digam mas, ao mesmo tempo, não aceita que tais suposições sejam definitivas neste terreno pantanoso.
    No entanto, este tema será sempre muito atraente de se comentar.
    Um forte abraço, Rocha.

  8. Creio que neste caso a teoria se coaduna com a prática e o lançamento das debêntures tem tudo para ser um fiasco uma vez que os juros acima da TJLP não darão atratividade alguma a nenhum negócio.

    A uma, porque os juros dos rendimentos dos títulos de renda fixa continuarão drenando o capital para a economia financeira, comprovando na prática que a economia real brasileira com seu alto custo e risco não são alternativa neste momento.

    E, a duas, porque as empresas estão enxergando nitidamente o esgotamento do mercado consumidor e a tendência de piora neste quadro cuja solução não está delineada nem no modo e muito menos no tempo.

    Ninguém sabe exatamente quando se dará a recuperação da estabilidade econômica, justamente porque estamos no início da recessão assim como no início dos ajustes para tentar reverter uma situação que durará no mínimo dois anos.

    Este é claramente um momento para se não investir. Simples assim.

    • O que o Sr. Levy está de fato tentando fazer é acabar com os repasses de recursos do Tesouro para o BNDES para garantir o reequilíbrio fiscal, é isso!

      Tudo o resto é floreado para perfumar o mercado que está uma verdadeira merda, uma fedentina só.

      A nova sistemática do mercado de crédito de longo prazo será mais efetiva junto às empresas que estão para participar das concessões que irão ocorrer a partir de amanhã do que qualquer outra coisa.

      Talvez para essas empresas vencedoras haja algum resultado positivo no lançamento dessa nova sistemática de captação de recursos com emissão de debêntures.

      Tomara que sim.

  9. COM A ANTA PRESIDANTA NO PODER NÃO HÁ RECUPERAÇÃO POSSÍVEL!
    ELA NÃO TEM A MINIMA AUTORIDADE MORAL PARA CONTINUAR NO PODER, MESMO NA CONDIÇÃO DE RAINHA QUE REINA MAS NÃO GOVERNA, ATÉ MESMO PORQUE A QUALQUER TEMPO ELA PODE RECUPERAR A INSANIDADE. DEMITIR O LEVY E COLOCAR UM BABACA SABUJO BABA-OVO DO ESTILO DO “MANTEIGA”!
    OS INVESTIDORES E O MERCADO COMO UM TODO NÃO É COMPOSTO DE IDIOTAS, POR ISSO MESMO NÃO ADIANTA QUALQUER SINALIZAÇÃO DO LEVY, POR MELHOR OU PIOR QUE ELE SEJA, QUE VAI INVERTER O MAU HUMOR DOS AGENTES ECONOMICOS!
    A ÚNICA SAÍDA É “FORA DILMA E LEVE OS PETRALHAS JUNTO”

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