A tocha mudou de mãos e passou para uma nova geração, que sabe valorizar também quem perde

Rebeca Andrade: Conheça a história da 'Daianinha de Guarulhos', medalhista  olímpica com o Baile de Favela - Jornal O Globo

A vitoriosa Rebeca Andrade sabe que as medalhas são de todos

Eurípedes Alcântara
O Globo

Se as oportunidades fossem iguais para todos, isso poderia significar que aqueles que chegaram ao topo de suas carreiras realmente mereceram e o fizeram unicamente em virtude de seus próprios esforços. O encadeamento dedutivo desse argumento é inevitável. Num mundo utópico de oportunidades iguais para todos, podemos concluir que quem ficou para trás também mereceu o fracasso.

Existe uma maneira diferente de pensar essa questão. “Essa medalha não é só minha. É de todo mundo”, disse a ginasta Rebeca Andrade, do alto de sua prata em Tóquio. Quem não chegou ao mesmo patamar de conquista de Rebeca, mesmo tendo tido as mesmas oportunidades que ela, também, idealmente, poderia dizer que o fracasso não é só dela, mas de todo mundo.

SEM GENERALIZAR – Não existem generalizações inteiramente justas nessas situações. Não ter nascido com o mesmo talento de Rebeca não é culpa das ginastas que sairão de Tóquio sem medalhas — e não me refiro apenas às brasileiras, mas a todas, às dos países pobres e ricos. Podem não ter tido treinadores tão bons ou mães tão dedicadas.

Ganhadores e perdedores precisam ser vistos como indivíduos com enorme parcela de merecimento pelo desempenho no esporte ou na vida — mas o resultado da vitória e da derrota nunca é totalmente e apenas do indivíduo.

O ser humano tem um pouco do instinto de abelha. Tem uma consciência ancestral de colmeia. O paraíso e o inferno são os outros, dizem os filósofos. Com razão. Não estou defendendo o coletivismo nem experiências de engenharia social feitas com o objetivo de produzir igualdade a qualquer custo. Isso já foi tentado no século passado e apenas produziu miséria material e moral, servidão e totalitarismo.

SUCESSO DE TODOS – Não estou dizendo que o moralmente certo é menosprezar os melhores, os mais hábeis, esforçados, dedicados e talentosos. Mas acho que os jovens, principalmente, estão mostrando que o sucesso é de todos os que contribuíram direta ou indiretamente para ele. O fracasso também. Eles estão exercitando um novo conceito de merecimento.

A ginasta americana Simone Biles teve doses industriais de sucesso e fracasso. Ela desistiu no meio da competição na Olimpíada de Tóquio. Traiu o espírito olímpico da superação física e mental que costuma produzir heróis? Para muita gente, sim. Mas encarnou um novo espírito do tempo que não pode ser ignorado — subir ou descer pode ser igualmente glorioso.

Ao Citius, Altius, Fortius (“mais rápido, mais alto, mais forte”, na tradução do latim para o português) do lema oficial da Olimpíada, o Comitê Olímpico Internacional acrescentou neste ano o Communis — que significa “juntos”.

É COISA SÉRIA – Parece demagogia rasteira da cartolagem olímpica, mas para os adolescentes e jovens é coisa séria. Rebeca ascendeu a sua medalha de prata, e Simone escorregou da sua pilha de quatro medalhas de ouro, uma de prata e uma de bronze.

Foram vistas igualmente como vencedoras. Não tem lição de moral. É apenas uma realidade geracional que vem se impondo.

Teve grande êxito o filme de guerra “Hacksaw Ridge” (“Até o último homem”), de 2016, em que a missão autoimposta do herói é salvar vidas — dos companheiros de farda e dos inimigos, tanto faz. O diretor é Mel Gibson, o mesmo de “Braveheart” (“Coração Valente”), de 1995, em que se cortam cabeças dos inimigos como se fossem cenouras.

21 ANOS DEPOIS – O diretor é o mesmo, mas 21 anos separam os dois filmes. Nesse espaço de duas décadas, nasceu e cresceu a geração que herdará o mundo. São chamados de “floquinhos de neve”, pois parecem se desmanchar por qualquer coisa.

Mas são eles e elas que estão criando startups bilionárias da noite para o dia, se preparando para chegar ao comando de grandes empresas e querendo deixar uma marca no Universo diferente da gravada pela geração que os antecedeu.

Não acham que o soldado que salva inimigos da morte de “Até o último homem” seja um covarde ou que Simone Biles “amarelou”.

4 thoughts on “A tocha mudou de mãos e passou para uma nova geração, que sabe valorizar também quem perde

  1. Quando se generaliza algo, é porque se conhece muito do tema ou se conhece à exceção e, a partir dela se tira conclusões!
    Se passa a conhecer as pessoas, mesmo os jovens, quando se lhe dá poder!
    São as exceções é que confirmam a regra!
    Fallavena

  2. É preciso ter em mente que apenas ser selecionado para os Jogos Olímpicos já coloca o atleta entre os melhores do mundo. Ninguém simplesmente decide participar de uma Olimpíada, passa por um processo de seleção muito difícil, e depois de chegar aos Jogos por um processo mais difícil ainda de chegar à final de sua prova, competindo já com os outros melhores do mundo. Chegar numa final olímpica já é uma conquista reservada a poucos. E depois, principalmente no caso dos esportes individuais, disputa uma prova onde procura ser um dos três melhores do mundo naquele momento. Quatro anos de preparação para jogar tudo naquela prova. Cobrar de um atleta que não possa perder uma medalha olímpica é não saber do que realmente se trata.

    • “Cobrar de um atleta que não possa perder uma medalha olímpica é não saber do que realmente se trata.”

      Realmente, você não sabe do que se trata (do que você está falando).

      Eu nunca vou perder uma medalha olímpica. E você nunca vai perder sua capacidade de explanação e/ou oratória.

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