A tortura do amor mais puro, na desesperada visão poética de Aluísio de Azevendo

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O diplomata, jornalista, caricaturista, cronista, romancista, contista e poeta maranhense Aluísio Tancredo Belo Gonçalves de Azevedo(1857-1913), no soneto “Pobre Amor”, revela que sofre pelo pecado e pela resistência de sua amada.

POBRE AMOR
Aluísio de Azevedo

Calcula, minha amiga, que tortura!
Amo-te muito e muito, e, todavia,
Preferira morrer a ver-te um dia
Merecer o labéu de esposa impura!

Que te não enterneça esta loucura,
Que não te mova nunca esta agonia,
Que eu muito sofra porque és casta e pura,
Que, se o não foras, quanto eu sofreria!

Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Com teu beijos de amor, meus lábios tristes,
Com teus beijos de amor, as minhas faces!

Persiste na moral em que persistes.
Ah! Quanto eu sofreria se pecasses,
Mas quanto sofro mais porque resistes!

6 thoughts on “A tortura do amor mais puro, na desesperada visão poética de Aluísio de Azevendo

  1. Ontem. 16 de agosto, seria o niver do grande Millôr Fernandes. Para homenageá-lo, posto aqui uma crônica dele. Desde os tempos de “O Cruzeiro” que leio o Millôr, irmão do fabuloso jornalista Hélio Fernandes:
    “Discurso de Deus a Eva, por Millôr Fernandes

    Minha cara,

    eu te criei porque o mundo estava meio vazio, e o homem, solitário. O Paraíso era perfeito e, portanto, sem futuro. As árvores, ninguém para criticá-las; os jardins, ninguém para modificá-los; as cobras, ninguém para ouvi-las. Foi por isso que eu te fiz.

    Ele nem percebeu e custará os séculos para percebê-lo. É lento, o homenzinho. Mas, hás de compreender, foi a primeira criatura humana que fiz em toda a minha vida. Tive que usar argila, material precário, embora maleável. Já em ti usei a cartilagem de Adão, matéria mais difícil de trabalhar, mais teimosa, porém mais nobre.

    Caprichei em tuas cordas vocais, poderás falar mais, e mais suavemente. Teu corpo é mais bem acabado, mais liso, mais redondo, mais móvel, e nele coloquei alguns detalhes que, penso, vão fazer muito sucesso pelos tempos a fora.

    Olha Adão enquanto dorme; é teu. Ele pensará que és dele. Tu o dominarás sempre. Como escrava, como mãe, como mulher, concubina, vizinha, mulher do vizinho. Os deuses, meus descendentes; os profetas, meus public-relations, os legisladores, meus advogados; proibir-te-ão como luxúria, como adultério, como crime, e até como atentado ao pudor!

    Mas eles próprios não resistirão e chorarão como santos depois de pecarem contigo; como hereges, depois de, nos teus braços, negarem as próprias crenças; como traidores, depois de modificarem a Lei para servir-te. E tu, só de meneios, viverás.

    Nasces sábia, na certeza de todos os teus recursos, enquanto o Homem, rude e primário, terá que se esforçar a vida inteira para adquirir um pouco de bens que depositará humildemente no teu leito.

    Vai! Quando perguntei a ele se queria uma Mulher, e lhe expliquei que era um prazer acima de todos os outros, ele perguntou se era um banho de rio ainda melhor. Eu ri. O homem é um simplório. Ou um cínico. Ainda não o entendi bem, eu que o fiz, imagina agora os seus semelhantes.

    Olha, ele acorda. Vai. Dá-me um beijo e vai. Hmmmm, eu não pensava que fosse tão bom. Hmmmm, ótimol Vai, vai! Não é a mim que você deve tentar, menina! Vai, ele acorda. Vem vindo para cá. Olha a cara de espanto que faz. Sorri! Ah, eu vou me divertir muito nestes próximos séculos!

    Texto extraído do livro “Esta é a verdadeira história do Paraíso”, Livraria Francisco Alves Editora – Rio de Janeiro, 1972.

    Millôr Fernandes, carioca, nascido em 1924 e falecido em 2012.
    Para falar de sua biografia, ninguém melhor do que ele. Acessem o link.
    Millôr por Millôr é como tudo que Millôr Fernandes escreveu: notável!

  2. No soneto acima, meu conterrâneo traduz a ânsia de endríaco por saborear uma mulher virgem.
    Naqueles idos, invicta, uma donzela era quase que permanentemente patrulhada por familiares e, mesmo na ausência deles, ela recebia a blindagem do tabu que assimilou da sociedade puritana, da qual absorvia os valores. Isso deixava o pretendente ainda mais superexcitado; uma raposa ávida por comer uvas, e as frutinhas tão longe do alcance dela.
    Atualmente, esse tipo de petisco continua difícil de ser apreciado; não pela superproteção, mas pela raridade!

  3. Muito cheio de sofrimento este poema que revela que ama sem ser amado. O amor faz sofrer. É um lindo poema o que nos oferece Aluisio de Azevedo, o autor de “O mulato”, “Casa de Pensão” e “O cortiço”
    “Calcula, minha amiga, que tortura!
    Amo-te muito e muito, e, todavia,
    Preferira morrer a ver-te um dia
    Merecer o labéu de esposa impura!”

    AH! A tristeza de amar sem ser amado!!!

  4. Lincoln, à maneira brasileira: “Pode-se roubar algumas pessoas todo o tempo. Pode-se roubar todas as pessoas algum tempo. E pode-se roubar todas as pessoas todo o tempo.”

    Millôr

  5. Grande escritor o Aluísio de Azevedo.

    Suas duas obras principais são: O Mulato e Casa de Pensão.São dois livros que podemos chamar de obra prima.

    Não sabia que o Aluísio era poeta também.

    BELO SONETO.

    Abraços..

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