A tragédia da Maria Chuteira

Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

Estou comovido com o caso de uma Maria Chuteira: Eliza Samudio, vítima de uma paixão fatal por Bruno, goleiro do Flamengo. Ela avisou a polícia das ameaças que estava sofrendo. Por que não foi protegida?

A Polícia não a ouviu

Não sabia que havia, no YouTube, tantos vídeos com depoimento dela. Era uma morena bonita, não estudada mas inteligente e articulada. Gostava de jogadores como Bruno, pelo “porte atlético”. E era correspondida, aparentemente. Numa entrevista, disse que eles lhe telefonavam mesmo quando estavam fora, como “nos Estados Unidos”. Mostrou também uma foto em que aparece abraçada a Cristiano Ronaldo, com quem dizia se comunicar pela internet e ter trocado “beijos”, mas sem sexo, numa viagem à Europa. (Ao contrário da crença geral, ou preconceito, ela definiu Cristiano como “humilde”.)

Por que a polícia não a protegeu? Sua tragédia foi cruzar com Bruno, que além do mais era casado. Mas como sabemos que estamos caminhando para os braços de quem talvez nos mate? Nenhum homem e nenhuma mulher leva uma placa que diz aos interessados: “Cuidado comigo: eu mato!”

O que me incomoda profundamente no caso é o sentimento de que Eliza podia ter sido poupada. Mãe de um bebê de quatro meses, que ela dizia ser de Bruno, Eliza não poderia fazer mais do que fez para alertar a polícia do risco que estava correndo.

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DESPROTEGIDA

As entrevistas que ela deu são estarrecedoras, neste sentido. Como ela pôde ter ficado desprotegida? O que ela contou já ultrapassava o limite da ameaça verbal. Como, com tantas informações, a polícia deixou que Eliza fosse morta? Porque era pobre, ou reprovada pelo tipo de vida que levava? Se fosse uma jovem rica, teria ficado exposta? Não acredito.

Uma ação policial teria poupado não apenas Eliza, mas Bruno, para não falar do bebê, do pai da vítima e de outras pessoas próximas de uma forma ou outra do caso. Nem era preciso muito. Provavelmente bastaria um telefonema a Bruno no qual alguém dissesse: “Olha aqui, bonitão, estamos de olho em você. Não folga com a moça., beleza?”

Nos Estados Unidos, a justiça da Califórnia aceitou pagar mais de 20 milhões de dólares a Jaycee Dugard, sequestrada por um tarado que deveria estar sendo vigiado e controlado pela polícia. Jaycee, entendeu a polícia, não foi protegida quando deveria.

A família de Eliza deveria entrar na justiça brasileira com um processo de indenização nos mesmos moldes — pelo que deveria ter sido feito para defender uma jovem em claro risco e, numa omissão criminosa, não foi.

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