A tragédia de Adrielly denuncia a omissão e a falta de ética

Pedro do Coutto

A ética é fundamental a qualquer profissão, sobretudo à de médico, já que a demora no atendimento pode se tornar irreversível e, nesse caso, encontra-se a vida humana na faixa entre a existência e a morte. A entrevista do neuro  cirurgião Adão Orlando Crespo Gonçalves à repórter Vera Araújo, O Globo do dia 8, representa a prova mais forte e contundente de um panorama de descompromisso no setor de Saúde do Rio de Janeiro. Não se trata de culpar ou não só Crespo Gonçalves pela espera de oito longas horas por uma intervenção que poderia salvá-la. Trata-se de situações equívocas acumuladas.

Começa na falta ao plantão de quem se encontrava escalado para ele. Na entrevista, afirmou que havia comunicado ao chefe da neurocirurgia, José Renato Paixão, que não compareceria. Acrescentou que havia vazios em matéria de plantões em decorrência de férias. Mas como? Não se entende. Férias de profissionais habilitados não podem acarretar espaços em branco na atividade. O socorro médico tem que funcionar, sobretudo na área crítica da emergência.

Além do mais, não pode existir somente um neurocirurgião no trabalho, uma vez que existe sempre a hipótese de situações de risco ocorrerem simultaneamente e, evidente, um médico não tem condições de operar dois pacientes ao mesmo tempo. Adão Orlando comete um erro grave quando explica seu não comparecimento pelo fato de se encontrar em processo demissionário. Se estava em processo de demissão, deveria cumprir as obrigações impostas até que tal processo chegasse ao final. A vida humana também é um processo.

Curto demais para a menina Adrielly. Seu desaparecimento em plena infância terminou se transformando numa denúncia definitiva sobre o que se passa na saúde pública do Rio de Janeiro e do país, pois pelo que assistimos na televisão em outros pontos do país a situação não é diferente. Pacientes graves desassistidos, falta de médicos, falta de medicamentos e material, escassez de servidores paramédicos. Falta tudo, enfim. Sobram doentes. Principalmente nas emergências, onde as causas de risco crescem porque, além do nível de doenças e problemas agravados pela idade, soma-se o peso da violência. Basta dizer que, na região do Meier, em dez dias houve cinco caso de balas perdidas.

O poder público tem que levar este fator em conta porque ele tornou-se uma trágica realidade em nossa cidade. Portanto, a presença de cirurgiões especializados é essencial. Tem que ser levada a efeito uma reforma completa no atendimento médico, a partir de sua administração. Em nenhuma hipótese podem ocorrer vazios como o da noite de véspera de Natal. A beleza da data e da comemoração não é capaz, por si, de justificar a omissão. Fosse assim, a Polícia não estaria nas ruas, os pilotos, os motoristas, além de centena de outros profissionais não estariam em atividade. Pode-se citar o Corpo de Bombeiros entre eles.

A entrevista feita pela repórter Vera Araujo representa um marco de enorme importância, a dividir a ética e a falta dela. A vida humana encontra-se exatamente no espaço entre um ponto e outro. Entre o compromisso e o seu descumprimento. Teve sua maior origem na ausência de um homem e sua continuidade na falta de quem o substituísse. Nâo fosse a omissão em série, talvez Adrielly sobrevivesse.

 

 

 

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