A tragédia do RioCentro, milagrosamente não consumada, começou em 26 de março, 35 dias antes, com a destruição da Tribuna. Foi o teste bem sucedido, envolvendo os radicais do SNI. O chefão, general Otavio Medeiros, no comando.

Helio Fernandes

A Rádio Manchete tem um programa de debates de excelente audiência. Chama-se “Encontros” e não foge dos assuntos. Procura até os mais polêmicos, que assustam os que querem aparecer sem se expor ou sem riscos.

Esse programa é conduzido por Ricardo Gomlewsky, e tem participantes sempre destacados. No último estava o professor de Comunicação, Carlos Alberto Rabaça, com trabalhos de muita repercussão, e mais os jornalistas Ancelmo Góis e Pedro do Coutto. Este vem desde o Correio da Manhã e do JB, com grande trabalho contra a Proconsult. E o Ancelmo, falando para o programa “Redação SporTV”, explicou: “Estou no Globo há 9 anos, mas tenho 40 anos de estrada no jornalismo”. Rigorosamente verdadeiro.

Assunto desse programa: “Liberdade de Imprensa e a repercussão para os países democráticos”. O apresentador, Gomlewsky, e os três participantes concordaram inteiramente: “A Tribuna da Imprensa foi o jornal mais atingidos nos 21 anos da ditadura militar”.

E explicaram: “Precisamente pela falta de Liberdade e pela censura à livre manifestação do pensamento. Essa é a principal característica dos regimes de força. Os ditadores não querem debate de espécie alguma. São adeptos da idéia única, por isso fracassam eternamente, como aconteceu no Brasil”.

Todos os quatro estão cobertos de razão: as ditaduras acabam, os ditadores cansam, não podem pretender a eternidade. São derrubados, mas as ditaduras voltam sempre, com ideologia ou sem ela. Isso tem acontecido na História do Mundo. Seja na Europa, na América Central ou América do Sul. (Fora do mundo ocidental nem se fala, isto é um registro e uma constatação).

O excelente repórter Chico Otavio levou três de trabalho intensivo, investigativo e elucidativo, para mostrar o que estava para ser concretizado na tragédia do RioCentro, que foi evitada apenas por incompetência, e não por qualquer motivo. (O que não invalida a palavra que coloquei no título).

O levantamento feito, levou à descoberta de testemunhas que ninguém sabia que existiam. E até de documentação não publicada na época. Faltou mostrar onde começou esse ato que seria de selvageria pelo número de mortos, mas que tinha objetivos políticos dos radicais (quase todos do SNI e adjacências), que não queriam deixar o Poder.

Se a selvageria tivesse sido consumada, teriam sido vitoriosos, continuariam no Poder. Com presumíveis milhares de mortos, sairiam fortalecidos (INACREDITÁVEL), jogariam a culpa em cima de qualquer grupo. Mas na verdade, o teste sobre o 1º de Maio de 1981, começou com a destruição da Tribuna da Imprensa, em 26 de Março desse mesmo 1981.

Contei tudo, denunciando com nomes e sobrenomes, os que participaram do atentado. E até os que organizaram, autorizaram e mobilizaram o massacre. Funciona no Senado a “CPI do Terror”, que apurava outros crimes de violência. O relator, Franco Montoro, me telefonou no dia 28.

Textual: “Helio, você estava programado para depor mais tarde. Com esse atentado terrível, falei com o senador Mendes Canale (presidente da CPI) para você vir imediatamente. Tomarei as providências, volto a te falar”.

Quatro ou cinco dias depois, o presidente da ABI, Barbosa Lima Sobrinho, me telefona: “Helio, o senador Montoro me comunicou que vem amanhã ao Rio, quer se encontrar com você aqui. Será à 1 hora, foi o que ele me pediu.”

Marcado o depoimento para a primeira quarta-feira, dias iniciais de Abril, 5 ou 6. Às 2 em ponto, o presidente abre a sessão da CPI, o Senado praticamente lotado, dezenas de deputados e jornalistas. Montoro perguntou se eu queria fazer exposição antes, e depois responder a perguntas.

Lógico que eu queria e precisava começar o depoimento, relatando que sabia sobre o massacre do dia 26. Falei duas horas e mais alguns minutos. E como sabia tudo sobre o que tramaram e executaram, contei minuciosamente o que sabia. Disse textualmente: “Quem bancou tudo foi o Chefe do SNI, general Otavio Medeiros, que pretendia ser o sucessor de João Figueiredo, como “presidente”. (Já morreu, no mais completo ostracismo. Mas na época era poderoso e o mais radical. Da vitória desse radicalismo, dependia o seu futuro. E o da  ditadura, é evidente)

Começaram as perguntas, mas o assombro era total, já havia o que se chamou de “anistia ampla, geral e irrestrita”, mas ainda mandavam muito. Mandavam tanto que nem respeitavam o calendário. Essa “anistia” (que o Supremo, 29 anos mais tarde, referendava m-e-d-i-o-c-r-e-m-e-n-t-e, será essa a palavra?) ocorreu em 1979, o massacre da Tribuna em 1981. (Dois anos depois).

Estavam muito assustados, e isso se refletia nas perguntas que faziam, que eu respondia sem a menor hesitação. Esse interrogatório, durou mais 4 horas, completando 6 horas, como é fácil de constatar: 2 horas de improviso, mais 4 também de improviso, respondendo ao que me perguntavam.

Alguns senadores faziam perguntas agressivas, eram os radicais do Parlamento ou áulicos da ditadura. Que não acreditavam que estava acabando mesmo.

Nessa época não havia TV Senado, a repercussão teria sido muito maior. Às 8 e meia terminou a sessão, mas surgiu o pânico total, manifestado pelas maiores figuras de Brasília. Eu fora para a capital decidido a dormir lá, reservara o Hotel Nacional. Não permitiram de jeito algum.

Ficar em Brasília foi considerado arriscado e temerário. Me convenceram facilmente. Nas diversas oportunidades da resistência e do confronto com a ditadura, TIVE MEDO. Todas as vezes que fui para o DOI-CODI, TIVE MEDO. Em Fernando de Noronha, TIVE MEDO. Qualquer pessoa que diga, “não tenho medo de nada”, é um mentiroso ou bravateiro. TINHA MEDO, mas não deixava que percebessem.

Confirmando o que afirmaram, deputados e senadores (pelo menos uns 20) fizeram questão de me levar ao aeroporto. E não é exagero: assim que o avião levantou voo, fiquei satisfeitíssimo.

*** 

PS – Agora, o INACREDITÁVEL: todo o meu depoimento desapareceu do Senado. Naquela época era taquigrafado, em vez de gravado como é hoje. O SNI não conseguiu se livrar de mim, mas pelo menos acabou com a lembrança.

PS2 – 25 dias antes, eu não sabia nada do 1º de Maio, logicamente não podia citar. Agora, sabiam de tudo sobre o teste da destruição do jornal, não citaram, porque falam e LIBERDADE de imprensa, mas são servos, submissos e subservientes.

PS3 – Investigaram, publicaram, constataram. Só que para eles, a destruição da Tribuna da Imprensa, não existiu. Essa é a “liberdade da imprensa” global.

PS4 – Só soube do fato há alguns anos. Como falei de improviso (sempre), precisei do depoimento. Pedi a amigos senadores (da época) que conseguissem uma cópia. Ficaram impressionados, NÃO EXISTIA COISA ALGUMA.

PS5 – Insisti com outros, não achavam, por mais que procurassem. Pedi então: Por que não criam uma CPI para investigar esse DESAPARECIMENTO?

PS6 – Além do próprio Senado estar com sua credibilidade atingida, é um fato histórico que precisa ser restabelecido. E pela data do depoimento, é facílimo constatar quem presidia o Senado e quem era o Secretário-Geral da Mesa.

PS7 – Sobre eles recaíram as dúvidas. Nada foi feito. Um documento histórico se perdeu. E agora, na investigação global, tudo se perdeu novamente. Que República.

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