A UNE no açougue

Sebastião Nery

A UNE (União Nacional dos Estudantes) era a grande Universidade livre da juventude brasileira. Nenhuma entidade no pais foi tão representativa. Era mais do que a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), que era fechada, cumpria belo papel, mas em outros tornou-se corporativa.

Aberta, calorosa, briguenta, a UNE travava uma luta interna permanente, democrática, e estava sempre à frente das grandes campanhas publicas do pais, mesmo quando sua diretoria se dobrava demais aos governos. Nasceu na Casa do Estudante do Brasil, no Rio, no primeiro Conselho Nacional dos Estudantes, em agosto de 1937, na ditadura Vargas.

A primeira diretoria, saida do II congresso, foi a de 38 a 39, presidida pelo gaucho Waldir Borges. O III congresso, de 1939, elegeu o paulista Trajano Pupo Neto. No IV congresso, de 1940, o carioca Luis Paes Leme.         

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NA GUERRA

No começo da guerra, os estudantes nas ruas exigiam que o Brasil declarasse guerra ao nazifascismo. Sobretudo por isso a UNE nasceu na esquerda. Em 1942 o presidente era o carioca Helio de Almeida. De 1947 a 50, as diretorias da UNE eram francamente socialistas, ligadas ao Partido Socialista, inclusive, no congresso da Bahia, em 49, quando venceu o socialista paulista Rogê Ferreira, que depois renunciou, substituído pelo também socialista carioca José Frejat.  

Em 1950, veio afinal a dupla udenista, mineiro-paulista, Olavo Jardim-Paulo Egidio, que comandou a UNE até 1954, transformando-a em um departamento do ministério da Educação. Em 1954, venceu uma chapa de unidade entre esquerda e governistas, com o Netinho, de São Paulo.

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NO GOLPE

A partir de 1956, acabou o reinado da “direita” com a aliança da JUC (Juventude Universitária Católica) com a UJC (União da Juventude Comunista) apoiando João Batista de Oliveira Junior, o Batistinha de Juiz de Fora. E veio outra histórica administração, a do baiano de Jaguaquara Raimundo Eirado em 1958-59, com Sepulveda Pertence na vice.

Nem o golpe de 1964 impediu que a UNE continuasse comandada pela aliança dos cristãos da AP (Ação Popular) com os comunistas da UJC. Desde 1963, já eram José Serra presidente, Marcelo Cerqueira vice.   

Na madrugada de 1º de abril, o golpe de 1964 incendiou a sede da UNE, no Flamengo 132, fechou a entidade, matou um presidente da UNE, Honestino Guimarães, quase mata outros, como Luis Travassos, Vinicius Caldeira Brant.
Depois da anistia de 1979, elege-se presidente, em 1980, o alagoano-paulista Aldo Rebelo, do PCdoB, e, por ironia da historia, a reconstrução da UNE é feita em nome de sua desconstrução. Deixou de ser a grande Universidade livre da juventude para tornar-se desossada, desconstituída, esquartejada, um escritório financeiro do PCdoB.                                                   

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NA DEMOCRACIA

A UNE era uma alegria. Estudantes do pais inteiro. Alguns hospedados lá, outros como eu nos pequenos hotéis ou em pensões ali do Flamengo e do Catete. Até a madrugada, todo mundo conversando, muitos tocando e cantando, mas o que comandava mesmo era a discussão política, da UNE e do pais. E o Rio era sobretudo a UNE.

Fernando Gasparian e Almino Afonso eram os lideres na politica estudantil paulista. Gasparian, saudoso amigo da vida toda e editor, presidente da União Estadual dos Estudantes em 1952. Almino presidente em 1953. O          congresso da UNE de 1954 foi na Universidade Rural do Rio : Costa Neto, um quadro político excepcional, Helio Bloch, Paes Leme, Hadock Lobo, outros. E Roberto Las Casas de Minas, José Gregori de São Paulo, José Batista de Oliveira Junior, o Batistinha, de Juiz de Fora.

Foi eleito, em chapa única, o Augusto Cunha Neto, Netinho, mineiro de Cataguazes, substituindo o paraibano de Santos João Pessoa de Albuquerque. Criou-se uma Junta Governativa para concluir seu mandato, presidida pelo Pedro Simon, do Rio Grande do Sul, que acabava de perder para Flavio Tavares a presidência da União dos Estudantes Gaúchos.

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NO AÇOUGUE

Agora, a UNE realizou seu 52º Congresso, no açougue. Uma vergonheira. Dinheiro do governo saindo pelo ladrão. No “Globo”, a Regina Alvarez conta que “a apatia dos movimentos sociais, de trabalhadores e estudantes, em relação à corrupção, coincide com um aumento substancial dos repasses de recursos federais para essas entidades. Em 2010, somados, os recursos transferidos às centrais sindicais e os repasses para outras entidades (como a UNE) chegaram a R$ 264 milhões”.

“Desde 2008 , já abocanharam R$ 246 milhões. Só no ano passado foram R$ 102 milhões, sem necessidade de prestar contas. Em 2010, a União dos Estudantes Secundaristas de São Paulo recebeu R$ 2,9 milhões”.

Esta é a verdadeira “herança maldita” de Lula e do PT.

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