A única dúvida é saber se Carlos Velloso foi usado ou se participou da armação…

Iano Andrade

Aos 81 anos, Velloso sonhou em ser ministro

Carlos Newton

Estava esquisito, parecia impossível, mas praticamente toda a imprensa publicou que Carlos Velloso, ex-ministro do Supremo, havia sido convidado e estava confirmado para ocupar o Ministério da Justiça, na vaga a ser aberta pela saída de Alexandre de Moraes, que está licenciado até ter seu nome aceito pelo Senado. O Planalto e o próprio Velloso se encarregaram de espalhar a notícia. O ex-futuro ministro chegou a dar detalhes do convite. Depois de novamente conversar com o presidente Michel Temer, na noite desta quinta-feira, ele disse à Folha que o chefe do governo lhe pedira “ajuda para salvar o Brasil. Talvez ele tenha até se excedido um pouco. Mas é uma coisa muito importante“.

Velloso declarou à repórter Camila Mattoso que, por ele, estaria “80% resolvido“, e contou que já acertara até o período em que permaneceria no Ministério. “Seria para ficar um ano apenas. E eu já até falei isso para o presidente. Não mais que um ano“, disse.

VEIO O DESMENTIDO – Às 02h01m, a Folha postou essa entrevista em seu site. Os editores jamais poderiam esperar que na tarde seguinte teriam de retificar a informação, a pedido da Assessoria de Imprensa do Planalto. O site G1, no blog de Gerson Camarotti, e a Folha publicaram a notícia quase ao mesmo tempo – às 16h26m e às 16h28m, respectivamente. O Estadão confirmou a informação logo em seguida, às 16h46m, e O Globo viria a postar um minuto depois, às 16h47m.

Mas quem pode confiar em Temer e acreditar em suas palavras, depois que ele traiu um velho amigo, o jornalista Ricardo Noblat? Na sexta-feira, dia 3, o presidente lhe concedeu entrevista exclusiva para dizer que tinha 27 candidatos a ministro do Supremo, insinuando que somente Alexandre Moraes poderia ser descartado, porque precisava muito dele no Ministério da Justiça. Noblat acreditou, é claro. Postou a entrevista na manhã de segunda-feira, dia 6, no site de O Globo, Temer leu a entrevista, é claro, mas não teve a menor consideração com o jornalista e no início da tarde mandou anunciar que escolhera Moraes. Noblat ficou atônito, não acreditava que o presidente pudesse fazer isso com um amigo, levou horas até refazer a reportagem.

O CASO DE VELLOSO – Agora, surge esse estranho caso envolvendo Carlos Velloso, um  jurista muito respeitado. Desculpem, porém jamais acreditei que ele acabasse realmente se tornando ministro. Desde o início, achei que era uma cortina de fumaça de Temer e seus cúmplices do Planalto, que bolaram um esquema simples e eficaz.

Primeiro, convida-se um personagem eminente, imune a críticas e reações negativas, sabendo que ele jamais poderá aceitar. É rico, compartilha um próspero escritório de advocacia com os filhos em Brasília, mas mora em Belo Horizonte, onde abriu uma consultoria de assuntos jurídicos. E tem 81 anos.

Cá entre nós, isso não é idade para iniciar uma penosa carreira no Executivo, que exige deslocamentos, viagens, presença em atos solenes ou festivos etc. – e não adianta citar o exemplo de Konrad Adenauer, que foi chanceler da Alemanha Ocidental até os 87 anos, porque ele tinha apenas 73 anos ao assumir. Aliás, aos 76 anos, Temer já está trocando real por cruzeiro e Moreira Franco por Moreira Alves, conforme consta da defesa que ele redigiu e mandou a AGU assinar.

O MINISTRO IDEAL – Plagiado da obra do cineasta Elio Petri, o personagem do cidadão Velloso é acima de qualquer suspeita, apoia a Lava Jato e as delações premiadas, defende o juiz Sérgio Moro e condena o foro privilegiado. É o ministro ideal para lutar pelos interesses nacionais, mas infelizmente não pode aceitar.

O caminho então fica escancarado para o Planalto alcançar seu real objetivo – nomear aquele deputado desconhecido do PMDB que vai lutar contra a Lava Jato, igual a seu antecessor Alexandre de Moraes. A jogada é essa, com uma boa desculpa: Temer vai alegar que escolhera o Velloso, porque ele tinha o apoio integral do PMDB, conforme o próprio Planalto fez questão de proclamar, quando a Assessoria de Imprensa anunciou o nome dele. Mas agora, que Velloso desistiu, teremos de atender ao partido”. E fica combinado assim.

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P.S.Quanto ao ex-futuro ministro Carlos Velloso, não se trata de uma versão masculina da Madre Teresa de Calcutá, é advogado, ficou rico usando seu prestígio para defender criminosos e políticos, como Paulo Maluf e Aécio Neves. Nesse episódio do Ministério, vamos lhe dar o benefício da dúvida, porque ele parece ter sido usado como massa de manobra. Comportou-se infantilmente, sonhou em aceitar um trabalho para o qual já nem possui condições físicas. Deveria ter suspeitado do falso amigo Temer e simplesmente respondido: “Grato pelo convite, mas agora conta outra…”. Por fim, só falta ser nomeado o Antonio Mariz, aquele criminalista que não aceita a existência de delação premiada, uma possibilidade que não se deve descartar. Em se tratando de Temer e seus parceiros, realmente tudo é possível.  (C.N.)

13 thoughts on “A única dúvida é saber se Carlos Velloso foi usado ou se participou da armação…

    • Para o juiz Marcos Josegrei, responsável pela operação, as duas servidoras “confundiam o conceito de bolsa enquanto acessório em que se acomodam bens e dinheiro pessoais com o de bolsa escolar enquanto prestação pecuniária a um pesquisador”, assinala o magistrado na decisão que mandou soltar 25 investigados, mas manteve as servidoras detidas. Por ordem da Justiça, as duas foram afastadas dos cargos que exerciam na UFPR

  1. NR resume a podridão em que estamos mergulhados, Temer “o grande chefão”, é um Amoral. Brasília virou Sede de quadrilhas hediondas, que assaltam 220 milhões, os sub=chefões: Presidente do Senado e Câmara, e “soldados” sinistros do stf, conclusão: o Brasil tá ferrado!!!
    Que Deus no ajude, a sair desse oceano de lama, de forma pacifica.

  2. O argumento se baseia em outra mágica que só se encontra no Brasil, por conta dos fatos expostos pelo Moderador.
    Chama´se confidencialidade…
    Derradeiro argumento para pular fora do navio, guardando as aparências para o distinto eleitorado, ou melhor dizendo, livrando a cara dos pepinos que se avizinham.
    Há controvérsias, é claro…

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