A única novidade na corrupção do Ministério da Saúde é a participação ativa de militares

Dominguetti, no momento em que apresentava o áudio fake

Faltou à Pfizer um intermediário como o PM Dominguetti

Carlos Andreazza
O Globo

Uma hipótese para que Bolsonaro, diante da denúncia dos irmãos Miranda, nada tenha feito: que a tradicional corrupção no Ministério da Saúde, operada por esses barros e seus afilhados, tenha sido encorpada pela adesão competitiva de militares ao esquema. Não seria só o Centrão a amarrá-lo.

O governo é militar. Sim: abrigou mobília testada como Roberto Dias, que Bolsonaro chegaria a indicar a cargo de direção na Anvisa; só recuando ante a notícia de que assinara contrato suspeito para compra de 10 milhões de kits-teste. Recuou da indicação, sem se acanhar, porém, para mantê-lo como diretor do Departamento de Logística do ministério em que, ora, ora, firmara o convênio acusado.

BEM APADRINHADOS – Manteve Dias, cheio de padrinhos e alcolumbres. Mas, sendo o governo militar, acrescentar-se-iam à dinâmica tipos como coronel Blanco, aquele que, ex-assessor de Dias até janeiro, abriu uma empresa de representação comercial de medicamentos três dias antes de se sentar à mesa, em 25 de fevereiro, com o ex-chefe e o policial Dominguetti, intermediário do intermediário, para presenciar conversa em que um diretor do Ministério da Saúde teria pedido propina ao atravessador que oferecia inacreditáveis 400 milhões de doses do imunizante AstraZeneca por meio de uma companhia, a Davati, de que procuração não tinha.

Assim se manifestou o CEO da Davati, Herman Cárdenas, sobre o que ofertava: “No começo deste ano, fomos procurados pelo nosso representante no Brasil para ajudar a localizar vacinas contra Covid-19. Descobrimos um possível lote de vacinas sendo oferecido por um vendedor privado no exterior”.

Diga-se que a ponte entre a descobridora Davati e o governo, antes de Dominguetti entrar na jogada, coubera a outro militar, o coronel Criscuoli, amigo de Bolsonaro e próximo a Eduardo Pazuello e Elcio Franco.

ILUSTRE DESCONHECIDO – Cárdenas também falou sobre Dominguetti, o desconhecido que, no entanto, operava por sua empresa e que incluíra em e-mail ao ministério: “Nos disseram para incluí-lo, mas ele não estava nos representando. A Davati não tinha conhecimento de quem ele era, então presumimos que era representante deles”. Deles quem?

Nada disso — essa várzea — impediria que Dominguetti fosse recebido, no dia seguinte, no Ministério da Saúde; nem que, adiante, chegasse ao gabinete do secretário executivo, coronel Elcio Franco.

Para isto serve o rolo Dominguetti/Davati: para mostrar como era fácil alcançar o centro decisório do ministério bastando ter/ser um intermediário, independentemente de haver vacinas a comerciar.

PFIZER NÃO TINHA AGENTE – Este Dominguetti, o atravessador, o elemento que dispararia o interesse do governo Bolsonaro — não por imunizantes necessariamente, mas por contratos. Era o negócio — a fatura, uma carta de intenções — que fazia a máquina girar.

E tudo bem que fosse irreal a oferta, se real fosse a intermediação. Eram necessárias a Precisa, a Belcher, a Davati, até um Dominguetti. O agente que faltara à Pfizer.

Assim, estará tudo bem até ficar tudo ruim. A crise é também militar. O risco de quando se manda Elcio Franco investigar elcios-francos. Já não dá para culpar apenas “a liderança política que temos hoje” nem cantar somente “se gritar pega Centrão…”.

13 thoughts on “A única novidade na corrupção do Ministério da Saúde é a participação ativa de militares

  1. “A única novidade na corrupção do Ministério da Saúde é a participação ativa de militares” Para ser mais claro: a participação Ativa de militares Ativos e Inativos das AAFF e forças auxiliares!

  2. O que esses facciosos fardados não fizeram, durante a ditadura imposta por eles; quando apenas a TV Globo era a dona da verdade e senhora da razão?

  3. Estou vendo na tv essa prisão de Roberto Dias na CPI.

    Tem adesivo na porta blindex de entrada de uma sala da Polícia Legislativa indicando “Coordenação de Polícia de Investigação – Delegacia”

    Como pode isso?
    A Constituição não prevê esse poder de se criar uma Polícia Legislativa que se autonomina como bem quer e com poderes próprios. É uma aberração esse órgão. Aliás, ainda contam com remunerações de mais de 20 mil reais muito desproporcionais à complexidade do trabalho.

  4. O “isentão” do bico grande escreveu um monte de abobrinhas, só não diz aos seus parcos leitores quanto foi desviado dos cofres públicos pelos corruptos. A cretinice do jornalismo venal é ilimitada.

  5. SE LHE FOR NEGADA FIANÇA, AINDA HOJE A JUSTIÇA DARÁ ORDEM DE HABEAS-CORPUS A ROBERTO DIAS

    Assisti pela televisão a sessão de hoje, terça-feira(7) da CPI da Covid, instalada pelo Senado Federal. O único depoimento colhido foi de Roberto Ferreira Dias, ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde.

    Sem entrar no mérito do depoimento do ex-diretor, sua prisão ao final da sessão, conforme determinado pelo presidente da CPI, senador Omar Aziz, é decisão que não se sustenta. E ainda hoje, caso lhe seja negado o direito de pagar fiança, um Habeas Corpus de poucas linhas, apresentado ainda hoje também., será suficiente para que o juiz de Direito (juiz togado) expeça ordem de soltura.

    É certo dizer que Dias não dormirá na prisão. Vai dormir em casa. Foi uma decisão sem fundamentação. E todas as decisões na ordem jurídica nacional, mormente as decretatórias de prisão, precisam ser motivadas e fundamentadas. Apenas dizer “porque ele passou o tempo inteiro mentido a esta CPI” não é fundamento. É opinião.

    Além disso era preciso indicar qual foi ou quais foram as mentiras. Houve, sim, conflito com depoimentos anteriores prestados por outras testemunhas. Mas isso não basta para caracterizar falso testemunho, muito menos dar voz de prisão em flagrante. A jurisprudência de todos os tribunais do país é pacífica no sentido de que “Simples contradição entre depoimentos não configura por si só crime de falso testemunho” ( Revista dos Tribunais RT 511/331, RT 499/316, RT 495/297, RT 488/401 – RT é Revista dos Tribunais). .

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