A velhinha no ônibus

Sebastião Nery

Dorcas, ministra evangélica e minha secretária, pegou o ônibus no Leblon para Belford Roxo. Depois da Central do Brasil, o homem entrou. Havia muitos lugares vazios, mas ele ficou em pé, ao lado do motorista. Calça de brim, camisa solta, sapato sem meia, boné na cabeça, forte, uns 30 anos.

Era um assaltante. Motoristas e passageiros não tiveram dúvida. E o assalto não começava. O ônibus seguia, o homem ali, o motorista apavorado. Em um ponto. Uma velhinha, só uma velhinha, levantou o braço, fez sinal. O motorista não parou. O homem meteu a mão embaixo da camisa, puxou um revólver novinho, brilhando, meteu no ouvido do motorista:

– Pare o ônibus, volte de marcha a ré até o ponto e pegue a velhinha.

O motorista obedeceu, parou, voltou, a velhinha entrou, o homem falou:

– Nunca mais deixe velhinha parada no ponto. Ela não é sua mãe!

E desceu.

###
EXIGINDO DEMISSÃO

Em 1918, Artur Bernardes assumiu o governo de Minas e começou a demitir o outro lado. Era diretor da Imprensa Oficial o jovem Augusto de Lima Junior, jornalista, historiador, romancista, avô do aristocrático e monárquico jornalista Aristóteles Drummond e adversário de Bernardes, que mandou um amigo conversar com ele:

– Dr. Augusto de Lima, o dr. Artur Bernardes mandou sugerir…

– Já sei. Não aceito sugestão de adversário.

– Pois é, o dr. Artur Bernardes mandou aconselhar…

– Já sei. Não aceito conselho de adversário.

– Como o senhor já sabe, o que o dr. Artur Bernardes quer mesmo é que o senhor peça demissão.

– Alto lá! De adversário não aceito nada. Nem sugestão, nem conselho. E não peço nada. Nem demissão.

Augusto de Lima Júnior, é claro, também não queria perder o ônibus.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *