A verdade do Spínola

Sebastião Nery

Quando o general Carlos Alberto Fontoura, chefe do SNI no governo Médici, foi indicado pelo presidente Geisel para a embaixada do Brasil em Portugal, em abril de 74, compareceu à Comissão de Relações Exteriores do Senado para a sabatina de praxe. Chegou com uma pasta gorda, preta e pesada, e perguntou aos senadores:

– Esta reunião é secreta mesmo?

– É, sim, general. Inteiramente reservada.

– Como os senhores sabem, sou um militar de informação e inteligência, comandei o SNI durante todo o governo passado. Tenho responsabilidades de governo e de Estado. Trago aqui, nesta pasta, um documento importante, que pode mudar a história de Portugal. Mas só posso mostrar se os senhores me garantirem sigilo completo. Porque é uma bomba.

Os senadores asseguraram inteiro sigilo e pediram para ver.

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GENERAL SPINOLA

Carlos Alberto Fontoura abriu a gorda pasta preta :

– É um livro do general Antônio Spínola, o mais forte general português, contra as guerras na África e contra o governo de Marcelo Caetano. Foi o ex-governador Carlos Lacerda, que é amigo dele e chegou de Lisboa, quem me trouxe. Mas o livro ainda é secreto. Foi escrito em segredo e impresso fora de Portugal. O general espera a melhor hora de lançar, porque tem convicção de que, publicado, vai abalar os alicerces do governo português.

E mostrou o livro (“Portugal e o Futuro”) aos senadores, leu trechos. Previu a queda iminente do governo salazarista. No dia seguinte, o veterano jornalista Abdias Silva, suplente de Carlos Castello Branco no Jornal do Brasil, contou a história toda na Coluna do Castello.

O general Fontoura ficou uma fera, reclamou. A embaixada de Portugal em Brasília, indignada, chiou. E o Senado abriu inquérito para apurar quem tinha quebrado o sigilo da reunião.

Não precisou. Dias depois, em 25 de abril, Marcelo Caetano era preso, derrubado e embarcado exilado para o Brasil.

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ARQUIVOS SECRETOS

Sobre os arquivos secretos da ditadura, é só procurar no Exército, na Marinha, na Aeronáutica, entre os muitos líderes militares daqueles tempos, que estão por aí, já reformados mas ainda com perfeita memória e lucidez, algum Spínola nosso, e pedir para ele contar o que sabe, dar as pistas mal-guardadas e abrir os segredos de polichinelo.

Vai ver que não há papeis incinerados nem mistérios enterrados. Está tudo aí, nas gavetas e armários, porões e sótãos dos mesmos órgãos militares que sempre codificaram, decodificaram, armazenaram dados. A verdade nunca faz mal. Contada, lava e limpa tudo.

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