A verdade é a poesia

Sebastião Nery

A Grécia é filha de Homero. Nasceu do ventre da Ilíada e da Odisséia. Sócrates, Platão, Aristóteles, germinaram a filosofia. Ésquilo, Sófocles, Eurípides, sangraram a tragédia. Mas foi a poesia de Homero que gerou e plasmou a alma eterna da Grécia.

Roma foi de César, de Augusto, de Adriano. Mas sem a Eneida de Virgilio, as Odes de Horácio, as Metamorfoses de Ovídio, Roma teria sido um Império mas não teria sido uma civilização.

A Itália é Dante e o depois dele. A Inglaterra é Shakespeare e o sempre. Como a Alemanha é sobretudo Goethe, Portugal Camões.

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A PALAVRA

Por quê? Porque a poesia é o Genesis. “In principio erat verbum”. No princípio era a palavra. No início era a poesia. E “o poeta é um pequeno Deus”.

Platão sabia disso: – “O poeta é um ser alado, sagrado, todo leveza, e somente capaz de criar quando saturado de Deus”.

Shakespeare também: – “O olhar do poeta, girando em delírio, vai do céu para a terra, da terra pára o céu. Quando a imaginação toma corpo, captura a essência das coisas”.

E Goethe: – “Poetas não podem calar-se. Quem vai confessar-se em prosa? Abrimo-nos como rosa, no calmo bosque das musas”.

E Victor Hugo: – “Um poeta é o mundo dentro de um homem”.

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PILATOS

Impalpável, intangível, só ela, a poesia, é a verdade. Etérea. A verdade alada de Platão, a verdade ensangüentada do Cristo.

Pontius Pilatus ganhou de Tiberius, imperador de Roma, o governo da Judéia e da Samaria, quando exilou Arquelau, filho de Herodes, o Grande, e irmão de Herodes, o antipático Antipas, que deu a Salomé o pescoço de João Batista.

Philo Judaeus e Josephus, historiadores judeus, contemporâneos de Pilatus, disseram que ele era “ríspido e intratável”.

Mas não queria matar Jesus Cristo.

Quando aquele homem de olhos mansos, coberto de sangue, chegou preso ao palácio, trazendo na cabeça a coroa sarcástica – “Jesus Nazarenus Rex Judeorum” –, Pontius Pilatos lhe perguntou quem ele era:

– “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

O caminho Pilatos sabia o que era. A vida, também. Mas a verdade, não. Pilatos outra vez lhe perguntou:

– O que é a verdade?

Jesus não respondeu. E foi levado para morrer.

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CRISTO

Beletristas medievais, monges e poetas, diziam que Jesus não respondeu porque a resposta já estava na pergunta, em latim:

– “Quid est veritas”? (O que é a verdade?).

Com as mesmas 14 letras da pergunta, escreve-se a resposta:

– “Est vir qui adest”. (É o homem que está aqui).

Nem a verdade disse o que é a verdade, porque indefinível.

Como a poesia. Ninguém a definirá. Sentida, vivida, sofrida ou gargalhada, mas indizível. Nasce e morre no mistério. Como as gaivotas, levita e mergulha. Aflora e submerge. É feita de luz e sombra, flor e cacto, carne e sangue. A poesia é o mágico encontro entre a beleza e a pedra, o sonho e a dor, a vida e a morte.

Na impossível busca da verdade, só a poesia é a verdade.

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GUEVARA

Para finalizar, um pequeno, belo, talvez anônimo poema. Consta, embora jamais comprovado, que seria de Che Guevara.

No Natal de 1966, em Nancahuazu, na Bolívia, nas derradeiras trincheiras da inviável guerrilha, cercado de solidão e da certeza do sonho perdido, ele o teria escrito:

– “Cristo, te amo / não porque desceste de uma estrela /mas porque me revelaste / que o homem tem lágrimas, angustias /e chaves para abrir as portas fechadas da luz. / Tu me ensinaste que o homem é Deus / um pobre deus crucificado como tu./ E aquele que está a tua direita no Gólgota / o bom ladrão / também é um Deus”.

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