A verdadeira história de Arraes e Francisco Julião. O primeiro, servindo a si mesmo no “exílio dourado”. O segundo, só à coletividade, sem qualquer mordomia

Por sugestão do leitor Charles J. Heidorn, fui procurar no arquivo deste Blog o que saiu sobre Miguel Arraes e Francisco Julião, no dia 5 de janeiro deste ano. Decidi então fazer nova postagem deste artigo, (motivado à época por um comentário do leitor Valdir Stédile), em função das importância das informações, altamente elucidativas sobre esses dois personagens da História Contemporânea, e incluindo também outro personagem, Leonel Brizola, que era admirador de Julião e desprezava Arraes. então, vamos rever meu diálogo com o leitor Stédile:

Valdir Stédile:
“Hélio, a respeito das tuas notas sobre Arraes e Francisco Julião, tive a honra de conhecer o Líder das Ligas Camponesas, Dr. Francisco Julião, um dos maiores brasileiros do século passado. Participei com ele de algumas reuniões e organizei no Paraná uma palestra na Casa do Estudante Universitário. Essa palestra serviria para a apresentação de Francisco Julião. Só que o Reitor vetou a reunião, com o vil argumento de que “um comunista não podia falar para universitários”.

Mais tarde, na casa de uma sua filha, Dona Anatilde, doutor Julião nos confidenciava suas decepções com Arraes. E contou que Arraes, junto com outros, tramou para que brizola não voltasse do exílio. Essa é a História, Helio”.

Comentário de Helio Fernandes
Excelente, Stédile, é depoimento de quem participou, se envolveu, não fugiu de coisa alguma.

Fui muito amigo de Julião, nunca, nem uma vez que fosse, falei com Miguel Arraes. Podem dizer que os 15 anos em que fiquei no Brasil e Arraes e Julião foram para o exterior, criaram uma barreira de relacionamento intransponível. Mas antes disso, tivemos outros 15 anos de participação, (antes do golpe) fiquei muito amigo de Julião e jamais quis me aproximar de Arraes.

O depois governador de Pernambuco várias vezes, não admitia concorrência com a liderança de Julião. Quando este criou as Ligas Camponesas, Arraes já governador, montou o que chamou de Sindicato Rural. Visível, ostensiva e perseguidora ação contra Julião. Este, desprendido, generoso, construtivo, não protestou, continuou na luta, só muito mais tarde revelou a trama contra a coletividade, na verdade um golpe contra os que não o apoiavam.

O que você conta, Stédile, essa revelação de Julião, era do conhecimento de Brizola há muito tempo. O governador do Rio Grande do Sul e da Guanabara costumava fazer comparação com o comportamento da ditadura, em relação a ele, Brizola e na proteção, (como ele dizia) a Arraes.

Brizola, textual, nas suas conversas que não paravam nunca: “A ditadura deixou Arraes escolher para onde ir, eu tive que fugir para Montevidéu, ou seria assassinado”. Totalmente verdade. E continuando: “Dias depois de chegar a Montevidéu, a ditadura pediu o meu INTERNAMENTO numa praia deserta, longe da capital”.

E insistia, aí no que era público e notório: “Arraes teve um asilo maravilhoso, tendo a Argélia à sua disposição, amigo do ditador comunista, passava fins de semana em Paris e em outros lugares praticamente vizinhos”.

“Sofri na carne o fato de ser oposição mesmo, fomos governadores, (Arraes também), mas sem diálogo, não podia esquecer das manobras dele contra mim”. Brizola gostava de informação, não havia nada, em matéria de política, que desconhecesse. Não espalhava nem admitia intrigas, mas tomava conhecimento do que se passava nos bastidores.

Todos respeitavam Brizola, ninguém ou poucos se aproximavam de Arraes. Vejam o que Brizola realizou, principalmente no Rio Grande do Sul. Em Pernambuco, Arraes foi o Campeão Mundial do NADA.

* * *

PS – A última vez que vi Julião, na inauguração da Linha Vermelha. Fui com Brizola, ele fez questão de convidar o fundador das Ligas Camponesas, não admitia de maneira alguma, que algum protocolo, botasse o nome de Arraes. Se colocassem, ele tiraria, muito justamente.

PS2 – Eu e Julião trocamos longo e emocionado abraço. Como demorasse a inauguração, (o atraso foi inexplicável, Brizola cobrava muito), ali no asfalto, em pé, nós três, em algumas horas, bastaria que tivéssemos a conversa gravada e poderíamos editar um livro de História. Vivida, sofrida, escolhida pela convicção de cada um.

PS3 – Se fosse um livro individual, poderia ter o mesmo título que Pablo Neruda colocou no seu: “Confesso que vivi”.

Este artigo recebeu város comentários
e dois deles me chamaram a atenção

Antonio Rubem César:
Jornalista Hélio Fernandes, o grande arquiteto Oscar Niemeyer, em seu Curvas da Vida, lança também a suspeita estranha a respeito de Miguel Arraes, de quem não quis fazer nenhum comentário quando esteve na Argélia”.

Antonio Santos Aquino:
“Hélio, todos nós conhecemos o ex-ministro Jarbas Passarinho; não temos dúvida sobre quem ele seja. Assim sendo, temos que levar em consideração o que foi dito pelo ex-ministro em entrevista à TV Senado. Finalizando a entrevista, foi-lhe perguntado porque as esquerdas não se uniram. Disse Passarinho que das esquerdas só Brizola era adversário, todos os outros tinham feito acordo com os militares (dando a entender a meu juizo, que teria havido compromisso de não se unirem). Encerrando, um jornalista perguntou: “Até o Arraes”? Resposta de Passarinho: “Sim, até o Arraes”. Não estou reproduzindo “ipsis litteris” o que foi dito, mas foi este a meu juizo, o teor da entrevista.Está registrado na TV Senado”.

Comentário de Helio Fernandes:
A posição de Niemeyer é compreensível, e o que Antonio Santos Aquino falou sobre a entrevista do “coronel” Passarinho sobre Arraes, é rigorosamente verdadeiro. Mas eu já contado, integralmente. Um general foi procurá-lo em Fernando de Noronha, com a proposta de acordo, de ir LIVREMENTE para o exterior. Que Arraes aceitou na hora.

Foi direto para a Argélia, onde se tornou riquíssimo e poderoso. Era a maior influência ao lado do CORRUPTO DITADOR Boumediene, com quem repartia (?) os fabulosos lucros da EXPORTAÇÃO e IMPORTAÇÃO, não apenas de petróleo.

Por que, para a inauguração da Linha Vermelha, Brizola convidou Julião e não chamou Arraes, governador como ele? Muito antes, escrevi bastante sobre Arraes e sempre revelando sua atuação na Argélia contra brasileiros.

***

PS – Os artigos publicados na Tribuna da Imprensa, no momento estão inacessíveis. Mas continuam disponíveis na Biblioteca Nacional. Fui o primeiro e único repórter a contar a fundação das Ligas Camponesas, gloriosa e positiva iniciativa de Julião.

PS2 – E a vingança de Arraes, criando o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, para combater e destruir o que Francisco Julião plantara.

PS3 – Ninguém pode ter dúvida sobre o caráter e a atuação de Arraes, são fatos e mais fatos, embora algumas pessoas se iludam. O grande Abraham Lincoln já chamava a atenção sobre isso, no belo e emocionante discurso de Gettysburg, no fim da Guerra Civil.

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