A vida não é fácil

Sebastião Nery

“Pedro Roussef (pai da presidente Dilma) proporcionou uma vida de muito conforto à familia. Seus negócios se estabilizaram e ele prosperou de vez quando a alemã Mannesmann, maior fabricante de tubos de aço do mundo, decidiu construir a siderúrgica do Barreiro, na região industrial de Belo Horizonte. Era o fruto tardio de negociações iniciadas no primeiro governo Getulio Vargas, antes de o Brasil engajar-se com os Aliados na guerra contra o Nazismo.

O projeto foi reformado depois da Segunda Guerra. A inauguração da fabrica, em agosto (12) de 1954, foi a ultima aparição publica de Getulio antes do suicídio. Estava ao lado do governador JK, que seria eleito presidente um ano depois. Juscelino foi seu aliado fiel nos últimos dias de um governo acuado por denuncias e emparedado por uma oposição feroz.

No dia da inauguração da siderúrgica, Getúlio foi recebido no centro de Belo Horizonte com vaias de estudantes ligados à União Nacional Democrática (sic), UDN, e ao Partido Comunista. JK o levou para ser aplaudido pelos operários no Barreiro.

Duas semanas depois, quando chegou à cidade a notícia do suicídio, multidões enfurecidas cercaram a sede do jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Numa manobra desesperada, um estudante comunista fez um discurso inflamado contra os “verdadeiros responsáveis” pela desgraça do presidente morto:os trustes norte-americanos e os entreguistas da UDN”

O jovem comunista juntou às palavras um latão de gasolina, e assim começou o incêndio do consulado dos Estados Unidos em Belo Horizonte. Dilminha tinha seis anos”.

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DILMA

Esse texto está na pagina 29 do excelente livro “A Vida Quer é Coragem – A Trajetória de Dilma Rousseff”, do jornalista Ricardo (Batista) Amaral (Editora Primeira Pessoa – Sextante – RJ), que terça-feira comentei aqui e mais apropriadamente seria “A Vida Não é Fácil, Nunca Foi”, uma frase de Dilma que sintetiza e define sua brava e às vezes dramatica vida.

Como em outros trechos do livro, o que transcrevi ai está certo, mas não tão certo, porque tropeça na exatidão historica.

Realmente, “Getulio foi recebido no centro de Belo Horizonte com vaias de estudantes ligados à UDN e ao PCB, e JK o levou para ser aplaudido pelos operários no Barreiro (Cidade Industrial)”.

Mas não é verdade que “duas semanas depois, quando chegou à cidade a noticia do suicídio, multidões enfurecidas cercaram a sede do jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB)”….

A sede cercada e quebrada foi a da UDN e seu jornal, o “Correio do Dia”, cujo editor-politico era o saudoso jornalista, depois ministro da Cultura e governador de Brasilia, José Aparecido de Oliveira.

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CONSULADO

Também é verdade que, “numa manobra desesperada, um estudante comunista fez um discurso inflamado contra os “verdadeiros responsáveis pela desgraça do presidente morto : os trustes norteamericanos e os entreguistas da UDN”. Mas não é verdade que “o jovem comunista juntou às palavras um latão de gasolina e assim começou o incendio do Consulado dos Estados Unidos em Belo Horizonte”.

De fato houve o discurso, houve o latão de gasolina e houve o incendio do Consulado. Mas quem fez o discurso não levou o latão nem começou o incêndio. Não daria tempo para o orador descer do palanque, um caminhão aberto, em frente às escadarias da Faculdade de Direito,

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ORADOR

Essa segunda tarefa foi cumprida, e bem cumprida, por outros, comandados pelos valentes dirigentes do Partido Comunista em Minas, Roberto Costa e Dimas Perrin, presos no local e condenados a um ano de cadeia. O orador apenas leu a Carta Testamento, deu a senha do fogo e ia saindo rapido quando foi atacado e derrubado pela policia e perdeu o nariz.

Sei bem porque o “estudante comunista” que fez o “discurso inflamado” fui eu, aluno da Escola de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais e editor-politico do “Jornal do Povo” do PCB.

A historia daquele tumultuado, inesquecível e ao final fúnebre agosto de 1954 está minuciosamente contada em meu livro “A Nuvem – O Que Ficou Do Que Passou – 50 Anos de Historia do Brasil” – Editora Geração, SP – já na 3ª edição), paginas 138 a 142.

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NATEL E DUTRA

Duas outras bobagens no livro.

Pagina 55 : – “A VPR ostentava um cartel de ações espetaculares no ano anterior (1968), como o ataque ao palanque do governador Laudo Natel na festa do 1º de maio”. Errado. Em 1968 o governador de São Paulo era Abreu Sodré (1967 a 1971) e não Laudo Natel. Natel foi antes e depois.

Pagina 134 : – “José Eduardo Dutra, mineiro (sic) emigrado como ela, sindicalista e ex-senador do PT por Sergipe”. Errado. Ele é carioca.

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