A vida obscura de quem teve uma infância humilde, na visão simbolista de Cruz e Sousa

TRIBUNA DA INTERNET | Um homem bêbado, na poesia dura e realista de Cruz e SousaPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis, e tornou-se conhecido como o “Cisne Negro” de nosso Simbolismo, seu “arcanjo rebelde”, seu “esteta sofredor”, seu “divino mestre”. Procurou na arte a transfiguração da dor de viver e de enfrentar os duros problemas decorrentes da discriminação racial e social, características contidas no soneto “Vida Obscura”.

VIDA OBSCURA
Cruz e Sousa

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres,
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!

9 thoughts on “A vida obscura de quem teve uma infância humilde, na visão simbolista de Cruz e Sousa

  1. Vejam o que o estudo e a educação podem fazer com um indivíduo.
    João da Cruz e Souza, deveria ser o ícone do movimento negro.
    Santa Catarina, o estado com o menor número de descendentes de africanos no Brasil, tem no antigo palácio do governo e hoje principal museu do estado, o nome deste filho ilustre. PALÁCIO CRUZ E SOUZA.

  2. As cigarras cantam desesperadamente, agarradas às árvores e depois se calam para sempre. A cigarra Simone, canta maravilhosamente, com uma ternura e sensibilidade colossal. Linda e esguia, transpira sua feminilidade aguçando nossa fantasia.
    Nasceu no mesmo dia do menino Jesus, não por acaso, mas, antes de tudo, um presente do destino.
    Canta o amor, a vida feliz, a sensualidade em cada canção, como uma doação a todos nós, que a amamos de coração e peito aberto, para que entre nas nossas almas, seus agudos e seu sorriso.
    Simone com seus cabelos envoltos e encobrindo seu belo rosto, nos remete a Medusa, nela ao contrário da outra, que petrifica, no olhar para essa cigarra bonita, a vida fica melhor para se viver.
    Trigésima primeira Live da Simone no ano da Pandemia. Viva essa cigarra artista e todas as demais cantoras, que demonstram a força da mulher brasileira, o diferencial do Brasil.

  3. “Ninguém sentiu o teu espasmo X obscuro” “Atravessaste no silêncio X escuro” Dois casos de Sinestesia, uma das caracteriscas do Simbolismo!
    -Acredito que esta seja a maior frustração da maioria de nós, humanos: O contraste entre o mundo como gostaríamos que ele fosse; versus o outro mundo, que se impõe sobre nós!

  4. Poema CONDENAÇÃO FATAL

    João da Cruz e Sousa

    Ó mundo, que és o exílio dos exílios,
    um monturo de fezes putrefato,
    onde o ser mais gentil, mais timorato
    dos seres vis circula nos concílios;

    Onde de almas em pálidos idílios
    o lânguido perfume mais ingrato
    magoa tudo e é triste como o tato
    de um cego embalde levantando os cílios;

    Mundo de peste, de sangrenta fúria
    e de flores leprosas da luxúria,
    de flores negras, infernais, medonhas;

    Oh! Como são sinistramente feios
    teus aspectos de fera, os teus meneios
    pantéricos, ó Mundo, que não sonhas!

  5. SOBRE A TRANSLAÇÃO DO CORPO DO POETA MOR DO SIMBOLISMO BRASILEIRO JOÃO DA CRUZ E SOUSA, MORTO NA POBREZA, DESDE O SÍTIO, UMA ESTÂNCIA MINEIRA, EM 19 DE MARÇO DE 1896 PARA A CIDADE DO RIO DE JANEIRO

    João da Cruz e Sousa morreu no Sítio, uma estância mineira, em 19 de março de 1896 e seu corpo foi trasladado para o Rio de Janeiro, onde foi enterrado. Conta-nos Carlos Dias Fernandes que “o trem parou, os passageiros despreocupados, desceram : foi mister atingir a cauda do comboio, onde vinha o corpo no chão do carro, sobre uns papéis estendidos à guisa de lençol, sem uma flor, seu uma grinalda, sem uma luz. Foi indescritível a cena de dor desenrolada no vagão sem janelas, sem bancos, onde se transportavam muares e bois para o tráfego e açougues da cidade, No leito sujo, que as bestas conspurcavam, jazia imóvel, pequenino, envolto no seu único terno marrom, o ‘homem apocalítico’ que tivera sempre um sorriso e um hino para todas as galas da natureza, que cantara a vida, o amor e a morte, com todas as transcendências de sua exaltação iluminada.”

    Na estação da Central para receber o corpo, de Cruz e Sousa, apareceram somente quatro pessoas – Maurício Jubim, Tibúrcio de Freitas, Carlos Dias Fernandes e Nestor Vitor. José do Patrocínio chegou depois, e foi quem, generoso, mandou fazer o enterro.

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