“A vida passa, e eu sem ninguém, e quem me abraça não me quer bem…”

Resultado de imagem para antonio maria e fernando loboPaulo Peres
Site Poemas & Canções
Os jornalistas, radialistas e compositores pernambucanos Antônio Maria Araújo de Morais (1921-1964) e Fernando de Castro Lobo (1915-1996) relatam na letra de “Ninguém Me Ama”, as desilusões que a falta de um amor acarreta. Este samba-canção foi gravado
por Nora Ney  no LP Ninguém Me Ama, em 1960, pela RCA VIctor.
NINGUÉM ME AMA
Antônio Maria e Fernando Lobo
Ninguém me ama
Ninguém me quer
Ninguém me chama
De meu amor
A vida passa
E eu sem ninguém
E quem me abraça
Não me quer bem
Vim pela noite tão longa
De fracasso em fracasso
E hoje, descrente de tudo
Me resta o cansaço
Cansaço da vida
Cansaço de mim
Velhice chegando
E eu chegando ao fim

4 thoughts on ““A vida passa, e eu sem ninguém, e quem me abraça não me quer bem…”

  1. Muita gente vive assim “ninguém me ama/ninguém me quer”. Fazer o que?Um dia perguntou a Sandra Cavalcanti, candidata a deputada: “Quer dizer, dona Sandra, que a senhora é mal-amada?” A resposta de Sandra, dizem os espectadores da cena, assegurou-lhe a eleição. — Posso até ser, senhor Maria, mas não fui eu que fiz aquela música Ninguém me ama. ”

    Antonio Maria viveu intensamente seus 43 anos de vida. Encantou-se por um infarto fulminante dos três que tinha tido. Vinicius de Moraes disse que ele tinha foi vitima de uma grande e suicida vocação para morrer. Deixou belissimas canções e crônicas e muita paixão. Viveu pouco, mas viveu intensamente, e deixou um legado permanente em tudo que escreveu.Quando dividia um quarto no Catete com um colega que trabalhava durante o dia e claro dormia à noite, deixou um recado para ele: Quando chegar, se eu estiver dormindo, deixe-me dormir, mas se eu estiver morto, me acorde. São inúmeras suas canções, geralmente, de dor de cotovelo” Suas mãos, Canção da volta, Menino Grande, Onde anda você; sempre tinha grandes parceiros, como Dolores Duran, Fernando Lobo e outros. Também compunha jingles, como “Se a criança acordou
    Doooooorme, doooooorme filhinha
    Tudo calmo ficou
    Mamãe tem
    Auricedina”

    O coração nem sempre fala o certo. Ouça a cabeça em primeiro lugar, pois ela está colocada acima dele. Não se deixe levar pelo coração. Ele infarta.
    Recife vivia no coração dele, aonde quer que morasse. Vejam o Frevo n. 01

    Canção da Volta
    Antônio Maria

    Nunca mais vou fazer
    O que o meu coração pedir
    Nunca mais vou ouvir
    O que o meu coração mandar
    O coração fala muito
    E não sabe ajudar
    Sem refletir
    Qualquer um vai errar, penar-
    Eu fiz mal em fugir
    Eu fiz mal em sair
    Do que eu tinha em você
    E errei em dizer
    Que não voltava mais

    Nunca mais
    Hoje eu volto vencida
    A pedir pra ficar aqui
    Meu lugar é aqui
    Faz de conta que eu não saí

  2. Carta escrita por Vinicius de Moraes no dia da morte de Antônio Maria:

    Morrer num bar

    Aí está, meu Maria… Acabou. Acabou o seu eterno sofrimento e acabou o meu sofrimento por sua causa. Na madrugada de 15 de outubro em que, em frente aos pinheirais destas montanhas queridas, eu me sento à máquina para lhe dar este até-sempre, seu imenso coração, que a vida e a incontinência já haviam uma vez rompido de dentro, como uma flor de sangue, não resistiu mais à sua grande e suicida vocação para morrer.

    Acabou, meu Maria. Você pode descansar em sua terra, sem mais amores e sem mais saudades, despojado do fardo de sua carne e bem aconchegado no seu sono. Acabou o desespero com que você tomava conta de tudo o que amava demais: o crescimento harmonioso de seus filhos, o bem-estar de suas mulheres e a terrível sobrevivência de um poeta que foi o seu melhor personagem e o seu maior amigo. Acabou a sua sede, a sua fome, a sua cólera. Acabou a sua dieta. Aqui, parado em frente a estas montanhas onde, há trinta anos atrás, descobri maravilhado que eu tinha uma voz para o canto mais alto da poesia, e para onde, neste mesmo hoje, você deveria chamar porque (dizia o recado) não agüentava mais de saudades – aprendo, sem galicismo e sem espanto, a sua morte. Quando a caseira subiu a alegre ladeirinha que traz ao meu chalé para me chamar ao telefone – eram nove da manhã – eu me vesti rápido dizendo comigo mesmo: “É o Maria!” E ao descer correndo para a pensão fazia planos : ” Porei o Maria no quarto de solteiro ao lado, de modo a podermos bater grandes papos e rir muito, como gostamos…” E ainda a caminho fiquei pensando: “Será que Itatiaia não é muito alto para o coração dele?…” Mas você, há uma semana – quando pela primeira e última vez estivemos juntos depois de minha chegada da Europa, numa noitada de alma aberta – me tinha tranqüilizado tanto que eu achei melhor não me preocupar. Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu Maria, pois por mais forte e largo que fosse, a morte era o seu guia.

    Outra noite, pelo telefone, ao perguntar eu se você estava cuidando de sua saúde, você me interpelou: “Você tem medo de morrer, Poesia?” “Medo normal, meu Maria”, respondi. ” Pois olhe: eu não tenho nenhum” retorquiu você sem qualquer bravata na voz. “Só queria que não doesse demais, como na primeira crise. Aquela dor, Poesia, desmoraliza.”

    Mas como eu descesse – dizia – para atender à sua chamada, e atravessasse o salão da casa-grande, e entrando na cabine ouvisse (como há 14 anos atrás ouvi a voz materna) a voz paternal de meu sogro que me falava, preparando-me: “Você sabe, Antônio Maria está muito mal…”: e eu instantaneamente soubesse… – justo como naquela época soube também, quando a voz materna, em sinistras espirais metálicas, me disse do Rio para Los Angeles: “Sabe, meu filho, seu pai está muito mal…”, o nosso encontro marcado deu-se numa dimensão nova, entre o mundo e a eternidade: eu aqui; você… onde, meu Maria? – onde?

    Ah, que dor! Agora correm-me as lágrimas, e eu choro embaçando a vista do teclado onde escrevo estas palavras que nem sei o que querem dizer…

    Há uma semana apenas conversamos tanto, não é, meu Maria? Você ainda não conhecia minha mulher, foi tão carinhoso com ela… Tomamos uma garrafa de Five Stars no Château, depois fomos até o Jirau e terminamos no Bossa Nova. Eu ainda disse: “Você pode estar bebendo e comendo desse jeito?” “Por que, Poesia? Não há de ser nada… Qualquer dia eu vou morrer é assim mesmo, num bar…”

    Eu só espero que não tenha doído muito, meu Maria. Que tenha sido como eu sempre desejei que fosse: rápído e sem som. Mas é uma pena enorme. Você tinha prometido à minha mulher, a pedido dela, que recomeçaria hoje, nesta quinta-feira do seu recesso, no seu “Jornal de Antônio Maria” o seu “Romance dos pequenos anúncios”, que foi uma de suas melhores invenções jornalísticas e onde eu era personagem cotidiano: você sempre a querer fazer de mim, meu pobre Maria, o herói que eu não sou…

    Mas por outro lado, sei lá… Você disse nessa noite, à minha mulher e a mim, que nem podia pensar na idéia de sobreviver às pessoas que mais amava no mundo: sua mãe, seus dois filhos, suas irmãs e este seu poeta. “E Rubem Braga…”, acrescentou você depois, brincando com ternura, “Eu não queria estar aí para ler quanta besteira se ia escrever sobre o Braguinha…”

    Não irei ao seu enterro, meu Maria. Daria tudo para ter estado ao seu lado na hora, para lhe dar a mão e recolher seu último olhar de desespero, de maldição para esta vida a que você nunca negou nada e o fez sofrer tanto. Daqui a pouco o sino da casa-grande tocará para o almoço. Verei minha mulher descer, triste de eu lhe ter dito (porque ela dorrne ainda, meu Maria…) e de me deixar assim sozinho, sentado à máquina de escrever, com a sua morte enorme dentro de mim.

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