A virada de Dilma

Sebastião Nery

Na noite de 31 de março para 1º de abril de 1964, no Palácio Iguaçu, em Curitiba, estava todo mundo nervoso, excitado, ao pé dos rádios, ouvindo o noticiário para saber quem ia ganhar.

O coronel reformado do Exército e governador Ney Braga, perplexo, sem saber ainda que posição tomar, pediu a Hosken Novais (depois seu vice-governador) para redigir um “manifesto revolucionário” duro, “em favor da Revolução”. E pediu a Norton Macedo (depois deputado federal) para fazer um manifesto moderado, legalista, para qualquer emergência.

De repente, às 2 da manhã. entra no palácio o diretor da revista “Panorama”, Jorge Curi, com uma pasta cheia de papéis.

CURI

Ney imaginou que ele poderia ter notícias:

– Como estão as coisas, Curi? Quem vai ganhar?

– Sei lá, governador.                                                                           

– E com quem você está? Com a Revolução ou com o Jango?

– Ora, governador, não estou com ninguém. Eu quero saber é quem vai, nesta confusão, pagar minhas faturas de publicidade.

E jogou um monte de faturas em cima da mesa. Ney saiu para ver como estavam os dois manifestos. Usou o de Hosken e foi logo ministro.

 DIRCEU

Era um sábado de dezembro à tarde, no restaurante Piantella, em Brasília, depois da vitória de Lula contra José Serra, em 2002. Diplomado mas ainda não empossado, Lula estava no Rio Grande do Sul discutindo o novo governo com o PT de lá, o mais forte depois do de São Paulo.

A um canto do restaurante, em torno de uma mesa, já almoçados e tomando conhaque ou licores, os deputados do PMDB Michel Temer, Moreira Franco, Gedel Vieira Lima, Henrique Alves e Eliseu Padilha ouviam atentamente o que lhes dizia, à meia voz, o chefe da campanha de Lula e presidente da Comissão de Transição, José Dirceu.

Apesar de não haver apoiado explicitamente Lula na campanha, pois cada diretório regional tomou a posição que quis, o PMDB saiu das eleições com o maior número de governadores, senadores e deputados.  

 PMDB

Lula havia credenciado José Dirceu a negociar uma proposta  concreta : daria os ministérios da Justiça, Minas e Energia e Integração Nacional ao PMDB, em troca do apoio nacional do partido, sobretudo no Senado e Camara. Os nomes seriam apresentados e discutidos  depois.

Fizeram as contas : somados ao PT, PDT, PPS e PCdoB, senadores e deputados do PMDB garantiam a maioria no Senado e na Câmara. Dirceu ficou eufórico. Os peemedebistas também. Tomaram mais uma por conta.

Almoçando com uma amiga na outra ponta do restaurante, mal ouvi pedaços das conversas. Mas os nomes dos três ministérios ficaram claros.

Despediram-se calorosamente e Dirceu saiu porque ia telefonar para Lula, que ainda estava em Porto Alegre, a fim de dar a noticia. Lula ficou contente, aprovou o acordo, deu os parabéns a Dirceu e autorizou divulgar.

DILMA

Na segunda-feira, para espanto e decepção de José Dirceu e fúria do  PMDB, Lula voltou para São Paulo como Ney Braga para o palácio na madrugada de 1º de abril : com outra cabeça e decisão tomada. Uma virada. Não ia fazer acordo nenhum com o PMDB, porque “não era confiavel”.

A nova posição tinha sido decidida em Porto Alegre, depois de horas e horas de conversas com todo o comando do PT gaúcho : Olivio Dutra, Tarso Genro, duPont, outros, e uma jovem economista saída do PDT, Dilma Rousseff, secretaria de Minas e Energia do governo estadual do PT, que acabara de conhecer e que o impressionara muito, sempre com seu lap-top na mão e lá dentro os números dos Estados, do pais e do mundo.

MENSALÃO

O ministério seria composto por quem o havia apoiado na campanha e o PMDB que tomasse o caminho que quisesse. A maioria do Senado e da Câmara seria negociada com acordos partido a partido, caso a caso.

Encarregou José Dirceu de procurar os chamados “pequenos partidos”, ver o que cada um queria e acertar preços e compromissos.

Os três ministérios reservados ao PMDB já tinham donos : Tarso Genro na Justiça, Dilma em Minas e Energia e Ciro Gomes na Integração Nacional.

Ali nasceu o Mensalão : em vez de um acordão nacional com o PMDB, comprar partido a partido. Ficaria mais cômodo e mais barato.

Encostada na parede por Lula, José Dirceu e o PT de São Paulo, e pelo PMDB do Senado e da Câmara, Dilma deve ter se lembrado da “virada” de Lula na madrugada gaúcha e deu uma rasteira em todos eles.

É melhor duas amigas na mão do que um punhado de picaretas faturando.

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