A vitória do capital-motel

Carlos Chagas

Agora é oficial, por informação do Banco Central: o capital-motel que entra no Brasil é o dobro do capital que vem colaborar com o nosso desenvolvimento. Quer dizer: o especulador lá de fora envia seus milhões ou bilhões de tarde, passa a noite e vai embora de manhã depois de haver estuprado um pouquinho mais nossa economia. É remunerado com os juros mais altos do planeta, não cria um emprego nem forja um parafuso comprando e vendendo títulos do governo. E não paga imposto de renda.

Foi o sociólogo que criou essa vigarice, a pretexto de abrir o país para o neoliberalismo. O Lula não fez nada, aconselhado por Henrique Meirelles e companhia. Bem que poderia ter imitado o Chile conservador, onde o capital estrangeiro é obrigado a permanecer pelo menos um ano para poder, depois, retirar-se com os devidos lucros.

Os gringos avançam não apenas na floresta amazônica. Refestelam-se na nossa economia e sorriem de banda quando ouvem dizer que estamos crescendo como nunca. Claro: crescemos para eles especularem cada vez mais.

Dilma Rousseff, se eleita, carecerá de condições para mudar a política econômica herdada dos tempos de Fernando Henrique. José Serra, por sua vez, protesta contra os juros altos, mas silencia diante da lambança do capital-motel. Marina Silva dá de ombros, desde que o meio ambiente não saia prejudicado. Por mais estranho que pareça, o único candidato que se dispõe a fechar a caverna do Ali Babá é Plínio de Arruda Sampaio, que a imensa maioria do eleitorado nem sabe quem é.

Pelo menos protestou

Irritou-se o presidente Lula no eixo Altamira-Marabá com a manifestação de ONGs estrangeiras contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Mandou os gringos cuidarem da própria vida, parando de protestar contra o que seria a dilapidação da floresta amazônica, “porque dela cuidamos nós”.

Ponto para o primeiro-companheiro, não fosse o marasmo e até a conivência do governo diante da interferência dessas organizações postas a serviço de interesses econômicos e políticos. Porque desde sua posse, em 2003, que o Lula vem sendo alertado para a intromissão externa verificada através das ONGs e não fez nada. Existem até reservas indígenas onde brasileiro não entra sem licença dos gringos.

A farsa eleitoral

Aproxima-se o 5 de julho, prazo fatal para os partidos registrarem seus candidatos, desde os presidenciais aos que disputarão os governos estaduais, o Congresso e as Assembléias Legislativas. Pela legislação eleitoral, apenas a partir daquele dia eles serão chamados de candidatos e poderão iniciar suas campanhas…

Farsa igual poucas vezes se tem visto. O que fazem há meses, até anos, Dilma Rousseff, José Serra e os milhares de outros pretendentes a receber o nosso voto? Aqui e ali a Justiça multa aqueles que exageram, mas se fosse para aplicar de verdade a lei, melhor fariam os tribunais eleitorais se cercassem o país com arame farpado e decretassem estar todo mundo preso.

Ano que vem, com o novo Congresso, fatalmente ressurgirá a proposta da reforma política. Quem sabe para mais uma vez ser esquecida, mas valeria à pena um deputado de primeiro mandato, ainda iludido, apresentar projeto revogando toda a legislação eleitoral e mantendo apenas a proibição de uso de dinheiro público nas campanhas.

Serviço pela metade

Dilma Rousseff e José Serra cancelaram a ida a Caruaru, para a maior festa de São João do país. Agiram assim em função da tragédia que assola Pernambuco, com as enchentes. Fizeram bem, a hora não é para festejar nada. Perderam os candidatos, porém, oportunidade para solidarizar-se com as vítimas, percorrendo algumas das cidades semi-destruídas. Passaram ao largo por temor de sofrer a crítica de buscar votos em meio à desgraça alheia, mas se tivessem ido seriam muito bem compreendidos pela maioria. Em especial se tivessem posto seus aviões particulares a serviço dos necessitados. O diabo nessas situações é que ninguém admite ter sua imagem ligada a tragédias.

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