A viúva negra

Sebastião Nery

BUENOS AIRES – No imenso estádio de Huracan, no belo Parque Patrícios, os portões já estavam fechados. Lá dentro, 50 mil pessoas. O máximo permitido. Lá fora, anunciavam já mais de 10 mil pessoas diante dos telões.

Os oradores, negociados um a um, falavam representando seus partidos e organizações populares: ‘Frente Para a Vitória’ (o partido oficial da presidente Cristina Kirchner), o partido Justicialista (o velho partido peronista), o ‘Movimento Evita’, o ‘Movimento Campora’, o ‘Movimento Colina’, a ‘Frente Transversal’, o ‘Partido Comunista’, a ‘Juventude Sindical’, e outros, todos mais ou menos costelas ou pequenas dissidências do peronismo.

Pelos gritos e cantos do estádio, durante os discursos, dava para medir o tamanho de cada um.

De repente, como um vulcão, surge ela, toda de negro, os longos e negros cabelos caindo sobre o rosto, os grandes olhos negros, um sorriso na boca enorme, sacudindo braços e mãos. O estádio vai ao delírio.

Gritam, cantam e repetem o refrão: – “Borom – bom – bon, para Cristina la reeleicción”!

***
CRISTINA

Ela levantou novamente os braços para os quatro cantos do estádio e surpreendentemente, fez-se um silêncio que só os grandes oradores conseguem: -“Não há nação sem povo, não há povo sem nação. É assim e é por isso que estamos aqui, que continuaremos a construir a grande nação que queremos”.

De onde estava podia ver bem, em seu rosto tenso e sua boca aberta, as lágrimas rolando dos olhos rosto abaixo, como ela bebia a alegria, a euforia, a comoção daquele instante. Já vi grandes mulheres valentes e maravilhosas calarem um estádio inteiro com palavras e lágrimas. Na Madrid de 1975, Dolores Ibarruri, La Passionara, líder do Partido Comunista Espanhol, voltava de longos anos de exílio para viver na pátria democrática que ela ajudara a construir.

Na Sevilha do mesmo 1975, também vi Federica Montseny, a líder anarquista espanhola, ministra da Saúde da República destruída por Franco, recebida em lágrimas por seu povo. Os magníficos discursos das duas, que resumi para a revista “Isto É” e os jornais onde escrevia, nunca me saíram da lembrança.

O povo sabia quem eram. Pois foi nelas que pensei quando vi,  no estádio, a Cristina Kirchner, tão mais jovem do que elas, uma menina diante delas, arrebatando seu povo como elas faziam e fizeram e eu vi.

***
O DISCURSO

Ela estava ali para dar o recado a seus eleitores e seus adversários. Em nenhum instante disse o que todo mundo esperava: que seria a candidata à reeleição nas eleições de outubro. Mas também em nenhum momento deixou sequer a dúvida de que não seria:

– “Não lhes pergunto de onde vêem. Pergunto-lhes se estão de acordo, se concordam com tudo que conquistamos com nosso projeto de Nação. É preciso construir sobre as coincidências e não sobre as diferenças. Não se percam em discussões bizantinas. Construamos com amor e não com ódio. Nunca houve mais liberdade na Argentina do que nestes anos.

E Nestor não morreu. Vive no povo. Ele e eu sempre contamos com vocês para continuar mudando a Argentina. A geração do segundo centenário, os jovens que organizaram esta festa e enchem esse estádio, como minha filha Florência, que tem 20 anos e que está aqui a meu lado, vão continuar a lutar pela Argentina como Nestor e eu lutamos quando tínhamos os mesmos 20 anos dela.”

Parou, engasgou, chorou, e continuou.

***
TRES VITORIAS

Não levou um papel escrito, anotação nenhuma, não tropeçou em palavra alguma. Falou durante quase uma hora sem uma frase quebrada.

A viúva negra, a mesma quase menina de tantos anos atrás, sabe o que quer. Em 2003 eu estava aqui na fulminante campanha e vitória de Nestor Kirchner para presidente. E ela ali, aqui nesse mesmo estádio, a seu lado, vestida de vermelho, senadora mais bem votada do país pela província de Buenos Aires.

Em 2007 novamente estava eu aqui e a candidata a presidente era ela numa eleição também fulminante. E em um vestido todo florido.

Não sei como será em outubro. Mas ou a oposição se junta toda para derrotar a viúva negra, já com seus quase 50% em todas as pesquisas, ou ela vencerá outra vez, com o mesmo programa de defesa da economia da Argentina, no mesmo mês de outubro em que faz um ano que Kirchner morreu.

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