A volta do coronelismo

Sebastião Nery

Na vasta literatura sobre o coronelismo no Brasil, dois livros, já clássicos, se destacam: “Coronelismo, Enxada e Voto”, do chefe da Casa Civil de Juscelino na presidência da Republica, Consultor Geral da Republica e ministro do Supremo Tribunal Federal, o saudoso jurista e professor Victor Nunes Leal, e “Coronel, Coronéis”, do ex-ministro do Tribunal de Contas da União e presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vinicius Vilaça.

São estudos, pesquisas e testemunhos de uma realidade nacional de mais de meio século, antes da década de 50, aparentemente já ultrapassada.

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CHICO HERACLIO

Um dos símbolos daqueles tempos foi o famoso, valente e sábio coronel Chico Heraclio, de Limoeiro, em Pernambuco, que reinou décadas na sua cidade e suas terras, e nas cidades e terras da região. Foi o mais poderoso coronel do Nordeste, senhor da terra, do fogo e do ar em Limoeiro, onde a ultima palavra era sempre dele.

Mandava no comercio, na Prefeitura, na Camara de Vereadores, na Justiça. E sobretudo nos votos. Morreu em 1974, aos 89 anos.

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FILOSOFIAS

Deixou suas lições e filosofias, nem sempre corretas sabedorias:

– “Governo, meu filho, é como mulher: – Se não dá o que você quer, não tem nada a fazer com ela. Melhor esquecer do que ficar sofrendo”.

– “Não existe cabeça dura para pancada e dinheiro. Depende da quantidade”.

– “Quem não pode com o pote, não pega na rodilha”.

– O eleitor de Recife é muito a favor do contra”.

– “Governo não bota roçado, mas está sempre colhendo”.

Daria um dicionário.

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AGAMENON

Em 1950, jogou tudo na campanha de Agamenon Magalhães contra João Cleofas, na disputa do governo do Estado. Deu mais de 70 por cento dos votos da região a Agamenon. Agamenon tomou posse, Chico Heráclito foi lá. Agamenon estava eufórico:

– Chico, use e abuse do meu governo.

– Governador, muito obrigado. A Secretaria da Fazenda e a Secretaria de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada. Não quero nada. A não ser pedir para colocar água em Limoeiro e pelos meus amigos quando for preciso.

Pouco depois, voltou ao Palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função.

– Mas Chico, isso é muito difícil.

– Governador, se fosse fácil eu não vinha lhe pedir. Governo existe é para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

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FURNAS

 

Esse era um mundo de priscas eras, mais de meio século, que se imaginava perdido no tempo.

De repente, o país viu ressurgir o coronelismo político, liderado exatamente pelos dois mais fortes partidos: PT e PMDB.

No início do governo, a cada dia estouravam nas TVs, jornais, internet, novas e virulentas batalhas entre petistas e peemedebistas,disputando cargos no novo governo e, na verdade, impedindo que a Dilma governasse em paz.

Há exemplos por toda parte, todos os Estados. No Rio, PT e PMDB estraçalharam-se para ficarem com a direção de Furnas. Por que tanta voracidade? Não era pela energia de Furnas. Era pelo dinheiro de Furnas.

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NORDESTE

No Ceará, a mesma coisa. O governador Cid Gomes (PSB) exigia o Banco do Nordeste e o irmão de José Genoino, o deputado Guimarães, cujo assessor carregava na cueca 200 mil dólares até hoje inexplicados, não abria mão da FUNASA, um latifúndio de dinheiro e cargos públicos.

No Rio Grande do Norte, o insaciável Henrique Eduardo dizia que o Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) era dele e não abre.

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LULA

 

O país estava tendo uma estranha sensação de alívio, de bem estar, que ainda não sabia de onde vinha. É só prestar atenção que saberá. Eu sei. Era a primeira vez, em 8 anos, em que não se ouvia um só discurso de Lula.

Aquele bestialógico noturno diário, assegurado pela conivência bem paga das TVs, sobretudo do “Jornal Nacional” da Globo, acabara.

Nada fez tão bem ao país quanto livrar-se da verborragia de Lula. Mas agora ele quer começar tudo de novo

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