Abandonaram o Tibet

Carlos Chagas
                                                           
Vale o preâmbulo de que toda nação tem direito à autodeterminação. Quando submetida ou subjugada por outra, caracteriza-se violência inadmissível, a menos que seu povo careça de condições econômicas, políticas e culturais de governar-se sozinho.

O Tibet, tradicionalmente, forma uma nação, e vem sendo dominado pela China há décadas ou, se quiserem, há séculos. Tem os tibetanos o direito indiscutível de independência.

Só que surge um problema: por que, durante a visita desta semana do presidente chinês,  Hu Jintau,  a Washington, nem o presidente Barack Obama nem qualquer  congressista americano cobraram do ilustre convidado contas por estar a China oprimindo  o Tibet? Sumiram, faz algum tempo,  no  mundo inteiro, as  campanhas pela  resistência  contra o governo de Pequim, em termos da infeliz  nação tibetana. 

Certas coisas não acontecem de graça. A China incomoda meio mundo, ou mais. Aliás, já incomodava desde 1949, quando Mao Tsetung tomou o poder e estabeleceu o comunismo à moda chinesa, mais duro e inflexível do que outros espalhados pelo planeta.

Mesmo agora admitindo uma espécie de capitalismo singular, ou por causa disso, a China entrou feito faca na  manteiga na economia ocidental. Através de suas multinacionais, as grandes potências financeiras aceitaram, até porque tiraram e tiram  proveito das mudanças promovidas por Deng Tsiauping. 

Afinal, a mão de obra que utilizam em território chinês é infinitamente pior remunerada do que em seus países de origem.  Ganham rios de dinheiro, as multinacionais e a China, mas o crescimento econômico  e político  de nossos antípodas, importa repetir,  incomoda e significa um perigo dos diabos para o capitalismo mundial, nas próximas décadas.

Assim…  Assim, não  interessa mais  aos incomodados criar dificuldades e tentar reduzir  a influência chinesa no mundo, porque não conseguirão.  Passou para o mundo ocidental a  oportunidade de  desacreditar a China e seu regime. A última tentativa foi quando mais um passo significativo estava  prestes a ser dado pelos chineses  para  ampliar sua  presença em todos os continentes, quando da realização das Olimpíadas.

Explicou-se, naqueles idos, a  grita por liberdade ao  Tibet. Até os vassalos do Dalai-Lama foram  para as ruas,  em suas principais cidades, protestando contra a dominação chinesa. Mais estranho ainda, em todas as capitais da Europa e adjacências multidões invadiram  as embaixadas da China, queimando  suas bandeiras e, como por milagre, acenando com milhares de bandeiras do Tibet, costuradas e distribuídas não se sabendo bem  por quem.

Corrigindo, soube-se muito bem: pelos artífices da política agora na baixa, antes   elaborada nas sombras,  nos becos inidentificáveis e nos gabinetes secretos e refrigerados dos antigos  donos do poder mundial. Os mesmos que fomentavam rebeliões onde quer que surgissem  obstáculos à sua prevalência universal. Pois já surgiram e parecem intransponíveis através da pujança chinesa.  Desapareceram  não apenas as  rebeliões armadas, mas movimentos  culturais, religiosos, familiares, sociais e congêneres, como os  de apoio ao Tibet.  

No passado,  agiram com sucesso para derrubar o  Muro de Berlim e levar a União Soviética à extinção. Não que aquela nação deixasse de dar motivos  para ser relegada ao  lixo da História, mas até o falecido  Papa João Paulo II integrou-se na conspiração.  Tinham feito o  mesmo no Chile, na Guatemala, até no Brasil, só para ficarmos nos tempos modernos.

Parece óbvio que não podem mais  virar a China de cabeça para baixo, derrotados na tentativa de   criar empecilhos ao seu crescimento e à sua influência. Não dá mais para   travar e até  desmoralizar a nova superpotência. Curva-se o   mundo  à eficiência e à determinação   dos chineses.

Em suma, tem azeitona nessa empada, com a evidente colaboração da mídia internacional. Não se fala mais no Tibet. O mundo mudou, mesmo. E,  como sempre, um pouco para melhor, um pouco para pior…

JOGO DE CENA

No Congresso que volta a reunir-se no primeiro dia de fevereiro,  não se encontrará  um só parlamentar que concorde, retoricamente, com a violência dos últimos presidentes da República  em governar através de  medidas provisórias, coisa que até Dilma Rousseff dá a impressão de querer continuar.  Mesmo  o PT se insurge, ainda que apenas no gogó. Todo mundo critica a edição de éditos que não são nem de urgência nem de relevância, como manda a Constituição.

Protestam deputados e senadores contra o trancamento das pautas enquanto as medidas provisórias não são votadas. Querem mudar as regras do jogo, ironicamente alternando-se no apoio ou na condenação dessa singular forma de submissão do Poder Legislativo.

O diabo é que nada fazem e nada farão,  quando poderiam fazer. Dormem nas gavetas do Congresso mil e um projetos alterando a sistemática das medidas provisórias.  Na hora  de dar seguimento às mudanças, encolhe-se a maioria e até segmentos das minorias fazem ouvidos moucos aos próprios reclamos.�
O palácio do Planalto dispõe de instrumentos para conter qualquer movimento contrário aos seus interesses. Nomeações, favores, benesses – tudo funciona de acordo com seus objetivos. Se o inquilino (ou inquilina) maior  exige que as coisas  continuem como sempre, não há quem ouse enfrentá-lo. Continuarão  soltando seus ucasses.

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