Abdias do Nascimento sobe ao Olimpo Negro

Fernando Pawlow

Soube de Abdias em debates televisivos em meados dos anos 80, a presença na TV de alguém que se manifestava em linguagem limpa de eufemismos e a firmeza de sua postura me chamaram a atenção, sempre gostei de figuras carismáticas que  ganham dos acomodados e medíocres o rotulo de “polêmicos” (ele parecia ciente da necessidade de ser polêmico e explosivo para que sua mensagem não se despontencializasse na euforia do que se chamou naqueles dias “o carnaval da redemocratização”).

Nunca tive atenção captada por figuras mornas, e Abdias fervia na TV, era como Luis Melodia , Cartola, Martinho da Vila, rockers e bluesmen e sambistas vários, a personificação de algo que, quando dito sem ter em mente tais figuras, se torna recurso retórico gasto e oco, a negritude.

Poucos anos depois li “O Negro Revoltado” (volume que continha os debates e teses de dois Congressos  sobre a situação do negro no Brasil , encontros nos anos 50 que reuniram lideranças negras de vários extratos sociais discutindo os mais variados aspectos da convivência negra na sociedade brasileira) e as intervenções de Abdias nos dois Congressos e seus textos que tratavam de suas andanças no exílio (textos que completavam o volume , publicado pela Nova Fronteira). Confirmaram minha impressão – Abdias do Nascimento era inflamável , não armazenável em móulos elaborados pelo estamento universitário (ao qual ele próprio pertenceu) que tudo quer conter, qualificar e domar, drenar as forças, mumificar enfim.

Fui a encontros da “Juventude Negra e Favelada” (assim se apresentavam nos anúncios de jornais as reuniões no Centro de Cultura da Rua da Bahia , antigo Museu de Mineralogia) e uma “lider’ tentou me calar aos berros por eu ter ousado discordar de seus pontos de vista emprestados de lideranças petistas.

Ela se horrorizou com o que qualificou como um ‘desrespeito’ meu – eu disse que os jovens deveriam tomar “vergonha na cara” e se livrar de tutores da Universidade, quando perguntada por mim se lera Abdias do Nascimento. Admitiu que não, mas o fez como se tal falha fosse um pormenor levantado por um excêntrico. Muito BH – um “líder negro” da cidade na ocasião escreveu  para a seção de cartas da (se não me engano) ”Veja” dizendo ter orgulho de ser petista, pois o PT fora  pioneiro na defesa do negro, algo assim –  como discutir num ambiente destes?

Mas nestes encontros conheci Dj Francis, que naqueles dias integrava com Mc Renegado o grupo N.U.C. (Núcleo de Unidade Consciente do Alto Vera Cruz) e iniciei amizade que se interrompeu (espero que por brevíssimo intervalo). Francis veio à minha casa e se interessou pelo “Negro Revoltado” na minha prateleira e eu disse a ele “Tome como presente, ele tem mais serventia na sua estante que na minha”. E não preciso escrever o quanto a oratória e o magnetismo do “Negro por Excelência” cativaram Dj Francis que sempre que me encontrava, agradecia o livro que dizia não conseguir largar. Sou feliz por ter propiciado isto (o encontro com um autor que ilumina) a um amigo.

Se discordo da política de cotas (a qual validaria, ao meu ver o racismo, por considerar negros  necessitados deste expediente para entrar na Universidade, e quem não sabe que negros não precisam disto? Quantos negros, além do grande Abdias, não causam justa inveja ao branco por brilhantismo?) concordo com tantas outras posições e questionamentos do Movimento Negro, ao qual Abdias dedicou sua vida, sempre buscando o nivelamento pelo alto e a não vitimização passiva do negro (dai não entender sua defesa das cotas, ele – o  teatrólogo que obteve autorização de Eugene o’Neill para montar uma de suas peças, e o autor de peças que mereceram elogios de Nelson Rodrigues,  o qual muito o admirava – não precisou de cotas ) .

Abdias tinha tal liberdade espiritual que jamais escondeu sua passagem pelo Integralismo, como muitos o fizeram e o fazem ainda – não temia patrulhadores, e quando veio ao Brasil ainda no exílio para o casamento de um filho de seu amigo Gerardo Mello Mourão, deu entrevista às paginas amarelas de “Veja” onde denunciava as perseguições que sofria da ditadura (tais como a retenção de seus documentos, passaporte, me parece), a seu ver, pelas suas posições pró- Negro, uma vez que não era comunista – e quem em tempos de gigolagem de indenizações teria esta coragem, esta recusa em se vestir de vermelho até as cuecas, apenas para ficar bem? Aliás, na introdução do volume “O Negro Revoltado”, ele notava o racismo dos círculos comunistas americanos.

O maior crime contra o negro no Brasil, a meu ver, foi sua redução histórica, a violêcia de se jogar um povo que já estava na Idade do Metal na Idade da Pedra junto aos índios, mas este crime histórico muitos negros evitam denunciar, temem a pecha de “politicamente incorreto” e a perda automática de apoio de ONGs que tal atitude implicaria. Não sei a opinião de Abdias mas sei que isso não devia ser alheio a ele, que reinvindicava para os negros a autoria da Cosmogonia, que muitos atribuem aos gregos, mitologia que segundo Abdias se propagou pelo delta do Nilo e acredito pessoalmente nesta interpretação histórica.

Os deuses do Olimpo Negro saudam o guerreiro Abdias numa noite na qual o Brasil sofreu mais um desfalque dificílimo de repor.

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