Abertas novas matrículas na escolinha do professor Renan Calheiros

Resultado de imagem para renan charges

Charge do Son Salvador (Charge Online)

Percival Puggina

Profissionais da mente humana – psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, neurologistas – deveriam dedicar maior atenção a um fenômeno recorrente, que afeta as atividades cerebrais de milhares de pessoas, periodicamente, em todo país. Tais especialistas sabem que para obter mudanças de conduta e orientação são necessários anos de terapia, muito aconselhamento e acompanhamento, quando não caixas de remédio tarja preta. Não raro para obter resultados incertos.

Pois mesmo assim, feitas as imprescindíveis exceções das quais falaremos adiante, basta uma vitória eleitoral para que candidatos idealistas se transformem em pragmáticos e frios contabilistas de votos.

TRANSFORMISMO – Estadistas de campanha se convertem em políticos cujo único critério de decisão se extrai de uma planilha de perdas e ganhos eleitorais em cujas duas colunas o efetivo interesse público magicamente desaparece. Afinal, há uma nova eleição logo ali adiante, sabe como é.

Segundo  Ayn Rand, o altruísmo é uma perversão e o egoísmo uma virtude que faz o mundo girar positivamente. Ora, não deixa de ser paradoxal, perante essa exótica crença, esperar que políticos renunciem ao instinto de preservação de seus mandatos para aprovar projetos tão necessários quanto impopulares.

Por isso, nos parlamentos, em nome desse flagelo representado pela contabilidade eleitoral tomada como critério supremo das decisões políticas, necessárias reformas são rejeitadas enquanto absurdos patrimonialistas, pautas-bombas e insustentáveis demandas corporativas são aprovadas.

USOS E COSTUMES – É com essa política que estamos habituados. Em ampla maioria, os que se dedicam à disputa eleitoral têm seus mandatos gabaritados pelo egoísmo.

Eleitores tendem a rejeitar qualquer sacrifício, aparente ou real, que lhes seja imposto por uma reforma trabalhista, por uma reforma previdenciária, por uma privatização ou corte no tamanho do Estado, principalmente enquanto subsistem gritantes assimetrias de tratamento.

Como imaginar, então, que parlamentares atentos apenas ao próprio interesse eleitoral, aprovem tais medidas? A soma algébrica de votos ganhos e perdidos é altamente desfavorável ao bem nacional.

SEM CONFIANÇA – Eis aí o problema do Brasil, nesta hora de mudança. A conduta do Congresso Nacional cujo mandato se extingue em poucos dias levou tudo isso ao clímax. E note-se: a maioria dos que assumiram mandatos em 2015, ali entraram com discurso de estadista. Em grande maioria, porém, passaram pela automática, quase instantânea, transformação de mentalidade a que me referi no início deste texto. Aderiram à escolinha do professor Renan Calheiros.

Nossa esperança recairá, então, sobre a qualidade moral de uns poucos. Quais? Alguns leitores destas linhas haverão de estranhar, mas dias melhores para o Brasil, se vierem, virão dos que generosamente forem capazes de renunciar ao interesse próprio; pôr em jogo seus mandatos; aprovar sacrifícios, extinguir privilégios, promover cortes de ganhos para si e para os outros com vistas ao bem de todos; atuar com sentimento de solidariedade em relação às urgências reais da população. E desagradar os poderosos. Nossa esperança recai, enfim, no bom exemplo e no trabalho de convencimento exercido por aqueles que, eleitos, preservam o misto de indignação e esperança que os levou à política.

3 thoughts on “Abertas novas matrículas na escolinha do professor Renan Calheiros

  1. Bolsonaro inaugura um novo formato de “toma lá, dá cá”, oferecendo cargos nos Estados aos deputados não eleitos, vendendo a ideia de que, assim, eles se tornarão uma forte liderança regional. São negociações no varejo para indicações ao segundo e terceiro escalões.

    Levy Fidélix (PRTB), o pai do aerotrem é a alegoria perfeita do “toma lá, da cá” inaugurado pelo governo de Jair Bolsonaro.

    Nos últimos dias, o time da futura Casa Civil —formado por deputados do baixo clero que não conseguiram se reeleger para um novo mandato— tem conversado com integrantes de diversas legendas e seduzido, principalmente, nomes do PSD e do PR.

    O ex-deputado Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão, por exemplo, lidera o PR para tentar manter influência no Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), responsável pelo setor ferroviário.

    As tratativas com o futuro ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, estão avançadas e o PR já sinalizou que quer abocanhar também a vice-presidência da Caixa, indicando o deputado Milton Monti (SP) para o posto.

    Além de Gilberto Kassab (PSD), Danilo Forte (PSDB), Alberto Fraga (DEM), Ronaldo Nogueira (PTB) e Carlos Manato (PSL) formam a linha de frente da tropa que tem atuado para costurar a base de apoio para Bolsonaro.

    A partir de 1º de janeiro, eles querem alocar uma sala no Congresso para ser QG da articulação do novo governo.

    Manato afirmou à Folha que ele e Quintão inclusive já acertaram com o presidente eleito que começarão a trabalhar oficialmente logo após a posse, mas não renunciarão ao resto de seus mandatos, que só terminam em 31 de janeiro.

    O salário na Câmara é de R$ 33,7 mil e o cargo que ocuparão no Executivo deve pagar algo em torno de R$ 16 mil.

    Para driblar a diferença nos vencimentos, deputados derrotados nas urnas já pressionam o novo governo para conseguir participação em conselhos de administração pública que remuneram seus participantes.

    Segundo a assessoria do próprio presidente eleito, nas últimas semanas ele e sua equipe receberam cerca de 300 parlamentares, com reuniões formais com as bancadas de PSL, PP, MDB, PR, PRB, DEM, PSDB, PSD e Podemos.

    Siglas como PP e MDB tiveram alguns de seus parlamentares abordados individualmente, mas o comando das legendas diz que vai esperar o modelo “dar errado logo na primeira votação”.

    Em conversa com alguns aliados, o presidente Michel Temer fez um prognóstico: nomear deputados sem mandato para negociar cargos e emendas não tem chance de dar certo.

    https://goo.gl/nxgGDg

  2. A meu ver, essa guinada, se for verdadeira, deve-se às falácias punitivistas de Bolsonaro, cujo jagunço legalistas delas seria Sérgio Moro.
    Como grande parte dos congressistas não vão mais retornar ao Parlamrento; não tem mais nada a perder. E por não restar mais imunidade a essa parcela de parlamentares, pior do que isso, é sofrerem punição sem direito a nenhum atenuante, já que todos são alvos de processos. Usando dos seus “nada mais a perder”, para aprovarem matéria que desgastariam Jair e equipe, assim, os senadores e deputados esperam que a mão de Moro seja mais complacente sobre eles.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *