Abilio Diniz acorda do delírio e desiste do Carrefour. E quem ficou muito mal foi o BNDES, que está sendo pessimamente gerido.

Carlos Newton

O espertalhão Abilio Diniz desistiu do plano de união do Pão de Açúcar e do Carrefour no Brasil, anunciado há duas semanas. A decisão ocorreu no mesmo dia em que o sócio da varejista brasileira, o Casino, se posicionou oficialmente contra o negócio e que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) cancelou seu apoio à operação.

O francês Casino, que vinha descrevendo a proposta de fusão como “hostil e ilegal”, disse que seu Conselho de Administração rejeitou por unanimidade a tentativa de aliança do Pão de Açúcar com seu rival Carrefour.

Em nota, a Península Participações, que representa os interesses da família Diniz, disse reconhecer “que, nas presentes condições, não é factível prosseguir” com a atual proposta de fusão. Diniz, que atualmente divide o controle do Pão de Açúcar com o Casino por meio da holding Wilkes, esteve na reunião do Conselho do sócio francês em Paris, mas não participou da votação.

Agora, que o sonho acabou, quem ficou muito mal foi o BNDES, que não tinha de apoiar os delírios de Diniz, ao invés de se preocupar com os interesses  brasileiros. Sob comando de Luciano Coutinho, o BNDES tem sido uma decepção.

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O BNDES E OS BRASILEIROS 

Delfim Netto

É no mínimo estranha a interferência do BNDES numa transação privada, que deveria ser conduzida exclusivamente pelos sócios, como esta que envolve as empresas que comandam as redes mercadistas Casino, Pão de Açúcar e Carrefour. Não vi nenhuma razão que beneficiasse o Brasil com essa participação.

O que está aparente é que o dinheiro do banco seria usado para pagar os acionistas do Carrefour francês que estão querendo sair do negócio. Nunca se imaginou que esta poderia ser a sua função.

O BNDES é uma instituição muito importante para os brasileiros. Concentra um volume substancial de recursos públicos (e que, portanto, são subtraídos de todos os contribuintes) e recursos privados (que, no fundo, são dívidas contingentes do Estado brasileiro) destinados a financiar o desenvolvimento de nossa economia e a estimular o fortalecimento do mercado de capitais.

Sua criação, com a sigla BNDE, data de 1952, como instituição destinada ao financiamento dos programas da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, com aportes iniciais de recursos do Banco Mundial e do Eximbank.

Posteriormente, incorporou o Finsocial e com ele o “S” da nova sigla e criou uma subsidiária BNDESPar, uma sociedade anônima destinada a agilizar a missão do banco em participações acionárias para, basicamente, fortalecer o mercado de capitais; dinamizar empresas privadas nacionais; facilitar a criação, transferência e incorporação de novas tecnologias e estimular o fortalecimento gerencial de empresas nacionais.

O BNDES tem um corpo técnico de reconhecida competência. Até duas décadas atrás,  escolhiam – ou procuravam escolher – projetos nacionais pioneiros com boa taxa de retorno no longo prazo e alta probabilidade de sucesso.

Em anos recentes, porém, ele tem sido induzido por obra e arte do poder executivo de plantão a apoiar ambiciosos programas cujos resultados têm sido duvidosos.

Estimularam a criação de oligopsônios combinados com oligopólios (poucos compradores em mercados com milhares de fornecedores e milhões de consumidores), o que lhes dá enorme poder econômico e a possibilidade de controlar as margens de seus fornecedores e impor preços mais altos aos consumidores.

Mais do que isso, o BNDES tem sido chamado para salvar bancos privados que se meteram no financiamento entusiasmado de alguns setores sem a preocupação de aumentar-lhes a eficiência.

Envolve-se agora, de forma pouco razoável, numa intriga comercial entre dois sócios que nada tem a ver com o interesse nacional. Sem maiores cuidados deu apoio antecipado a uma operação que seria “boa para todos”, exceto para os consumidores e fornecedores brasileiros que mais uma vez seriam contrastados com um aumento do poder econômico.

No final, o recurso do BNDES (ou seja, o nosso dinheiro) iria reforçar um “campeão francês” em pura decadência comprando ações na França dos controladores do Carrefour que querem vendê-las e não têm para quem…

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