ABL 113 anos: viagem no tempo a um templo da cultura

Pedro do Coutto

Belíssima a edição do relatório das atividades da Academia Brasileira de Letras, administração de Marcos Vilaça, 2010, ano em que a Casa de Machado de Assis comemorou o centenário de morte de Joaquim Nabuco, intelectual, jornalista, escritor e diplomata, o gigante da abolição da escravatura. A ABL comemorou também seus 113 anos de fundação por Machado de Assis, pelo mesmo Nabuco, por Rui Barbosa, entre outros vultos que formam o elenco humano das altas passagens de nossa história.

Aliás, com o relatório assinado por ele e também pela acadêmica Ana Maria Machado, o Petit Trianon, réplica do que se encontra em Versalhes, nos propõe: uma viagem através do tempo a um templo da cultura. Mas não um centro estático de irradiação e reflexo do talento humano. Mas sim um pólo dinâmico que iguala passado e presente em nossa memória. Pois como Ferreira Gullar escreveu recentemente na sua página de domingo na Folha de São Paulo, não
pode existir pensamento sem memória.

Abre-se o relatório, nota-se a leveza dos textos quanto a beleza das imagens. E em meio a essa nuvem de conhecimento e tradição fazemos a viagem expressa entre o final do século 19 à segunda década do século 21. O prédio da Presidente Wilson, onde a Academia está até hoje, foi doado pela França, em 1923, como homenagem às comemorações pelo nosso primeiro centenário de independência, ocorrido um ano antes.

Seminários, painéis, literatura, música popular brasileira, futebol e literatura, a mulher hoje no Brasil, cinema, teatro, música, vozes da imigração, biógrafos e caçadores de almas. Foram temas que Marcos Vilaça encenou e abrilhantou expondo-os com seu talento e sua personalidade marcante.

São todos fatores de cultura, múltiplos como ela, pois a cultura, acima de tudo, como certa vez definiu um amigo meu, é a passagem do ser humano pelo mundo, seu eco, seu rastro, sua sombra. Deixa nesse rastro, como costuma acentuar o próprio Marcos Vilaça, com elegância, suas impressões digitais. Elas, as digitais, estão nas pirâmides dos séculos que tanto encantaram Napoleão, início de 1800, em sua passagem no Egito. Sobre os biógrafos não conheço melhor denominação que a de caçadores de almas. Inclusive porque biografias podem mudar com o tempo. Não em função de fatos, mas face as interpretações deles. São dinâmicos como o próprio processo de cultura que é inesgotável.

Como aliás, ao falar sobre a obra de Karl Marx, definiu com total propriedade o filósofo Leandro Konder, em entrevista ao Caderno Prosa e Verso de O Globo de 29 de Janeiro. O real, afirmou, é inesgotável, irredutível ao conhecimento crítico. Tem sempre algo a nos dizer que não entendemos ainda. E as gerações que se sucedem vão captando, vão percebendo, vão compreendendo, vão traduzindo. Pois, agora para mim, a vida é uma tradução permanente de atmosferas que envolvem as palavras. As palavras, sozinhas, nem sempre dizem tudo. Há muito a descobrir das situações humanas.

É este esforço que caracteriza a atuação de Marcos Vilaça: fidelidade ao dinamismo do tempo e das épocas, no rumo do futuro. Que, um dia, legaremos todos aos que, como disse Bertold Brecht, vierem depois de nós. E aqui, contemplando a bela edição da ABL 2010, deixo a pergunta para Vilaça e os acadêmicos responderem: as obras de arte dos séculos 20 e 21 serão, até daqui 200 e 300 anos, tão eternas como as da Renascença? Eis aqui projetado um patamar para um debate intelectual.

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