Abominável loteamento

Carlos Chagas

Quem quiser que bote panos quentes, mas a  verdade é que neste período de montagem do ministério de Dilma Rousseff  o país vem assistindo o  mais  um abominável espetáculo de loteamento do poder público e de chantagem explícita feita contra a presidente eleita.  Desde a instauração da Nova República não se via coisa igual. Aliás, é preciso debitar parte da precipitação da doença de Tancredo Neves às pressões por ele sofridas nas  vésperas de sua posse, que não houve. Naqueles idos, PMDB e Frente Liberal, cada um com grupos e alas conflitantes, todos  de goela aberta,  levaram  o saudoso mineiro a desabafar: “Resolvam vocês mesmo, eu já não aguento”. E não agüentou.

Dilma aguenta,  mas enfrenta verdadeiro massacre que Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique e o próprio Lula não enfrentaram. Dirão os otimistas que  na transição da ditadura para a democracia reuniram-se forças tão díspares ao redor de Tancredo quanto outras  se juntaram agora, para a eleição de Dilma. Pode ser, mas a explicação não justifica essa corrida desavergonhada ao poder.

Porque não se trata apenas de reivindicações do PMDB, do PT e dos penduricalhos. Falasse cada partido  uma só linguagem e  ainda poderiam compor-se com Dilma. O diabo é que em todas as legendas situam-se alas e grupos estanques e independentes, cada qual  julgando-se no direito de impor seus representantes.

Por exemplo: há o PMDB de Michel Temer, mas também o PMDB do Rio de Janeiro e o PMDB do Nordeste. Como existe o PT de Minas Gerais, o PT de São Paulo, o PT do José Dirceu e o PT da Bahia, entre muitos. Já não tentam impor apenas ministérios, tanto  os que detém no governo Lula quanto  outros. Levam abertamente aos coordenadores da transição imposições a respeito das presidências e das diretorias  do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, do Dnit, da Petrobrás e de uma infinidade de empresas públicas e órgãos da administração direta.

Raras vezes se tem loteado o poder como agora. Registre-se o brado ímpio do ressuscitado  Severino Cavalcanti , do PP: “Pernambuco não pede. Pernambuco exige!”

Completa essa equação de horror o componente Lula. Por mais que o presidente repita  não indicar nem vetar ninguém, do lado da Dilma todos pisam em ovos na simples suposição de que o primeiro-companheiro poderia gostar ou não gostar desta ou daquela indicação.   Acresce que eles tem conversado sobre nomes, como na madrugada de terça-feira, no palácio da Alvorada.

Em suma, se não tiver havido ou se não houver um basta, nas próximas horas, a nova presidente da República assumirá enfraquecida e refém do que há de pior em sua base política. Como temos sugerido, urge um murro na mesa e uma determinação fundamental para o futuro: escolher os melhores e os mais capazes sem aceitar imposições.

PACIFICAÇÃO, SÓ DEPOIS DA GUERRA

Posto no meio da frigideira efervescente, Michel Temer deve estar arrependido de não haver-se licenciado ou até renunciado à presidência do PMDB. Sobre ele precipitam-se pedidos e reclamos de toda espécie, bem como nós a desatar que nem a espada de Alexandre conseguiria. Ainda agora, diante das críticas sobre a formação do tal bloco de centro-direita, de seu partido com o PP, o PTB e outros, saiu-se o vice-presidente eleito com singular declaração à imprensa: “Conseguimos a pacificação!” Ora, se houve paz, e não houve, é porque antes havia guerra, e ainda há.

Estivesse Temer apenas na condição de vice-presidente da República  e metade de suas agruras não existiria. Fica, porém, o reverso da medalha: na hipótese de haver abandonado a direção do PMDB, o partido já teria se  esfacelado.

NÃO FOI COINCIDÊNCIA

Em espionagem prevalece a máxima de que coincidências não existem. Se determinado cidadão envolvido numa conspiração amanhece morto pelo que pareceu um ataque do coração, será bom  verificar se não havia veneno no chá que ele tomou antes de deitar.

No palácio do Planalto deveria valer a mesma cautela. Não dá para aceitar que o   defeito numa tecla da nova aparelhagem de som posta à prova na reunião do Conselho Político  tenha,   por coincidência,  transmitido os debates  secretos apenas para o auto-falante da Sala de Imprensa.  Por que não para as instalações da cozinha, do almoxarifado ou do dormitório da guarda?

Deliciaram-se os jornalistas com os diálogos de fisiologismo explícito verificados na reunião e até com o bom humor do presidente Lula, empenhado em  descobrir o prazo de validade dos biscoitos ofertados pelo deputado Sandro Mabel. Quem, no entanto, proporcionou a festa para os repórteres que cobrem a presidência da República? Respostas para o dr. Watson, durante as férias do Sherlock Holmes.

A ETERNA DESCULPA

Mais uma vez assumiu o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, o pretexto de que o salário mínimo não pode passar de 540 reais senão a Previdência Social vai quebrar. Não vai. Bastaria, para afastar a sombra de um déficit jamais comprovado lembrar-se das aulas de ciência que    terá   tido no ginásio, a respeito dos vasos comunicantes. A Previdência Social é pública, não constitui um corpo solto no espaço. Se falta dinheiro no setor, sobra na Receita Federal, por exemplo. Acresce que  para fazer  face ao mais do que necessário maior reajuste do salário mínimo, bastaria cobrar imposto de renda dos especuladores estrangeiros acostumados a levar  seu dinheiro para fora depois de aplicá-lo  no Brasil sem pagar um centavo.

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