Abstenção eleitoral é quase zero

Pedro do Coutto

O título acima pode – é natural – causar surpresa à primeira vista, mas, como uma nuvem passageira, tenho certeza, vai se desfazer com a leitura do texto. O tema ausência nas urnas foi muito bem abordado na Folha de São Paulo de 23 pela repórter Cátia Seabra. Ela revelou que o comando da campanha de José Serra está preocupado com um avanço da abstenção no segundo turno de 31 de outubro, sobretudo em conseqüência do feriado prolongado, dias 1 e 2 de novembro.

Muitos eleitores de renda mais alta sobem às montanhas (para não repetir a palavra serra) ou se deslocam para as praias. Basta que a previsão do tempo aponte dias de sol. Exatamente nos segmentos de rendimento maior por mês situa-se a vantagem do candidato tucano. Nos demais, segundo o Datafolha, como comentamos sábado, é batido por Dilma. Não serão muitos pontos, já que aqueles que ganham mais de dez salários mínimos no país representam 11% do eleitorado. São poucos, porém a abstenção no setor seria vital se a disputa estivesse equilibrada.

Não está. A margem de Rousseff sobre o ex governador, também de acordo com o Datafolha, é de 12 pontos. Encontra-se bem acima do índice tolerável de erro, ao contrário do que considerou meu amigo Merval Pereira, sábado, em sua coluna em O Globo, de tantos leitores e de tanto sucesso. Vale lembrar que, no primeiro turno, a diferença entre o que o Ibope e o Datafolha apontaram foi de 3 pontos. Estimaram 50, ela registrou 47. Como a vantagem de uma sobre o outro agora é acentuada, o quadro sucessório parece decidido. Mas o PSDB está correto em seu temor. Inclusive dentro da lógica eterna de que, se por um gol se vence, por um gol também se perde. E as palavras mas e se, digo eu, são as condicionantes permanentes da história. Tanto da universal, quanto a do Brasil, quanto a de todos nós. Vamos voltar ao tema abstenção.

Ela quase não existe em nosso país, sobretudo porque para nós o voto é obrigatório. Exceção para os jovens de 16 a 18 anos e para aqueles , que têm mais de 70. Cátia Seabra lembrou que em 2002, primeiro turno, a abstenção (aparente) foi de 17,7%. No segundo turno, de 20,4%. No pleito de 2006, no primeiro turno ela alcançou 16,7%. No segundo 18,9. É natural. Parte pequena dos que votaram nos candidatos não classificados desmotivam-se. Mas este é outro aspecto. Agora vamos focalizar a abstenção geral em si mesma.

A cada eleição que se distancia mais do último cadastramento a abstenção aparente aumenta. Isso porque a taxa anual de mortalidade no Brasil é de 0,6%. Ou seja: em mil, morrem seis. O último cadastramento foi efetuado em 1986, portanto há 24 anos. Muito poucas famílias preocupam-se em dar entrada com o pedido de abixa do título na Justiça Eleitoral. Com isso, à medida em que o tempo passa, a ausência teórica cresce. Trata-se de abstenção irreversível. Deve ser considerada nas estatísticas. Mas existe outra abstenção, esta real, porém não espontânea. Caso das pessoas doentes que em parte têm vontade de votar mas não podem. Em matéria de análise de números é preciso ter cuidado e observar-se as questões sob seus vários ângulos. Somando-se os falecimentos e as doenças, de 86 para cá, inevitavelmente chegaremos à conclusão que vontade de votar não falta. O eleitorado vai às urnas sempre com a esperança renovada de contribuir para que o país seja melhor e se torne mais justo.

É isso aí.

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