Acusação a Cunha (filmada e gravada) traz alívio temporário ao governo

Pedro do Coutto

O título, penso eu, exprime uma síntese política do episódio de grande impacto, sem dúvida, causado pela denúncia formalizada contra o deputado Eduardo Cunha pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, que a encaminhou ao Supremo Tribunal Federal. Lendo-se com atenção  a reportagem de Jailton de Carvalho, Vinicius Sassine e Eduardo Breani, O Globo de ontem, pode-se analisar objetivamente o episódio e seus vários reflexos, a curto e médio prazo, além de outros ângulos que destacam a eficiência das investigações. Vamos por partes.

Em primeiro lugar vemos que o choque causado na opinião pública afastou, num primeiro plano, a pressão pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, hipótese, aliás, bastante improvável na prática. Porém seu efeito é apenas passageiro, sobretudo porque a denúncia publicada, não amortece, ao contrário aumenta, o esquema de corrupção que abalou a Petrobras e o governo. Basta ler um trecho da matéria que saiu no Globo.

Refere-se detalhadamente ao encontro realizado a  18 de setembro de 2011, no edifício Leblon Empresarial, Av. Afrânio de Melo Fr4anco 119, das 19 às 21hs, Eduardo Cunha e Fernando Bahiano chegaram juntos e desceram de uma Land Rover placa EI28877. Claro que o Ministério Público possui a filmagem e a gravação dos diálogos interiores. Como a denúncia partiu de Júlio Camargo e ele foi cobrado por Cunha, provavelmente, é lógico, tanto o filme quanto a gravação da conversa foram produzidas e repassadas por Camargo à Polícia Federal.

O fato serve de exemplo a diversos outros encontros semelhantes que envolveram a participação de autores de delações premiadas com destinatários dos produtos da corrupção em massa, a qual, inegavelmente, ocorreu. E este é um ponto comprometedor para o Executivo. Onde estavam os órgãos de informação do governo? Em lugar nenhum. Não sabiam de nada.

Diante desse quadro, palco das crise, o governo submergiu numa onda de omissão, na medida em que se apresentou como incapaz de deter o maremoto a tempo, antes que ele atingisse as margens institucionais. O companheirismo terminou se transformando num dos principais fatores do desencontro entre a própria administração federal e os limites da Constituição e das leis. O alívio decorrente da sequência chamada Eduardo Cunha será passageiro. Anestesia o caminho do impeachment, mas não retira o Palácio do Planalto do vulcão em que a crise se encontra. Ao contrário. A opinião pública não absolve Dilma Rousseff somente porque condena Eduardo Cunha. São, é claro, parcelas diferentes, porém, convergentes no sentido  de um resultado final.

Importa pouco a capacidade de resistência de Eduardo Cunho na presidência da Câmara. Trata-se de algo passageiro. Importa muito, isso sim, a capacidade de o governo livrar-se das contradições que o aprisionam na teia política.

A FAVOR OU CONTRA

Outra reportagem, também divulgada na edição d ontem de O Globo, esta de Juliana Castro, Cristina Tadárguilham, Mariana Sanches, Sérgio Roxo, Stela Borges e Renata Mariz ao destacar as manifestações de rua de quinta-feira em favor do governo, revela bem nitidamente as divergências entre as correntes que delas participaram, ao mesmo tempo contra o impeachment, mas igualmente contrárias à política econômico financeira do ministro Joaquim Levy adotada parcialmente pela presidente Dilma Rousseff, esta é que é a verdade.

Logo, as forças populares não possuem unidade efetiva. Dessa forma, como será possível este mesmo governo manter-se unido para enfrentar a crise e a tormenta? Acrescente-se a tudo isso a proposta da empresa Camargo Corrêa – reportagem de Mário Cesar Carvalho, Folha de São Paulo também de ontem – de devolver 700 milhões de reais à Petrobrás e Eletrobrás.

Que dizer? Os fatos falam por si.

6 thoughts on “Acusação a Cunha (filmada e gravada) traz alívio temporário ao governo

  1. Licença ao autor do artigo para emitir dois comentários.

    O primeiro trata-se da lenta agonia até o capítulo final do cadafalso do deputado Eduardo Cunha. Seu destino se aproxima do ex-deputado e também ex-presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. A pressão da opinião pública costuma ser devastadora, até que o político por si só abandone o barco temendo um desgaste muito maior e até a perda dos direitos políticos por oito anos, em caso de destituição pelos seus pares. Vários deputados e senadores, desistiram de seus cargos para aliviar a pressão da sociedade, quando acusados de alguma irregularidade. Geralmente dá certo essa saída, em casos mais graves se torna impossível a artimanha para fugir da derrocada. Foram tantos, que nomeá-los seria enfadonho demais.

    Em segundo, considero um tapa na cara da sociedade e dos homens honestos que ainda existem no Brasil, a decisão da empresa Camargo Correia de devolver 700 milhões de reais à Petrobrás e a Eletrobrás, conforme reportagem de Mário Cesar Carvalho, Folha de São Paulo do dia 21 de agosto de 2015, aliás, citado pelo autor do texto em comento.

    Será realmente de 700 milhões o valor da tunga nas empresas estatais, Petrobrás e Eletrobrás? Ora, senhores, um simples gerente da Petrobrás, o Sr. Pedro Barusco, portanto, um empregado público, sem nenhuma grande empresa, devolveu 97 milhões (de dólares). É só comparar a desproporção dos valores, simples exercício de lógica para concluir que algo está errado nessas contas. Com a palavra a Procuradoria da República, que tantos benefícios vem prestando ao país, na investigação da Lava Jato.

    O povo brasileiro não pode continuar a ser enganado pelos poderosos de plantão. As empreiteiras estão indóceis a procura de uma saída para continuar a receber financiamentos para executar obras públicas, financiamentos oferecidos pelos bancos do Estado (nosso dinheiro). Logo, um acordo de leniência, que significa confessar aquilo que interessa e oferecer uma merreca de indenização pelos mau feitos e estamos assim, todos perdoados para continuar a vida que segue.

    Só, que muitas pessoas morreram pelo caminho por falta de atendimentos nos hospitais, por falta de macas, de remédios, pelo rombo nas contas do estado, enquanto fortunas foram mandadas pelos doleiros da corrupção para paraísos fiscais mundo afora. Essa fatura não há como saldar, o efeito foi devastador, inclusive com reflexos no atual desemprego e desespero das famílias, que estão se desintegrando por falta de pão na mesa e olha que estamos apenas no começo da crise.

    O que fazer minha gente? Por que roubaram tanto nas obras que poderiam sair por um preço bem menor do que foram licitadas? É justo fazer isso em benefício próprio, enquanto crianças vão para as escolas, que não têm o mínimo de condições para um aprendizado eficaz, como as crianças japonesas, que têm cada uma um computador individual? O futuro do país está ameaçado por culpa da corrupção desenfreada, me desculpe ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que afirmou não ser esse o mal maior e sim a má gestão dos recursos públicos. Ouso discordar do sociólogo e intelectual da Sorbone.

  2. O Temer deixara a coordemacao politica .Vao amtecipar o Congresso do PMDB
    Quem conhece Brasilia sabe que o horario comercial e ‘inverso ‘, teatro de dia e expediente a noite.

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