Acusações e ataques pessoais radicalizam campanha

Pedro do Coutto

Faltando apenas dez dias para as urnas do segundo turno, as acusações e os ataques pessoais passaram a predominar em larga escala, conduzindo para a radicalização do confronto entre Dilma e Serra. Ontem agravada com os acontecimentos verificados na Zona Oeste do Rio, quando militantes do PT atacaram fisicamente o ex-governador paulista, que teve de ser atendido no Hospital Samaritano, bairro de Botafogo.

Com isso, a temperatura política subiu e ameaça até atingir a fervura nos próximos dias. Não soma nada para o país, tampouco para a democracia e população que aguarda – e continua esperando – projetos exequíveis, que estão faltando, e não promessas impossíveis de cumprir. Pois para serem cumpridas necessitariam de investimentos colossais. Não somente em dinheiro. Mas também no campo da tecnologia e na esfera insubstituível dos recursos humanos.

Hoje, anunciam-se soluções para problemas que se eternizam como se elas pudessem surgir no cenário nacional à base de um passe de mágica. Questão das escolas públicas, das creches, do saneamento, dos transportes, da habitação, da segurança e da saúde. No papel e na voz resolve-se tudo. Na prática a teoria é outra, como dizia o velho senador Benedito Valadares.

Na prática a teoria é outra, eis aí uma sólida verdade. A candidata e o candidato revelam –  e assim se comprometem – a construir e equipar um número enorme de hospitais, com atendimento com consultas previamente marcadas. Agentes de saúde iriam às residências informar a data e a hora. Absurdo total. Uma farsa. Num país sem saneamento, como o Brasil, em que 54% dos domicílios não contam com rede de esgoto, como se pode cuidar da saúde? Para chegar à conclusão verdadeira basta vacilar diante da resposta interior de cada um de nós.

Mas eu falava em radicalização e violência, primeiro verbal de ambos os lados, agora também física a partir de um deles. Onde estão as propostas de governo sérias, exequíveis, que o eleitorado sinta como possíveis e não como sonhos de uma noite de verão? Isso de um lado. De outro, como técnica de comunicação, radicalizar é um erro total. A população, em sua maior parte, não aceita o cotejo nestes termos. A melhor prova disso foi a atuação, brilhante, sem dúvida, mas agressiva e rancorosa em excesso, do governador Carlos Lacerda.

As eleições no Rio, em 65, provaram a contradição. Flexa Ribeiro, seu candidato à sucessão estadual, perdeu por maioria absoluta para Negrão de Lima. E quando escrevo este artigo, me lembro de entrevista que fiz com o ex-presidente Juscelino, em 63, para o Correio da Manhã quando ele teve sua candidatura à sucessão de 65 – sucessão que não houve – homologada antecipadamente pelo antigo PSD.

Na campanha – afirmou – não vou atacar ninguém. O adversário seria Lacerda, que derrotou Magalhães Pinto, primeiro na convenção da UDN de Curitiba para fixar uma posição em torno da reforma agrária, depois na convenção de Niterói. Não acuso qualquer pessoa. Vou me concentrar no meu projeto de continuidade do plano de metas que mudou o Brasil de janeiro de 56 a janeiro de 61, (os anos dourados assim chamados por Gilberto Braga em sua novela que tanto sucesso alcançou na Rede Globo).

O povo não gosta, não aceita violência, a troca de ofensas e acusações. O que a população deseja mesmo é serenidade, cordialidade, tranqüilidade. Anos depois de JK, as pesquisas eleitorais americanas acentuaram esta verdade. Juscelino estava à frente de seu tempo. Era um contemporâneo do futuro, como o definiu um dia o deputado Paulo Pinheiro Chagas.

Na atual campanha, Dilma e Serra retornam no tempo. Tornam-se contemporâneos do passado. Um retrocesso.

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