Adeus a Chico Anysio, o segundo maior comediante do mundo

Pedro do Coutto

A morte, esse fantasma inexorável da existência humana, terminou neste início de outono vencendo a luta que travou com Chico Anysio, um grande artista que deixa o palco para a eternidade no rastro luminoso das imagens que criou na vida.

Seu desaparecimento comove, como comoveu fortemente Hélio Fernandes, que me deu a notícia pelo telefone e pediu que escrevesse sobre ele. Conversamos sobre sua versatilidade enorme, a profundidade de sua atuação, a diversidade dos personagens que construiu e uniu, todos eles, em torno de si, fascinando a multidão através do riso, pelo qual respondia às situações que o sensibilizavam, acentuando as próprias dúvidas sobre a condição humana. Os grandes artistas são assim.

Foi, concordamos Helio e eu, sem dúvida, o segundo maior comediante do mundo de todos os tempos. O que equivale, a meu ver, a classificá-lo como primeiro, já que o primeiro Charles Chaplin, como Carlitos, não pode ser comparado a ninguém.

Pouquíssimos atores tiveram, como ele, Chico, capacidade tão extraordinária de transfiguração. Carlitos, claro, Gean Maria Volonté, outro, mas este um ator dramático. Entre as atrizes, Hillary Scraton, vencedora de dois Oscar com Meninos Não Choram e Menina de Ouro. Difícil encontrar mais alguém capaz de colocar o personagem acima de si mesmo, mudando de fisionomia e atmosfera de uma representação para outra.

Chaplin foi o eterno Carlitos, Himkley (O Grande Ditador) e Calvero, este em luzes da Ribalta (não confundir com Luzes da Cidade) e Um Rei em Nova York. Chico Anysio foi tantos de si mesmo que talvez ele próprio não se reconhecesse em todas as situações.

Não quero – tampouco poderia – comparar sua obra com a de Chaplin. Estou somente me referindo à genialidade de suas transformações. Chico Anísio, não sei porque, não tentou lançar-se a uma produção mais ampla. Pessoalmente disse a ele isso, que estou escrevendo agora, quando participamos, eventualmente juntos, na mesa de debates que Haroldo de Andrade brilhantemente dirigia na Rádio Globo. Participei duas vezes por semana ao longo de dezessete anos.

No dia em que Chico Anísio começou, Haroldo pediu-me que falasse sobre sua nova presença no rádio. Ele, antes de projetar seu talento na televisão, final da década de 40, era parceiro de Haroldo Barbosa, Nancy Vanderlei, com quem se casou, José de Vasconcelos e Grande Otelo na Rádio Mayrink Veiga, que não existe mais.

Vale lembrar que foi José de Vasconcelos quem o levou para o rádio. Daí para o teatro com Grande Otelo, numa sátira de Romeu e Julieta. Quando Haroldo de Andrade me disse que falasse sobre Chico Anísio, afirmei o que repeti agora: muito acrescentaria ao programa, pois se tratava do segundo maior comediante do mundo. Acrescentei que o primeiro não poderia ser cotejado com nenhum outro. Só O Grande Ditador já consagraria um artista para sempre. Além disso, Chaplin é (será sempre) autor de duas canções belíssimas que estão em Luzes da Ribalta.

Mas se a intensidade da obra os distingue e separa, o uso da comédia como instrumento social os aproxima. Os comediantes denunciam as falhas da condição humana através do riso e do sorriso. Mas não levam a mensagem ao plano da ruptura.

Contornam situações críticas, como definiu o jornalista André Bazin (Cahiers Du Cinemá) sobre Chaplin, num ensaio magistral. Carlitos e Anysio encontraram-se no final da semana diante de um relógio sem ponteiros. Espero ter sido um intérprete razoável do homem múltiplo da Chico City.

E agora me vem à memória que foi ele a primeira pessoa que conheci quando comecei a freqüentar o Fluminense em setembro de 45. Estava ao lado de José de Vasconcelos na piscina do clube. Neste momento estão em outra vida. Porém os múltiplos personagens que criou – quadro genial de Chico Caruso, O Globo de sábado – ficam para sempre. A legenda que Caruso, também grande artista, colocou disse tudo: “Eu vou. Vocês (personagens) ficam”. Foi mais um momento da eternidade da arte e do artista.

Já ia esquecendo: Chico Anysio morreu sem realizar um grande sonho: ele queria escrever a biografia de Helio Fernandes. Os dois gigantes dialogando sobre o Brasil das últimas décadas resultaria, é claro, numa obra monumental.

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