Adeus a Itamar Franco, exemplo e emblema para a histria

Pedro do Coutto

De repente no ltimo vero, para recorrer a um ttulo de Tennessee Williams, depois de mais uma vitoria nas urnas, o senador Itamar Franco descobriu que a leucemia o estava torpemente apunhalando. Lutou com bravura, como sempre fez ao longo de sua bela vida poltica, mas no pode resistir a essa cilada do destino. Morreu no alvorecer de sbado, deixando para a histria do Brasil um exemplo raro de integridade absoluta, sobretudo nos dias de hoje quando se torna pouco ntida a linha que separa os interesses pblicos de objetivos particulares, e um emblema eterno de esprito pblico.

Apresentado a ele por nosso grande amigo comum, o saudoso Jos Aparecido de Oliveira, durante um almoo em sua casa, percebi logo seu carter. Um homem honesto, sobrevivente de uma espcie de polticos do passado que me parece em processo de extino. Os fatos concretos que esto a comprovam minha afirmativa.

Era um sbado. Ele estava assumindo interinamente a presidncia da Repblica numa viagem ao exterior de Fernando Collor. Um ano depois, assumiria em definitivo o Palcio do Planalto, consequncia do desabamento interior do titular eleito em 89.

Teve viso. Assumiu em momento de crise aguda, dignificou o posto, dignificando-se a si mesmo e resgatando espaos decisivos da tica e da moral pblica. Foi o autor da emenda constitucional 33/1993 que criou a CPMF, cuja receita para a Sade seria dividida com os bancos a partir de 95 para assegurar o pagamento dos juros para rolar a dvida interna.

Dvida interna? Itamar a deixou na escala de 62 bilhes de reais.
Itamar tornar-se-ia tambm ele sim, e no Sarney (art. Folha de So Paulo de 02/07) o verdadeiro autor e responsvel pela elaborao e pelo lanamento poltico do Plano Real, que mudou para melhor a face da economia brasileira. No s da economia, mas da sociedade brasileira.

Estava esquecendo de dizer, mas preencho a lacuna: FHC recebeu a dvida interna em 62 bilhes e multiplicou por onze vezes aos juros de 26%. Um desastre. Itamar empenhou-se a fundo em sua vitria sobre Lula. No fosse seu apoio, FHC dificilmente chegaria ao poder. Reeleito ento com seu prprio esforo, nele FHCpermaneceu por oito anos.

Na alvorada de 2002, outra atuao decisiva de Itamar Franco, ento governador de Minas, para a vitria de Lula. Abriu mo da reeleio em favor de Acio Neves, que se elegeu por larga margem de votos. Com isso, Itamar no s forneceu a Lula 50% dos votos mineiros, como – detalhe essencial imobilizou o prprio Acio, indiretamente impedindo que pudesse apoiar Jos Serra, seu companheiro do PSDB na poca. Hoje Serra e Acio encontram-se em plos opostos na estrada da oposio a Dilma Roussef. Mas este outro problema.

No adeus a Itamar, tenho certeza de que, nesta altura, ele j se encontrou com Jos Aparecido e Juscelino na eternidade. Viajou para o cu numa nuvem de honestidade, de integridade de compromisso social. No fossem tais caractersticas, no teria sido responsvel pela indicao do engenheiro Jos Pedro Rodrigues para presidir Furnas no primeiro mandato do presidente Lula.

No momento em que Itamar parte e segue seu destino, escrevo este artigo convencido de sua grande dimenso poltica. Ele mudou a rota do pas quando este parecia que ia mergulhar numa catstrofe e num abismo sem volta.

A Nao deve isso a ele.

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