Adeus a Itamar

Sebastião Nery

JUIZ DE FORA – Ele sempre foi Forrest Gump. Mesmo quando fazia  errado, dava certo. Mineiro de Juiz de Fora, mas nasceu em Salvador, na Bahia, em 28 de junho de 1931, chegando de navio. Chamava-se Itamar Augusto Cautieiro Franco, não se sabe se “pedra (ita) no mar” ou “navio (ita) no mar”. Pela estrela, devia ser navio. Pedra afunda.

Presidente do Diretório Acadêmico da Escola de Engenharia de Juiz de Fora, comandava seis votos (dois da Engenharia, dois da  Enfermagem, dois da Assistência Social) e era um sufoco arrancar a decisão dele antes de cada eleição da nossa UEE, União Estadual dos Estudantes (eleição indireta, dois votos por Faculdade). Até nos prendia.

Em 1953, Peralva Miranda Delgado, líder na Faculdade de Direito de Juiz de Fora, vereador do PTB eleito pelos comunistas (depois vice-reitor da Universidade Gama Filho, no Rio), iria com Itamar pegar-me na estação para discutirmos a eleição da UEE. Peralva não foi, nem Itamar. Desci sozinho e um investigador de Belo Horizonte, que estava no trem e me conhecia do “Jornal do Povo”, do Partido Comunista, levou-me para o xadrez. Cadeia siberiana. Um frio de lascar, a noite inteira sentado em um banquinho. Até que Peralva e Itamar me descobriram no dia seguinte. Mas Itamar não falhava conosco. Votava sempre com a esquerda;

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PREFEITO

Em 1954, 23 anos, antes da formatura, candidato a vereador pelo PTB, perdeu. Em 58, candidato a vice-prefeito, sempre pelo PTB, perdeu novamente. Veio o golpe de 1964 e cassou o PTB inteiro de Juiz de Fora, a começar por Clodismith Riani, presidente Nacional da CGT. Menos Itamar. Era amigo do governador Magalhães Pinto, que o protegeu.

O comando da UDN de Juiz de Fora era de Pedro Aleixo. Através de José Aparecido, amigo de Itamar, Magalhães fazia política em Juiz de Fora aliado ao PTB, que o apoiou contra Tancredo Neves em 60.

Em 1966, fundador do MDB, era o único petebista importante de Juiz de Fora não cassado. Disputou a prefeitura e ganhou com 75% dos votos. Em 1972, voltou à prefeitura. Em 74, Tancredo, o candidato natural, não acreditou na eleição para senador. Matando os assessores de angustia, Itamar deixou a prefeitura no derradeiro minuto. Saiu para ganhar.

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SENADOR

Candidato da ARENA, José Augusto, ex-presidente da Assembléia, instituição do PSD, desafiado por Itamar para um debate, não aceitou. Esperou Itamar viajar para o interior, pôs uma cadeira vazia no programa da ARENA na televisão e dizia que o estava esperando para o debate.

Itamar voltou sem dizer nada, entrou no estúdio (os programas eram ao vivo), sentou na cadeira e desafiou: “Cadê o Zé Augusto? Chamou e correu”. O velho jantava em um restaurante próximo, pegou um porrete, foi para a televisão e entrou no estúdio para quebrar Itamar. Os câmeras não deixaram. Minas inteira viu, foi um escândalo. Itamar ganhou.

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COLLOR

Presidente da Comissão de Corrupção do governo Sarney no Senado, em 89 Itamar pensava em ser vice de Brizola. Disse-me que ele ia ganhar. Hélio Garcia, governador, também queria ser vice de Brizola. Brizola sabia e nunca ligou para nenhum dos dois.Dizia que mineiro iria conspirar contra ele. A paranóia de Brizola achava que ele era Getúlio e ganharia sozinho.

Itamar foi vice de Collor. Apesar do empenho dos amigos Hélio Costa, Renan Calheiros, eu e outros, só decidiu mesmo numa quase madrugada, no gabinete do Ministério da Cultura, depois de horas de discussão com José Aparecido, que o convenceu assim (vi e ouvi):

– Se você se eleger vice de Brizola, não muda nada na política de Minas. Brizola não entra em Minas. E, se perder, fica mal. Mas se você se eleger vice de Collor, você comanda Minas. E, se perder, não perde nada.

A entrada de Itamar no PRN e o registro da candidatura no cartório de Juiz de Fora, no último minuto, foi uma operação de desespero.

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A ESTRELA

Dias depois, Itamar foi pela primeira vez a Minas com Fernando Collor, para um debate na Federação das Industrias. Quando descemos no aeroporto da Pampulha, estava lá, aflito, o jornalista Odin Andrade, querido companheiro de velhos tempos da imprensa mineira:

– Nery, o Collor não pode cometer a loucura de ter o Itamar como vice. O Itamar tem uma estrela maior do que a do nascimento de Jesus Cristo. Se ele for o vice, Collor não acaba o mandato e ele vai ser o presidente. Diz ao Collor para tirar o Itamar e pôr outro. Ele é um raio.

Na volta para Brasília (Itamar ficou em Belo Horizonte), contei a conversa a Collor. Deu uma gargalhada. Riu da verdade. E deu no que deu.

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“A NUVEM”

Em 2 de dezembro, fui lançar “A Nuvem” em Brasília. Itamar ligou:

– “Nery, não vou poder ir ao lançamento de seu livro. Estou indo a Juiz de Fora. É uma pena.  Nossa geração mineira de 1930 (ele de 31, eu de 32), de Zé de Castro a Zé Aparecido, está indo embora. Sucesso e se cuide”.

Domingo, aqui em Juiz de Fora, vi mais uma vez quanto Minas o queria.

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