Adeus a Talarico, grande figura humana, testemunha da História

Pedro do Coutto

A história moderna do Brasil, se é que se pode chamá-la assim considerando-se os últimos 80 anos, da revolução de 30 aos dias de hoje, perdeu ontem uma testemunha importante, notável figura humana, que viveu os bastidores do trabalhismo, José Gomes Talarico. Viajou aos 94 anos para a eternidade, e seus arquivos, sugiro à viúva Francisca, devem se incorporar aos da Fundação Getúlio Vargas, no centro de memória coordenado pela professora Marly Mota.

São importantes para iluminar sombras e pontos ainda obscuros do passar do tempo desde a passeata da UNE, da qual participou em 42 e que culminou com a demissão de Filinto Muller da chefia de Polícia, até o crepúsculo marcado por sua nomeação pelo governador Leonel Brizola, para o Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Foi deputado federal, estadual, assessor do presidente João Goulart, seu amigo pessoal, jamais se afastou dele mesmo quando para encontrá-lo tinha que voar a Montevidéu e seguir para a fazenda de Taquarembó. Nos trajetos constantes, prisões também freqüentes pelos governos da ditadura militar, ciclo dos generais no poder, iniciado com a queda de Jango em 64, concluído em 85 com a posse de José Sarney na presidência da República.

Talarico foi um dos fundadores da União Nacional dos Estudantes, em 37, um dos fundadores do PTB de Vargas em 45. Percorreu muitas décadas difíceis. E as viveu intensa e apaixonadamente. Mas sempre colocando a amizade, fraternidade, dignidade humana acima de tudo. Como um historiador francês disse de Clemenceau, o tigre da guerra de 14/18: devia ser enterrado de pé, pois assim ficaria com o coração acima do estômago e com a cabeça acima do coração. Foi um grande emotivo. Por tudo que fez e de que participou há de ter levado muitos segredos para o túmulo.

Porém no depoimento que – acredito – ele deu ao setor de História Oral da FGV, há de ter dissipado nuvens. Se não o fez, não tenho certeza, penso que Marly Mota poderá tentar fazê-lo. Comecemos pela passeata da UNE, 42, início de agosto. Vinte navios mercantes brasileiros haviam sido covardemente afundados por submarinos nazistas. Os estudantes saíram às ruas do Rio. Talarico
entre eles. Foram pedir autorização a Filinto Muller para realizar a manifestação. Vargas havia demitido na véspera o ministro da Justiça, Francisco Campos. Filinto negou. Os estudantes não se conformaram e foram ao ministério. Ocupava interinamente o cargo um diplomata de 29 anos, Vasco Leitão da Cunha. Autorizou a passeata. Inconformado, Muller rumou direto ao Palácio do Catete para entregar o cargo a Getúlio. Quando entrou na sala, já estava demitido por Vargas. Assumia a chefia de Polícia Hildebrando de Goes.

Talarico viveu o cerco ao Palácio do Catete, últimas horas de Vargas. O cerco ao Palácio Laranjeiras, últimas horas de Jango no poder. Viveria também as últimas horas de João Goulart na vida. O cenário era a tristeza na fazenda Taquarembó. Talarico contou a mim, numa entrevista para a Tribuna da Imprensa, que Jango, sem o saber, teve um motorista tupamaro. Por este motivo foi convocado ao Ministério do Interior. Não disposto a ser inquirido, Goulart viajou de carro do Uruguai para outra fazenda sua, esta em Rosário, Argentina. Chegou ao entardecer. Momentos finais de sua vida. Jantou, tomou remédios para o coração, era cardíaco. Morreu de madrugada. Seria a operação Condor? Personagem misterioso, me disse Talarico, entrou na casa e arrebatou a medicação. Misteriosamente também.Talarico não soube como, uma das propriedades de Jango fora vendida enquanto atravessava os pampas e se aproximava de Rosário. Talvez os arquivos do grande Talarico revelem. Ou então alguma mensagem que ele mande do Céu, onde, tenho certeza, ele se encontra.

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