Aécio pode ter trocado a estrada do Planalto pelo atalho do Leblon

Pedro do Coutto 

Na madrugada de domingo, eram três horas da manhã, o senador Aécio Neves que, na rota do PSDB e da oposição começava a percorrer a estrada rumo ao Palácio do Planalto, como candidato viável à sucessão de 2014, errou o caminho ao voltar para seu apartamento no Rio, e enveredou por um atalho do destino, no Leblon. Parado na blitz montada, como tantas outras na cidade, para fazer cumprir a Lei Seca, na rua Bartolomeu Mitre, recusou-se a fazer o teste do bafômetro. Além disso, sua carteira de habilitação encontrava-se vencida.

O fato, pela importância do personagem central, ganhou as páginas dos jornais. Na segunda-feira, O Globo publicou reportagem de Flávio Diláscio. O Estado de São Paulo publicou matéria de Pedro Dantas e Kelly Lima. A Folha de São Paulo abriu também espaço, mas a reportagem não saiu assinada. Multa em torno de 1 mil reais, carteira apreendida, de acordo com o Código Brasileiro de Trânsito um ano sem dirigir. A punição, entretanto, foi imensamente maior: pode ter abalado sua candidatura potencial à presidência da República.

Ele havia iniciado o vôo com o discurso que fez no Senado de crítica (aliás das mais leves) ao governo Dilma Rousseff. Leve, nada contundente como é de seu estilo e de sua personalidade, mas suficiente para deixar José Serra em segundo plano. Tanto assim que Serra foi a Brasília assistir à decolagem tucana. Porém com o episódio da madrugada de domingo, o candidato que perdeu para Lula e Dilma Rousseff voltou à condição de nome forte do PSDB para uma terceira tentativa em torno da alvorada de um poder que por duas vezes lhe escapou. Coisas da política. Título aliás da famosa coluna de Carlos Castelo Branco no Jornal do Brasil.

Como em todas as situações da vida existe sempre o dia seguinte, o day after, e os fatos não se esgotam em si mesmos,nas edições de terça-feira daqueles três jornais, os maiores do país, o assunto continuou. Prosseguiu só, não. Ampliou-se. O Estado de São Paulo com reportagem de Leandro Colón, Karla Mendes e Eduardo Katah e O Globo com Ronaldo Braga, Adriana Vasconcelos e Tiago Herdy, levantaram a propriedade do Land Rover, carro que Aécio Neves dirigia. Pertence à Rádio Arco Íris, cuja titular é Andréa Neves, irmã do ex-governador de Minas Gerais. Resultou de uma concessão outorgada pelo presidente José Sarney no final de seu governo que terminou no início de 90. Por que motivo, a empresa encontra-se em nome da irmã? Não existe explicação aparente e convincente. Mais lógico seria estar em nome do próprio senador Aécio Neves.

Mas alguém poderá argumentar que, pela Constituição, um parlamentar, ele era deputado federal na época, não poderia ser favorecido com uma concessão. Pior ainda. Utilizou-se um disfarce. Agora veio à  superfície e o desenrolar da revelação pode acabar hoje, como pode prosseguir mais uma semana, ou então pode sair de foco, mas a ele retornar daqui a três anos na ocasião das convenções para a escolha dos candidatos. Existe ainda a hipótese de não influir no rumo da convenção nacional do PSDB. Mas também a de reaparecer na campanha eleitoral.

O episódio em nada somou para Aécio Neves. E quando não acrescenta, mas pode retirar, teria sido melhor (para ele) que não houvesse acontecido. Não há dúvida quanto a isso. A seta apontava para Brasília. O senador saiu da Barra da Tijuca e tomou o atalho do Leblon. Deu mais dimensão ao erro quando não aceitou o bafômetro. Não foi uma boa decisão. Sua imagem perdeu pontos.

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