Afinal, o que Bolsonaro vai dizer em seus dois discursos nos protestos em Brasília e São Paulo?

Charge do Clayton (opovo.com.br)

Pedro do Coutto

O artigo de Bernardo Mello Franco na edição de domingo de O Globo revela um fato essencial no meio da crise aberta pelo presidente Jair Bolsonaro a pretexto da computação eletrônica de votos e de um ultimato dirigido aos ministros Alexandre de Moraes e Luiz Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal. Quanto a Alexandre de Moraes, em face de sua inclusão em inquérito por atividades antidemocráticas. Relativamente a Luiz Roberto Barroso, também presidente do TSE, por sua posição clara e lógica contra o que seria o retrocesso contido na volta do voto impresso no país.

As alegações são absurdas e politizadas de 7 de setembro igualmente sem o menor sentido: uma data de todos, conforme acentuei no artigo de ontem que Bolsonaro desejava transformar em pretexto golpista para alguns. Mas esta ameaça está superada com base na revelação e no comentário de Bernardo Mello Franco. A realidade política nacional passou a ser outra no curto espaço entre a quinta-feira e o domingo.

MANIFESTAÇÕES – Mas Bolsonaro insiste em levar o tema para as ruas. Tanto assim que anunciou que estará presente nas manifestações de amanhã nas Esplanada de Brasília e na Avenida Paulista. Em Brasília, no corredor dos Ministérios. Em São Paulo, em frente ao endereço da Fiesp, cujo posicionamento, sobretudo após o recuo em divulgar o manifesto democrático, passou a ser fortemente contestado.

Aliás, a Federação Brasileira de Bancos não recuou e condenou a vacilação de Paulo Skaf. O presidente da República se isolou ainda mais. O agronegócio apoiou a Federação dos Bancos e os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal desistiram de romper com a Febraban. Na minha opinião, romper com o sistema bancário e com as informações de que ele dispõe é um ato extremamente arriscado. Mas essa é outra questão.

A questão essencial, como destacou Mello Franco, está na posição assumida pelo general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, suspendendo o tradicional desfile do Dia da Pátria. Claro que a sua atitude foi apoiada pelos comandantes da Marinha e da Aeronáutica. Caso contrário não teria o impacto que obteve e está obtendo. Não sei, francamente, qual o ângulo de visão do ministro da Defesa, general Braga Netto.

INVESTIDAS – O fato dominante, contudo, ficou claro, é que as investidas contra as eleições e contra ministros do STF perderam o pouco impulso que já tinham em sua origem e passaram a se deparar não apenas com o silêncio do Exército, mas com a sua definição pela democracia, pela Constituição Federal e pela liberdade do voto. O episódio deixou demonstrado que Jair Bolsonaro não conta com qualquer fração militar expressiva para investir contra as instituições e praticar um lance de dados na tentativa vã de se tornar o imperador do Brasil. A saída para a crise a meu ver está consolidada pela estrada que leva as urnas em outubro de 2022.

Nas redes sociais os esforços para enveredar pela ilegalidade estão barrados. As fake news que chegaram a incentivar o sequestro de titulares do STF naufragaram na própria contradição de um gesto absurdo e criminoso. As fake news não têm expressão de peso capaz de subverter a lógica dos fatos. Basta considerar um princípio: se as fake news resolvessem, Jair Bolsonaro não estaria atrás de Lula  na projeção para 2022, como revelaram as pesquisas do Datafolha e da XP Investimentos.

ABOLIÇÃOMuito importante a entrevista da historiadora Mary Del Priore ao jornalista Bruno Albano, O Globo de ontem, em que, com base em pesquisas realizadas ao longo do tempo, chegou à conclusão de que a Princesa Isabel, de fato, só assumira a posição de abolicionista três meses antes do 13 de maio de 1888.

A historiadora é autora de um estudo em profundidade sobre a decretação da Lei Áurea. Vale a pena ler a entrevista porque a análise histórica é capaz não só de revelar, mas também traduzir o passado. A versão corrente de contemporâneos da época, entre os quais o meu avô, Pedro do Coutto, outro historiador, foi a de que a fuga de escravos se acentuava muito e o Império já na fase de crepúsculo, tentou usar o Exército no esforço de resgate que era exercido por mercenários chamados capitães do mato.

O Exército se recusou ao papel e a Abolição que já trazia em si um impulso republicano, ampliou seu raio de ação e sua influência no país, influência tardia, porém indispensável para fazer com que o Brasil não fosse o último , mas sim o penúltimo país  a abolir a escravatura. O último no período do Império, o primeiro como República. Portanto, penúltimo à luz da história do tempo. O caráter do Império era profundamente conservador, mas o conservadorismo foi tocado pela dissidência, liderada por Joaquim Nabuco e com a atuação também marcante de Ruy Barbosa.

DESMATAMENTO – Reportagem de Laryssa Medeiros, O Globo de domingo, dá sequência à reportagem do RJ 2 da TV Globo no sábado.  Na Rua Professor Hélio Povoa, Tijuca, desmatamentos e motosserras entraram em ação, iniciando a derrubada de 340 árvores para a construção não autorizada pela Prefeitura de um edifício de 240 apartamentos.

O RJ 2 de sábado focalizou inclusive a manifestação conjunta de protesto por moradores à margem da floresta urbana. Impressionante o descaso para com o verde e o meio ambiente, motivado pelo lucro e por uma legalidade disfarçada de replantio. Afinal, quantos anos demora para que futuras 340 árvores substituam as que estão se perdendo a partir de sexta -feira ? Estranho , sobretudo, é o silêncio do prefeito Eduardo Paes, responsável pela preservação do meio ambiente  e pelo plano urbano da Cidade do Rio de Janeiro.

12 thoughts on “Afinal, o que Bolsonaro vai dizer em seus dois discursos nos protestos em Brasília e São Paulo?

  1. Esse problema, não só no Brasil mas no mundo, é consequência direta da falta de CONTROLE DE NATALIDADE. O nosso planeta já não tem mais condições de suportar tanta gente. Basta abrir os olhos e ver a fome, o desemprego, as absurdas diferenças sócio ambientais, as pandemias. A humanidade vai continuar se multiplicando adoidadamente e a se auto destruir.

  2. Que pergunta tola: o que Bolsonaro vai dizer no sete de Setembro?
    Vai dizer tolices misturadas com mentiras que deveriam ser omitidas pela nossa imprensa.
    Não bastou as que ouvimos de Collor, FHC, Luiz Inácio,Dilma?
    A imprensa sempre ávida por publicar discursos de presidentes que foram alçados ao poder com a sua oculta ajuda.
    Não são todos os jornalistas, mas a maior parte vive disso seja voluntário ou não, é infelizmente não há perspectiva de mudança porque a maioria é acomodada e recebem por isso.
    Se fôssemos coerentes e dando o verdadeiro valor a esses discursos, ou seja, nenhum, estaríamos todos melhores
    A imprensa, de um modo geral, é omissa e só pública o quanto os interessados lhe pagam.
    Bolsonaro não dirá nenhuma verdade, e é pura falta do que fazer esperar algo desse moleque.

    • “Que pergunta tola: o que Bolsonaro vai dizer no sete de Setembro?
      Vai dizer tolices misturadas com mentiras que deveriam ser omitidas pela nossa imprensa.
      Não bastou as que ouvimos de Collor, FHC, Luiz Inácio,Dilma?”

      Resposta tola é essa e fora completamente da realidade, incomparáveis as falas por mais toscas desses citados com relação àquele primeiro.

      Isso porque nenhum deles (ao menos que me lembro, posso estar enganado) defendeu torturador, métodos de tortura e violência contra pessoas, fez apologia alguma, dar um golpe, muito menos covardemente se valendo da imunidade Parlamentar como como Bolsonaro e seus filhos – que sequer contra eles o Presidente da Câmara e do Senado se dignam dar andamento ao pedido de Impeachment do bananinha pelo que falou, como no passado também não teve na ocasião quando da fala do pai. Aliás que em campanha falou em “metralhar a petralhada” – tão claro d cristalino o fato típico de crime que as autoridades deixam passar para uns, não para outros… se fosse o outro candidato falando metralhar bolsonaristas imagino que seria outra postura das autoridades de plantão.

  3. Qualquer do povo pode prendê-lo em flagrante delito se praticado qualquer ação criminosa em qualquer de meio e forma.
    E vou além. Qualquer do povo pode fazer cessar a prática do ato em defesa de direito ainda que de terceiros.
    Dito isso, um bem jurídico da coletividade é passível de legítima defesa.
    Se o Genocida da República defender intervenção militar, isto é, o golpe, ação das FFAA contra outros poderes e instituições, até uma ação do Adélio II seria legítima no caso.

  4. Para brasileiros vira-latas de norte-americanos haviam muitos homens que foram escravos sexuais na infância que entraram para os Talibãs e que lutaram contra o governo fantoche dos EUA no Afeganistão, cujos os integrantes de alta patente, praticavam o bacha-bazi contra esses meninos (há um documentário no youtube chamado “dancing boys” que explica isso).
    A mídia nunca vai falar sobre essas questões, o que me deixa revoltado, pois a ordem é idolatrar os Estados Unidos e os seus militares. Se os Estados Unidos se concentrarem na Ásia, serão massacrados pela China. Eu acredito que eles irão se concentrar aqui na Ibero América mesmo, pois aqui é o “quintal estratégico” dos yankees e a China também vem ganhando muita influência aqui. Se eles perderem a América Latina, acabou o Império hegemônico yankee. Acredito que teremos tempos difíceis no Brasil!

  5. A mente que considera o voto auditável um retrocesso, é uma mente doentia que sofre de covardia moral.
    Outro ponto.
    Se a NOM deseja uma redução populacional deveria começar pela China.

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