Afinal, que país e que democracia desejam os brasileiros?

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Quando há uma crise generalizada, como a que estamos vivendo, não temos alternativa senão voltar à fonte do poder político, expressão da soberania de um povo. Temos que resgatar todo o valor do primeiro artigo da Constituição, parágrafo único: “Todo poder emana do povo”. O povo é, pois, o sujeito último do poder. Em momentos em que uma nação se encontra num voo cego e perdeu o rumo de seu destino, esse povo deve ser convocado para dizer que tipo de país quer e que tipo de democracia deseja.

Urge avançar mais: precisamos dar forma política ao nível de consciência que cresceu em todos os estratos sociais, mostrando vontade de participação nos destinos do país. No fundo, volta a questão básica: vamos nos alinhar aos que detêm o poder mundial ou vamos construir nosso caminho autônomo, soberano e aberto à nova fase planetizada da humanidade?

SUBALTERNOS – O primeiro projeto prolonga a história ocorrida até os dias de hoje: desde a Colônia, passando pelo Império e pela República, sempre fomos mantidos subalternos. Os ibéricos não vieram para fundar aqui uma sociedade, mas para montar uma grande empresa internacional privada. Essa lógica perdura até os dias atuais: tentar transformar nosso eventual futuro em nosso conhecido passado.

Ao Brasil cabe ser o grande fornecedor de commodities, com parca ou nenhuma tecnologia e valor agregado, num processo de recolonização. Lamentavelmente, esse é o intento do atual governo interino.

POTÊNCIA TROPICAL – O projeto alternativo finca suas raízes na cultura brasileira e no aproveitamento de nossa imensa riqueza, que nos pode sustentar como nação independente, soberana e aberta a todos os demais países. Seríamos uma grande potência, não militarista, nos trópicos, com uma economia entre as maiores do mundo.

Curiosamente, as jornadas de junho de 2013 e posteriores mostraram que o povo percebeu os limites da formação social para os negócios. Quer ser sociedade, quer outras prioridades sociais, quer outra forma de ser Brasil. Tal propósito implica refundar o Brasil sobre outras bases. Mas quem escutou o clamor das ruas, especialmente dos jovens? Efetivamente, ninguém, pois tudo ficou como antes.

O que, na verdade, faltou em nossa história foi uma verdadeira revolução, como houve na França, na Itália e em outros países. A história nunca é uma continuidade. Ela é feita de descontinuidades e rupturas radicais, que derrubam uma ordem e instauram uma nova. No Brasil, nunca tivemos essa ruptura. O que predominou em todo o tempo é a política de conciliação entre os poderosos. O povo sempre ficou de fora, como sujeito incômodo, dos acertos feitos por cima e contra ele.

IMPEACHMENT – O que está ocorrendo agora com a tentativa de impeachment da presidente Dilma Rousseff, legitimamente eleita, é dar continuidade a essa política de conciliação das elites, do capital rentista e financeiro, daqueles 10%, segundo o IBGE de 2013, que controlam 42% da renda nacional. Jessé Souza, do Ipea, os enumera: são 71.440 super-ricos que manejam o Estado e os rumos da economia. Não lhes importa a perversa desigualdade social, uma das maiores do mundo, que se traduz em favelização de nossas cidades, violência absurda, geração de humilhação, preconceito e degradação social por falta de infraestrutura, saúde, escola e transporte.

Se o Brasil foi fundado como empresa, é hora de se refundar como sociedade de cidadãos criativos e conscientes de seus valores.

Meu sonho é que a atual crise não seja em vão. Que se busque viabilizar o que prescreve a Constituição em seu terceiro artigo: “Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

21 thoughts on “Afinal, que país e que democracia desejam os brasileiros?

  1. O povo brasileiro não está politicamente bem informado para fazer uma revolução. Não se faz revolução pela Direita, mas o PT sujou a imagem de toda a esquerda, que o povo identifica qualquer esquerda como sindicato de ladrões, como foi o PT. Lula e seus comparsas roubaram mais dinheiro do Brasil do que os 71.440 super-ricos . A cúpula do PT, PMDB e PP está bilionária e não a custa de trabalho, que os super-ricos executam, e sim esvaziando e falindo a Petrobras, os fundos de pensão, a Eletrobras, tirando dinheiro a juros de prejuízo para o BNDES para a Odebrecht e outras empresas do gênero fazerem obras super-faturadas, dando comissões bilionárias a Lula e seu sindicato de ladrões.

    Uma revolução só se faz pela esquerda, mas o público eleitor, desencantado com o que ele acha que foi a esquerda, o PT, inevitavelmente vai votar na Direita. Existem pessoas honestas nos partidos da Direita, mas eles vão governar o Brasil com as diretrizes do FMI que não são para nós nenhuma novidade.

    Este partido maldito, o PT deixou um rombo no orçamento do Tesouro de US$ 180 bilhões de dólares, coisa que os super-ricos nunca fizeram. Demorará décadas para o povo perceber o valor que tem o PPS, por exemplo, que tem sido um partido de esquerda, limpo, sem nenhum denunciado no mensalão ou na LavaJato,porém não tem votos. Fazer o quê ? – Que venha, pois a Direita para nos governar, e Temer está fazendo de forma correta o seu papel, assim como o ministro Meirelles. É o povo que terá de pagar através de impostos, redução de salários, inflação alta e desemprego , por mais de cinco anos se tudo der certo, para recapitalizar o rombo que o governo desonesto do PT deixou.

    Lula, Dilma, Mercadante e outros membros da cúpula do PT têm de ser julgados, serão condenados a muitos anos de prisão – e tomara que apodreçam por lá. Lugar de ladrão é na cadeia.

    • Subscrevo seu texto com apenas uma ressalva, Ednei de Freitas. Quando diz que o PT sujou a imagem da esquerda. O PT, Ednei nunca foi de esquerda, o PT foi gestado pelas mãos de Golbery, o general pensador do estamento militar para se contrapor aos verdadeiros esquerdistas que voltavam do exílio. Foram buscar o líder messiânico, o nosso “Sassá Mutema” agitador sindical nas greves do ABC com apoio das comunidades eclesiais de base. Lula cresceu sob o manto da esquerda sem sê-lo na verdade, tanto, que os militantes de esquerda saltaram do barco petista, quando perceberam o engodo do projeto capitalista de poder em detrimento do projeto de nação, de mudança em relação principalmente ao projeto neoliberal do sociólogo de direita, o inefável, FHC.

      A lógica aristotélica não falha e o que a lógica demonstra cabalmente é que se o PT e o Lula fossem de esquerda, jamais teriam vencido as eleições de 2002 e as seguintes, principalmente a senhora Dilma teria vencido as eleições de 2010 e a reeleição de 2014.

      Para ganhar a primeira eleição depois de perder por três vezes, uma para Collor de Melo e duas para FHC, o ex-presidente Lula assinou a famosa Carta aos Brasileiros se comprometendo com os ditames do sistema de poder capitalista em vigor no Brasil.

      Lula fez tudo que Henrique Meirelles queria, esse representante dos banqueiros, que Temer malandramente trouxe para seu governo interino e continuará quando ganhar a titularidade efetiva. Inclusive o personagem, atual, Ministro da Fazenda de Temer, que provocou uma “briga” entre Lula e Dilma. Lula queria que Dilma nomeasse Henrique Meirelles para comandar a Economia no lugar de Mantega. Dilma escolheu Joaquim Levy contrariando seu mentor político. depois Lula insistiu na saída de Levy, que acentuou a recessão e o desemprego. Dilma foi mais enfática ainda e em viagem ao exterior deu entrevista afirmando que ela é quem mandava e que Levy continuaria. Lula, então tirou o time de campo e deixou sua pupila perder o apoio da base na Câmara ao confrontar o PT contra Eduardo Cunha, que retaliou ao aceitar o processo de impeachment.

      O PT além de não ser de direita, ainda acirrou a luta interna abrindo caminho para a tomada do poder pelo seu antigo aliado, o eterno PMDB garantidor de todos os governos e a espreita para assumir quando a ocasião aparece. Foi assim com Sarney e está sendo agora com Temer.

      O último movimento do PT e de Lula em direção a direita ocorreu na quinta-feira, quando mais de 30 votos do PT engordaram a eleição de Rodrigo Maia para presidir a Câmara dos Deputados até fevereiro de 2017. Maia é um representante da Direita no Rio de Janeiro, além de pertencer ao ultra conservador Partido Democrata, o DEM antigo PFL.

      O PT perdeu o bonde da história quando caiu a máscara de Partido Esquerdista, manto ideológico de fachada destinado a iludir a massa de eleitores carentes de mudança na forma de governar somente para as elites e com migalhas para os despossuídos e carentes das riquezas da nação. Agora amargará o ostracismo político já a partir da eleição Municipal de outubro de 2016. O povo certamente irá punir a sigla petista pelos desmandos praticados, pela incompetência na forma de governar e pelos escândalos de corrupção protagonizados pelas suas principais lideranças. É o preço que todos nós pagamos pelos erros que cometemos. Nesse particular, ninguém está imune de pagar pelos pecados praticados, inclusive os donos de empreiteiras e os empresários impatrióticos, que só pensaram no bolso e agora alguns amargam a cadeia como um cidadão comum.

    • 1) Prezado Dr. Ednei, bom comentário.

      2) Respeito muito o PPS. Penso que está na hora de abandonarmos essa designação “esquerda”. Como o sr. bem disse, a proposta ficou queimada pelos governos PT.

      3) Em termos de século XXI, precisamos criar um outro vocábulo para nos referirmos ao campo das pós-esquerdas.

      4) Cartas para o blog com as sugestões de re-batismo.

  2. Boff continua bOFF… Sandices ideológicas, frases caquéticas, reme-reme acadêmico e o inútil de sempre… Hora de repensar a “contribuição” dele, Tribuna. Já deu!

  3. Apesar de não concordar com Boff, respeito-o muito.
    Cresci sob a égide da teoria da libertação e até certo ponto, devido a isso carrego uma dívida de gratidão para com esta!
    Prefiro imaginar que pessoas como Boff, Suplicy, Olívio Dutra, embora equivocados, ainda defendem a causa do PT por boa-fé.
    Relembrando as aulas de filosofia, paixão vem de “pathos”, que significa doença.
    Embora discorde, gosto de ler artigos de Boff porque acredito na liberdade de expressão e não me sentiria bem em participar de um blog cujo extremismo e a censura vigorassem.
    É por isso que aqui me sinto à vontade até mesmo para me identificar.
    Não sou afeita a posicionamentos extremados, seja de A ou B. O fanatismo não é privilégio das religiões mas assola a todos os espaços sociais. É preciso cautela para não projetarmos nosso preconceito em outrem. Penso que aniquilar expressões diferenciadas e divergentes não é o caminho para a mudança.
    Houve um tempo que acreditei no projeto do PT e foi duro ver este investimento entrar pelo ralo da corrupção, assistencialismo e populismo; mas precisava resignificar todo esse investimento; hoje minha decepção se transformou em motivação para continuar cobrando, criticando e lutando, independente da sigla que ocupa o poder.
    Por fim, o que me incomoda neste caso específico é perceber que apesar de todos os fatos e experiências concretas, muitas grandes cabeças ainda não conseguem adentrar na essência da realidade. Por motivos subjetivos, alheios à nossa compreensão, não aceitaram ainda que o PT, não é mais aquele partido que saiu das bases. Por mais que perfilem fotos da cúpula do PT degustando vinhos cuja garrafa custa a bagatela de 10.000,00, por mais que a se diga que o partido não tinha alternativa a não ser “entrar no jogo”, realizar alianças espúrias, a única certeza que temos é que apesar da oportunidade que teve, este projeto ruiu, infelizmente, apesar de isso ser triste, talvez tenha sido melhor assim!

  4. A mais parecida analogia feita ao governo do PT, foi a
    comparação com o violino. Pegou com a esquerda, mas tocou com a direita.
    O lula até se achava o próprio SPALLA da orquestra.

  5. Sr. Leonardo. O seu anelo , expresso no último parágrafo, também é o meu e o de algumas dezenas de milhões de brasileiros, e, muito por isso, alvíssaras, alçamos ao poder um partido e, sobretudo, um cidadão cujo carisma e a enorme força política, advinda de maciça aprovação popular, poderiam, ele e seu partido, dar início a um dificílimo processo de transformação ética, moral, social e política nesse país, levando-nos às condições permitiriam se chegar a uma sociedade mais justa, nos moldes do que se prescreve o art. 3º da CF.
    Ocorre, Sr. Leonardo, que a nossa esperança esvaiu-se diante da mais perversa realidade, qual seja, o partido político que ostentava a bandeira da moralidade, mostrou-se mais próximo de ser uma organização criminosa ao assenhorear-se descaradamente das práticas que prometia combater, sendo o mais notório exemplo disso a corrupção, pois além de nela chafurdar sem a menor cerimônia, ainda a aprofundou e a alavancou, levando-a a níveis inimagináveis, muito disso por conta do objetivo de viabilizar recursos para comprar apoio político daqueles que outrora combatia e pavimentar as condições de se perpetuar no poder. Já o cidadão, o lula (minúsculo mesmo) mostrou-se nada mais ser que um engodo, um ser abjeto, uma mistificação que vinha equivocadamente sendo alimentada pelo desconhecimento coletivo de sua real personalidade; que utilizou todo o seu prestígio e poderio para satisfazer sua ambição pessoal e para quem o povo, na sua concepção, apenas não passa de massa de manobra que deve ser mantido sob permanente e severo controle mediante irremovível dependência do Estado.
    A nossa esperança hoje, Sr. Leonardo, é que se dê o afastamento definitivo da atual presidente, o desaparelhamento de vez da máquina pública tomada pelo petismo, para assim darmos a volta por cima na desesperança, voltarmos à estaca zero e, mais calejados e experientes, procurar novos meios de realizarmos o sonho acalentado.

  6. O Boff foi um dos expoentes da “Teologia da Libertação” ou “Teologia do Oprimido”, cuja essência é defender os seus postulados independentemente das ações concretas de seus supostos implementadores e admiradores. Com isso, passaram a ter “bandidos de estimação”. Desde que defendam o posicionamento dessa suposta “Teologia”, todos os pecados lhes são perdoados. Aí temos o Boff sempre esgrimindo argumentos falaciosos para defender todos esses corruptos, ou, no mínimo, buscando desviar o olhar da população atingida pela roubalheira para outra direção.

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