Agente da Polcia do Senado diz que “estranhava” as ordens para as varreduras

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Protegido por Renan, Arajo cumprias as ordens sem hesitar

Eduardo Milito e Julia Chaib
Correio Braziliense

Menos de 12 horas depois de efetuadas as prises de policiais do Senado, ao menos um deles j comeou a delatar aes em benefcio de senadores, a maioria alvo da Operao Lava-Jato. Na sexta-feira (21/10) pela manh, a Polcia Federal desencadeou a Operao Mtis, bateu s portas do Congresso Nacional e prendeu quatro integrantes da Polcia do Senado, incluindo o diretor-geral, Pedro Ricardo de Arajo, ligado ao ex-senador Jos Sarney (PMDB-AP) e ao presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL).

A suspeita de que servidores do Legislativo faziam varreduras, em busca de aparelhos de escutas, em endereos funcionais ou particulares de Sarney, de Lobo Filho (PMDB-MA), de Glesi Hoffmann (PT-PR) e de Fernando Collor (PTC-AL).

O objetivo era descobrir e eliminar escutas eventualmente instaladas; obstruir a Operao Lava-Jato; e satisfazer interesses particulares, de acordo com os investigadores. Ontem, Renan criticou a ao: As instituies, assim como o Senado, devem guardar os limites de suas atribuies legais.

NOVE MANDADOS – Foram cumpridos nove mandados por ordem do juiz da 10 Vara Federal de Braslia, Vallisney de Oliveira. A PF prendeu temporariamente, por at cinco dias, Pedro Arajo e os policiais legislativos Antnio Tavares dos Santos Neto, Everton Elias Ferreira Taborda e Geraldo Csar de Deus Oliveira. Tambm foram feitas aes de busca e apreenso nas residncias deles, em Braslia, e em seus locais de trabalho no Senado, de onde foram levados cerca de 10 maletas com equipamentos de contrainteligncia, como o Oscor Green. Como os equipamentos tm memria, a percia poder verificar onde foram utilizados.

exceo de Ricardo Arajo, todos foram liberados ontem mesmo. Geraldo Oliveira fez um depoimento admitindo as condutas apuradas pela Polcia Federal. Para os investigadores, ele agora um colaborador. Oliveira afirmou que os senadores constantemente fazem pedidos de varreduras, at em residncias particulares. As solicitaes chegam a Ricardo Arajo, que repassa as tarefas a seus subordinados.

NA CASA DE COLLOR Oliveira disse que estranhou o fato de ter sido feita uma varredura nos endereos de Collor logo aps o senador sofrer busca e apreenso da Operao Lava-Jato em julho do ano passado. Ao explicar o motivo da varredura, revelou que um assessor de Collor identificado como Santana disse que o parlamentar estava inseguro de retornar para casa pois seus ambientes tinham sido devassados pela Polcia Federal.

De fato, isso causou estranheza e receio por parte do interrogado, porm acreditava at ento que estava cumprindo uma ordem legal. Para investigadores ouvidos pelo Correio, esse um caso claro de obstruo Justia.

O servidor contou polcia que cumpriu as ordens de Ricardo Arajo mesmo assim. Com o passar do tempo, como dito, passei a estranhar mais ainda as ordens do diretor da Polcia do Senado, continuou Oliveira, em seu depoimento.

SO LUS E CURITIBA – Os agentes chegaram a fazer varreduras no s fora do Senado, em Braslia, mas tambm em So Lus e Curitiba. Oliveira disse que Arajo o mandou ao Maranho, onde ele e a equipe foram recebidos no aeroporto e levados a uma casa suntuosa, que tinha at helicptero. A residncia pertencia ao genro do senador Edison Lobo, Marcos Regada, que recebeu a equipe de servidores. Esse fato no foi informado a ningum. Toda varredura precedida de entrevista para saber o motivo da ao. Para sua surpresa, o genro do senador acabou revelando que o motivo na verdade no estava relacionado com o exerccio do mandato de senador, e sim relacionado com a campanha poltica de Edison Lobo Filho para o governo do estado, narrou Oliveira PF, ontem.

OBSTRUIR A JUSTIA – Fazer varreduras no ilegal. Mas, no pedido de priso, que aponta 25 evidncias de crimes, como de corrupo passiva privilegiada, a polcia e o Ministrio Pblico dizem que o objetivo era causar embarao s apuraes s quais os senadores respondem.

A deliberada utilizao de um equipamento sofisticado, de propriedade do Senado Federal, utilizando recursos pblicos, passagens areas custeadas pelo Errio e servidores concursados, em escritrios ou residncias particulares, no possui outro objetivo seno o de embaraar a investigao de infrao penal que envolve organizao criminosa, afirmou o procurador Frederico Paiva.

SARNEY BENEFICIADO – O policial do Senado Geraldo Csar de Deus Oliveira, preso nessa sexta-feira (21/10) na Operao Mtis e solto horas depois, contou Polcia Federal que Jos Sarney (PMDB-AP) foi beneficiado com uma varredura, mesmo sem mandato parlamentar. De acordo com o agente, o diretor da segurana do Senado, Pedro Ricardo Arajo, lhe disse que o pedido viera do prprio ex-senador.

Recebi a resposta de que deveria ir, simplesmente por ser uma ordem, j que o pedido havia sido feito por um ex-presidente, e que, por acaso um dia isso fosse questionado, poderia ser dito que tal medida fora realizada como precursora para uma visita do presidente do Senado, o que legitimaria a ao de contramedida, contou Oliveira, em depoimento ontem. Ele disse que s faria o servio se recebesse uma ordem por escrito, o que acabou sendo feito.

NA CASA DE GLEISI – Este ano, os policiais fizeram uma busca por escutas na casa de Gleisi Hoffmann (PT-PR). Oliveira disse que ela mesma pediu a varredura depois da ao da PF em sua residncia, quando procuraram provas contra o marido, Paulo Bernardo.

Relataram ao interrogando que a senadora se sentia insegura de voltar para casa, pois ela no estava l no dia da busca e no sabia quem tinha entrado na casa se era polcia ou outra pessoa (sic). Por temer estar protegendo parlamentar, Oliveira afirmou que desconfiava muito do real interesse nas ordens recebidas e avisou o chefe, que acionou o procurador Eduardo Pelela, da Procuradoria-Geral da Repblica.

RENAN DEFENDE – Em nota, Renan afirmou que a Polcia Legislativa age dentro da lei e que o Senado colabora com as apuraes. Atividades como varredura de escutas ambientais restringem-se deteco de grampos ilegais, sendo impossvel, por falta de previso legal e impossibilidades tcnicas, diagnosticar quaisquer outros tipos de monitoramentos que, como se sabe, so feitos nas operadoras telefnicas. Fernando Collor disse, em nota, que ignora os fatos e nega que tenha se beneficiado de ao dos agentes do Senado estranha s funes institucionais.

Gleisi confirmou o pedido de varredura de forma oficial, mas afirmou que isso faz parte do trabalho dos agentes do Senado. Em Curitiba, a busca e apreenso da Polcia Federal foi feita sem nossa presena ou de algum da famlia. No sei o que tinha acontecido. Por isso, pedi para fazer a varredura l tambm, disse. Fazer isso no configura obstruo alguma. Apenas queria ter informao de segurana sobre minha residncia.

A reportagem no localizou os advogados de Ricardo Arajo e dos demais policiais legislativos, de Sarney e tambm do suplente de senador Lobo Filho (PMDB-MA).

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