Agora poderemos conhecer melhor a vida de Celso Furtado

Eduardo Miranda
Brasil Econômico

“Ali está o Celso antes de Celso Furtado”. Assim a jornalista Rosa Freire d”Aguiar sintetiza o livro “Anos de Formação 1938-1948”, sexto volume da coleção Arquivos de Celso Furtado. A edição contempla o período que vai dos 18 aos 28 anos de idade daquele que veio a se tornar referência do pensamento econômico brasileiro.

Viúva do autor de “Formação Econômica do Brasil”, Rosa Freire chama a atenção para o texto “Liberalismo econômico”, que abre a edição de “Anos de Formação”. “Esse texto, que nunca havia sido publicado, já começa a refletir muito da cultura do Celso, o gosto pelo comparativo, pelo cenário internacional… Ele estava cursando o pré-Jurídico no Ginásio Pernambucano e foi feito um júri simulado em sala de aula. Celso foi escolhido para fazer a defesa do liberalismo”, conta Rosa, ressaltando que a empreitada foi um desafio para o economista, visto já na época de adolescente como um estudante de esquerda.

O JORNALISTA

Aos 19 anos, o intelectual paraibano desembarcou no Rio de Janeiro para cursar a Faculdade de Direito. Nessa época, sem dinheiro suficiente para a manutenção da vida na capital, Furtado conseguiu emprego na “Revista da Semana”. A repercussão de uma reportagem— incluída no livro — sobre um jangadeiro que percorrera a costa brasileira para pedir direitos trabalhistas a Getúlio Vargas chegou ao cineasta Orson Welles, que decidiu filmar a história.

“Celso não tinha experiência no jornalismo. Chegou, caiu na água direto para aprender a nadar e foi ganhando prática.

Rosa Freire, que viveu com o economista por 27 anos, resgatou desse período artigos de jornal e revelou que a paixão maior de Furtado — e objeto de muitos de seus textos — era a música clássica, pois “conquistou a autoridade para dar seu ponto de vista sobre concertos e, inclusive, escrever suas matérias em primeira pessoa”, afirma a jornalista.

O ESCRITOR

Rosa Freire afirma que diante da possibilidade de ter as cartas para o Brasil censuradas, o soldado Furtado escrevia sobre outros assuntos: “Eles não podiam dizer onde estavam, sob o risco de que as cartas caíssem nas mãos dos inimigos. Ainda assim, alguns soldados falavam do medo da guerra. Celso parecia que estava fazendo turismo. Acho que ele não queria apavorar os pais e não era dado a dramas. Escrevia sobre as galerias de Florença, sobre Dante Alighieri”. A literatura, aliás, chegou a ser cortejada por Furtado.

“Numa carta, aos vinte e poucos anos, ele diz que seria um romancista. Quando volta da guerra, já aos 25, diz que tem um diploma de Direito, mas não quer advogar, e que não quer mais o emprego público. Quer se tornar escritor, mas um escritor para explicar o Brasil”, analisa a jornalista.

O MNISTRO

Antes da ida do jovem Furtado para a Itália, para combater na Segunda Guerra Mundial, houve uma transição do objeto e do estilo de escrita. Segundo Rosa, ali começava a ser forjado o futuro ministro do Planejamento do presidente João Goulart: “Aos 23 anos, Celso entra para o serviço público e fica maravilhado com a coisa da administração. Ele vai deixando o jornal e começa a escrever para revistas de administração, já com um tom acadêmico. Há uma nítida oscilação e isso aponta para o futuro ministro lá na frente”. Da guerra são poucos os registros.

Rosa Freire, que é tradutora e foi correspondente em Paris, disse que o sexto volume da coleção deve ser lido como uma obra de juventude. “Não adianta ler Celso aos 20 anos com as referências do autor no futuro. Ele tem que ser lido per se, porque não necessariamente terá ali nos primeiros escritos todos os parâmetros do que ele se tornou mais tarde”, sugere ela.

OS DIÁLOGOS

A jornalista, que passou a se debruçar sobre o farto material a partir de 2008, chegou a cogitar que o volume que vai às origens de Furtado e termina com seu retorno da Sorbonne, em Paris, trazendo debaixo do braço um diploma de doutorado em Economia, seria o último livro da coleção.

Agora, às vésperas dos 10 anos de morte do intelectual, Rosa Freire repensa um novo desfecho para a coleção. “Acho que ainda há um livro a ser feito sobre diálogos em entrevistas. Descobri grandes diálogos dele com Josué de Castro, com Florestan Fernandes sobre o papel do Estado na cultura, com Fernand Braudel, entre outros”.

(texto enviado por Mário Assis)

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