Al-Qaeda e Estado Islâmico agora lideram a Guerra Santa

Rodrigo Craveiro
Correio Braziliense

Uma carta de 21 páginas foi encontrada, em maio de 2011, pelos Seals — a força de elite da Marinha dos Estados Unidos — no esconderijo de Osama Bin Laden, situado na cidade de Abbottabad, no extremo nordeste do Paquistão. Uma alta autoridade da Al-Qaeda alertava o líder da rede terrorista para o surgimento de um grupo que tentava criar um califado no Iraque, utilizava “técnicas bárbaras” e não demonstrava o mínimo respeito pela vida de civis. Na mensagem, Bin Laden era avisado de que as ações do Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS) poderiam arruinar a “reputação” da Al-Qaeda e aconselhava o xeque a romper laços com a facção.

A ruptura ocorreu dois anos depois. Desde então, o médico egípcio Ayman Al-Zawahiri, sucessor de Bin Laden, e Abu Bakri Al-Baghdadi, o califa do “rebatizado” Estado Islâmico (EI), disputam espaço no movimento jihadista internacional. Nessa espécie de guerra de vaidades do terror, o Ocidente é o principal prejudicado: ambas as facções estariam prontas para semear o medo e a morte na Europa e em outras nações.

MAIS ATENTADOS

Para o britânico Jason Burke, jornalista do The Guardian e autor de The 9/11 wars (“As guerras do 11/9”), existe um risco significativo de que os embates entre a Al-Qaeda e o EI ocorram na forma de atentados sangrentos na Europa e nos EUA.

“Os ataques de 1998 contra as embaixadas americanas em Nairóbi (Quênia) e em Dar es Salaam (Tanzânia) colocaram Bin Laden e a Al-Qaeda no centro da atenção mundial e de outros militantes. O 11 de setembro de 2001 consolidou o status do grupo como preeminente”, explicou ao Correio, por e-mail. “Uma ação similar ou espetacular no coração da Europa firmaria a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico como ‘líderes do mercado’, por assim dizer”, acrescentou.

Especialista em terrorismo pelo Colégio de Defesa Nacional da Suécia, Magnus Ranstorp admite a existência de uma “intensa competição”, em nível de liderança, entre Al-Zawahiri e Al-Baghdadi. Ele considera sintomática a resposta da Al-Qaeda ao anúncio do califado islâmico por parte do EI. “A facção reagiu prometendo ataques na Índia e em Bangladesh”, lembra. No entanto, Ranstorp considera o atentado em Paris um caso extraordinário. Enquanto os irmãos Chérif e Said Kouachi disseram atuar em nome da Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) — um dos braços da Al-Qaeda —, o francês descendente de malineses Amedy Coulibaly atribuiu ao EI a tomada de reféns no mercado Kosher. “Nesse caso, eles estiveram unidos contra um inimigo comum.” Burke lembra que, para os “soldados no front”, as rivalidades na esfera de comando têm pouca relevância. “É como se ambos amassem um esporte, mas torcessem para times diferentes. Mas isso não importa quanto eles saem juntos para jogar”, compara.

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