Ala militar do Planalto está correta ao defender apoio à retomada do desenvolvimento

Charge: a economia em Caxias Iotti/

Charge reproduzida da RBS

Carlos Newton   

O presidente do Banco Central e os membros do Copom (Comitê de Política Monetária) fizeram o que se esperava e pela primeira vez o Brasil experimenta juros tecnicamente negativos (em relação à inflação do período), circunstância que incentiva investimentos em atividades produtivas, mas ainda é pouco para um país que precisa se reindustrializar.

No governo, a polêmica é cada vez maior entre os grupos que defendem apoio à retomada do desenvolvimento e os que priorizam a inflação baixa e o respeito aos tetos de gastos públicos fixados pelo Congresso por proposta de Henrique Meirelles, no governo Michel Temer, para tirar o país da recessão.

TODOS RECLAMAM… – Como diz um velho ditado português (“Quando falta o pão, todos reclamam e ninguém tem razão”), o dois grupos têm bons motivos em suas posições, até porque o presidente da República pode sofrer impeachment caso rompa o limite das despesas públicas. Então, é preciso encontrar uma solução conciliatória.

De início, deve-se considerar que não há a menor possibilidade de investimentos governamentais, porque as tais reformas praticamente não economizaram gastos públicos, os privilégios da nomenklatura e os cargos comissionados foram mantidos, tudo está com dantes, sem falar no aumento das despesas com as Forças Armadas.

Portanto, a única alternativa é usar o método do economista Carlos Lessa, que na presidência do BNDES incentivou fortemente a economia, inclusive pequenas e microempresas, levando o PIB a crescer espantosos 7,5% em 2010.

DIZIA LESSA – O brilhante economista, ex-reitor da UFRJ, contava ter se surpreendido em 2003, ao assumir o BNDES e constatar que o PT não tinha um programa de governo. Trabalhando sempre em conjunto com o engenheiro e consultor Darc Costa, vice-presidente do BNDES, Lessa conseguiu criar um próprio projeto para incentivar a economia.

Os dois lançaram o Cartão BNDES, que financia pequenas e microempresas com os menores juros do mercado, implantaram uma série de programas para setores estratégicos e de inovação, financiaram as exportações e a indústria naval e petrolífera, fazendo a economia deslanchar, culminando com o PIB de 7,5% em 2010.

Ao deixar o governo, Lessa avisou que Lula precisava mudar a política econômica, mas não foi ouvido. Uma década depois, o que se vê é uma economia estacionária, baseada no agronegócio, depois de ter sido a 10ª potência industrial e a 2ª naval.

BNDES EM BAIXA –  A única alternativa para ativar a economia volta a ser o BNDES, que chegou a ser o maior banco de desenvolvimento do mundo, antes de os chineses terem enviado ao Brasil uma delegação, nos anos 90, para estudar e copiar o funcionamento da nossa instituição de fomento.

No entanto, o ministro Paulo Guedes e o presidente Jair Bolsonaro demonstram não ter o menor conhecimento sobre a importância do BNDES na economia brasileira. Em 2013, o banco injetou R$ 190,4 bilhões na economia, mas em 2019 o total já caíra para apenas R$ 56,3 bilhões, e continua em queda em 2020. 

A ala militar do Planalto age corretamente, ao pretender que haja um esforço para retomada do desenvolvimento, mas está evidente que isso jamais ocorrerá nessa gestão de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. E la nave va, cada vez mais fellinianamente…

10 thoughts on “Ala militar do Planalto está correta ao defender apoio à retomada do desenvolvimento

  1. A “ala militar” não apita nada quando o assunto é economia. Qualquer análise que não leve em consideração os efeitos da pandemia na economia é simplesmente NULA.

    Paulo Guedes é um gênio. O Brasil só esta se desenvolvendo e economia se recuperando rapidamente, em tempos de pandemia, por causa das políticas implementadas por ele. Merece o NOBEL de economia.

  2. Graças à injeção de recursos públicos, adiantamento de 13º salário, liberação de FGTS, a economia conseguiu uma recuperação ou evitou uma queda maior do PIB. A liberação de crédito, os juros menores também foram fatores que ajudaram.

    Mas esses incentivos ao consumo são coisas artificiais, não duradouras, pois a custa de aumento do deficit público e endividamento da população. São políticas de curto prazo e não sustentáveis.

    O BNDES foi transformado em um banco comum, que visa essencialmente o lucro, em vez de focar no que realmente é a sua razão de existir: DESENVOLVIMENTO Econômico e Social.

    Tal banco já devolveu antecipadamente ao tesouro (400 bi da injeção entre 2008 e 2014), com juros, desde 2015, mais de 500 bilhões. Este ano houve interrupção da devolução devido à pandemia (BNDES também suspendeu o pagamento de dívidas por parte de devedores), mas já está acertado a devolução de 100 bi em 2021. Essas antecipações que venceriam em 2060, ajudaram no abatimento ou suavizaram o crescimento da dívida pública, porém, esses recursos também estão acabando (ainda há um saldo de quase 200 bi para devolução).

    Com o crédito a juros mais altos, não há muito interesse das empresas e entes públicos na captação de recursos para se financiarem.

    Por falar em razões de desenvolvimento de uma nação, interessante é a hipótese levantada por um pesquisador americano: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54792935?fbclid=IwAR1YZzU8hm3hhV3COy_AnhPc9lpjSBjXvd4EpzUEeeu4_jMWZZyllOU62f8

  3. Excelente análise de nosso Editor/Moderador Sr.
    CARLOS NEWTON,

    O Governo BOLSONARO/MOURÃO vinha obedecendo o Orçamento Normal/2020, dentro das boas Diretrizes fixadas pelo Governo TEMER/MEIRELLES, ( Lei do Teto de Gastos e Lei de Ouro).

    Com o advento da Pandemia Covid-19 e a grande Recessão/Depressão Econômica por ela induzida, o Congresso aprovou um “Orçamento de Guerra Covid-19 /2020, de +- R$ 600 Bi” que é gerido a parte.
    Deve o Governo BOLSONARO/MOURÃO solicitar ao Congresso aprovação de um novo “Orçamento de Guerra Covid-19 / 2021 de +- R$ 400 Bi.
    Com esses Recursos ativar a Economia como querem os Desenvolvimentistas das FFAA e Políticos Desenvolvimentistas liderados pelo Min. do Desenvolvimento Regional ROGÉRIO MARINHO e Min. Gen. BRAGA NETTO.

    Não deve o Governo fazer qualquer Programa Emergencial PERENE.

    Resumindo: Executar os Orçamentos Normais de 2020 e 2021 rigorosamente dentro da Lei de Teto de Gastos e Lei de Ouro.

    Executar os Orçamentos Emergenciais de Guerra Covid-19 2020 e 2021 de +- R$ 1.000 Bi, usando destes Recursos para ATIVAR a Economia, ( Terminar Obras Paradas, Execução de Casas Populares, etc,etc).
    Os +- R$ 1.000 Bi dos Orçamentos Emergenciais devem constituir um Pacote de Dívida Pública
    separado da Dívida Pública Normal e pagos em 50 Anos.

    Se o Governo BOLSONARO/MOURÃO não proceder assim, perde fácil para a Oposição, tal como aconteceu na Argentina do Neo-Liberal Presidente MACRI,

  4. Amigo CN; pelo que participei no final da década de setenta, o Brasil tinha desbancado a Espanha e só perdia para o Japão na Construção Naval.
    Era o segundo construtor naval do mundo e o setor de Navipeças de São Paulo principalmente estava a todo vapor.

    • Tens razão, amigo José Pereira Filho, chegamos a segundo maior construtor naval. E tudo se perdeu pela falta de caráter dos políticos e dos dirigentes da Petrobras e da Vale, que eram os maiores compradores.

      Abs.

      CN

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