Álcool, maconha e direção: um coquetel perigosamente mortífero

Milton Corrêa da Costa

O motorista de uma picape colidiu contra uma moto e matou um casal no sábado, na Zona Sul de São Paulo. Será indiciado por homicídio doloso (dolo eventual), segundo informações da polícia, que encontrou, atrás do banco do passageiro do veículo, um cigarro de maconha. Por volta das 6h30, após fazer uma conversão proibida, próximo ao Terminal Guarapiranga, o veículo atingiu a moto onde estava o casal Alexandre da Silva e Francielle Paiva, que deixaram uma filha de 6 anos.

Antes de colidir contra um muro e derrubar um portão, ele ainda atropelou um homem que caminhava pela calçada. O motorista do carro ficou gravemente ferido e foi internado no Hospital das Clínicas.

Como se não bastassem as tragédias ocorridas no trânsito pelo uso do álcool, tal fato traz novamente à baila a discussão sobre a maconha. “Se é verdade que antigamente um cigarro de maconha provocava efeitos equivalentes ao de duas doses de uísque, hoje, com as mutações genéticas produzidas nas sementes da planta para intensificar as sensações que ela provoca, é praticamente impossível determinar os níveis de THC (tetrahidrocanabinol), o princípio ativo da maconha que cada cigarro contém”, pondera a psiquiatra Maria Thereza de Aquino, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e diretora do Nepad, Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas.

Já o psiquiatra de adolescentes Içami Tiba, autor do livro “A maconha e o jovem”, editado em 1989, diz que “a maconha não é pior do que o álcool, mas é muito mais prejudicial do que o cigarro”. Anos depois, ele não só continua contra a legalização da maconha como pesquisou e descobriu mais um importante argumento para reforçar a sua posição- a existência de três níveis de prejuízo para o usuário.

“Há o prejuízo ético, que ninguém costuma levar em conta, em que há uma quebra de valores próprios. Há também, um comprometimento psicológico, já que a maconha provoca uma forte dependência, devido à ação do THC. E. por fim, há o aspecto físico, com danos até para os fetos de grávidas que fumam”, diz o médico.

Para a Dra. Maria Thereza, a maconha pode ser mais bem perigosa do que o álcool, já que a atmosfera permissiva que a cerca pode levar adolescentes a usá-la para enfrentar o que Freud chamou de “dor de existir”. Mas tornar-se ou não um dependente de drogas, mesmo numa fase de mudança e conflitos interiores, como é o período que antecede à juventude, é resultado de uma conjugação de diversos fatores.

Assim, há os que, ao abrirem a porta do proibido, entram e saem. E há os que entram e ficam. ”Mais uma vez, o que faz a diferença é a estrutura emocional de cada um”, explica Maria Thereza de Aquino. O mesmo raciocínio responde ao argumento frequente usado de que a maconha seria um trampolim para drogas mais fortes. Não é.

“Ao contrário da excitação provocada pela cocaína que leva muita gente a recorrer ao álcool para reduzir o pique, e novamente à cocaína para sair da depressão provocada pelo álcool, no caso da maconha é o ambiente à volta que influencia a se experimentar outras drogas novas e sensações”, explica a psiquiatra.

“Mas aqueles que trilham o caminho das drogas passam por ela. É muito comum a garotada acreditar que tem controle total sobre a droga, mantendo a falsa noção de que fuma porque quer e que é capaz de parar quando desejar. Não é realidade. Dificilmente o garoto percebe que está sendo dominado pela droga, que a dependência psicológica provocada pela maconha, é muito mais forte que a física, pois leva o dependente a sentir a necessidade de alteração psicológica”, afirma o Dr. Içami Tiba, dizendo que o melhor caminho é concluir que a droga venceu o primeiro assalto da luta e que a família – e não só o filho – precisa de ajuda para não perder toda a batalha.

É fácil também concluir que assim como o álcool, maconha (droga ilícita) e direção é desgraça presumível. O uso das duas drogas ao mesmo tempo é mais desgraça presumível, ainda mais quando se está ao volante de um carro.

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