Aldo Rebelo confessa que agiu para encobrir marido de Marina Silva

Pedro do Coutto 

No meio do intenso debate que se travou na Câmara, noite de quarta-feira, em torno da votação (que não houve) do novo Código Florestal, enfurecido pelas críticas que Marina Silva divulgou contra ele pela Internet, o deputado Aldo Rebelo confessou que, líder do governo Lula em 2004, agiu para evitar que o marido da ex-senadora, Fabio Vaz de Lima, fosse convocado a depor na CPI sobre derrubada de árvores e vendas ilegais de madeira na Amazônia.

Fábio Vaz de Lima era acusado de fraude fiscal e comércio de madeira realizado à margem da lei. Estava praticando um crime, na versão do parlamentar do PC do B. E ele próprio, Aldo Rebelo, autor da tardia denúncia, agiu para acobertar o crime e o criminoso. Incrível.
Aldo Rebelo, que se apresenta como comunista, mas que não o é, repetiu o personagem de si mesmo vivido em 2005 pelo ex-deputado Roberto Jeferson na crise política que explodiu com o escândalo do mensalão. Para acusar o ministro chefe da Casa Civil. José Dirceu, Jeferson acusou a si mesmo. Confessou ter recebido 3 milhões de reais (das mãos de Dirceu) para a campanha eleitoral de candidatos do PTB e ter ficado com o dinheiro.
Um crime, portanto. Mas estamos vivendo uma época em que crimes ficam por isso mesmo. Incorporam-se à cultura brasileira. Tanto assim que Rebelo reconhece igualmente ter praticado enorme ilegalidade acobertando outro delito e seu autor.

O parlamentar paulista – reportagem de Leandro Colon e Eugênia Lopes, O Estado de São Paulo de sexta-feira, – afirmou não se arrepender da denúncia póstuma (para lembrar Braz Cubas, de Machado de Assis), porém reconheceu ter exagerado na dose. Ele foi acusado pela ex-candidata do PV de ter enxertado dispositivos na redação definitiva do projeto enviado pela presidente Dilma Roussef, visando favorecer interesses econômicos.

Rebelo ficou furioso e revidou, partindo para o ataque. Mas não rebateu as afirmações feitas por Marina Silva. Desviou-se do conteúdo e enveredou pelo atalho da retaliação. O impasse do Código Florestal permanece. Tanto assim que a liderança do PT retirou a mensagem de pauta. Até que haja acordo com o PMDB capaz de levar a um consenso. Difícil.

Por trás da celeuma encontra-se a essência da reforma agrária do país, não concretizada até hoje, embora há cinquenta anos presente no debate nacional. Lembro bem, foi um dos temas da sucessão presidencial de 1960. Concretamente, até hoje, não saiu do papel. Apesar de a lei do Estatuto da Terra, de autoria de Roberto Campos, lei 4504/64, estabelecer que o governo tem que aplicar anualmente 3% da receita tributária em projetos de modernização agrária. O mesmo estatuto taxa fortemente, com o Imposto Territorial Rural, os latifúndios improdutivos. Quais foram os latifúndios improdutivos taxados? Me apontem um caso.
Também na edição de sexta-feira, mas na Folha de São Paulo, Cátia Seabra, Marcio Falcão e Larissa Guimarães destacaram as raízes das divergências fincadas em torno do Código Florestal. São duas. A primeira voltada para legitimar as culturas (soja especialmente) implantadas em áreas de preservação ambiental. A segunda, claro, como sempre, perdoando dívidas acumuladas pelos ruralistas ao longo do tempo. Curioso. No Brasil, deve ser coincidência, perdoam-se débitos fiscais de empresas e empresários, mas nunca de assalariados cujos vencimentos perderam para a inflação. Páginas da política, páginas da vida. Ia esquecendo: Aldo Rebelo é contra a iniciativa privada? É a favor da estatização dos meios de produção? Defende a igualdade salarial para todos? Se não pratica tais princípios, não é comunista. Aliás, nunca foi.

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