Além de não roubar nem deixar roubar, Lacerda foi um governador extraordinário, que estruturou o Rio do futuro

Luiz Geraldo Santos:
“Helio, quando Lacerda assumiu o governo da Guanabara, não tinha água. Ele abasteceu o Rio de água, e até hoje não falta. Não havia vagas nas escolas, imediatamente ele inventou o terceiro turno, enquanto construia mais salas e admitia professores. Não tinha telefone, ele fundou uma empresa, que solucionou o problema com novas linhas e mais barato. Abriu túneis e construiu viadutos em profusão. Além do Aterro do Flamengo, deixou muitos parques. O Banco do Estado da Guanabara (BEG) só tinha duas agências, ele abriu dezenas. Sem exagero e muito menos paixão, Carlos Lacerda foi o maior governador que o Brasil teve. O resto, não fez nem 10 por cento do que ele fez. E, melhor, como você disse, não roubou nem deixou roubar”.

Comentário de Helio Fernandes:
Perfeito, Luiz Geraldo, e na verdade Lacerda fez mais, muito mais, como a erradicação de 12 favelas e o plano urbanístico do especialista grego Constantinos Doxiadis, contratado por ele, que previu a construção da Linha Vermelha e da Linha Amarela.

Realmente, quando assumiu o governo, encontrou o Rio devastado pela falta d’água, um pavor, horror, se fixou imediatamente na construção do Guandu. Não tinha dinheiro suficiente, fez empréstimos a 1 e 5/8 por cento (os americanos adoram isso), meu amigo Helio Beltrão fez pelo menos 10 viagens para fechar o contrato. Ficou nesse percentual, nenhuma comissão, por fora ou por dentro. (Há muito tempo o empréstimo está pago).

Só para comparar; o estranho ministro Delfim Netto, que está querendo ressuscitar, (numa polêmica com o ex-presidente Collor) “arranjou” na Inglaterra, 800 milhões de dólares como financiamento para a ponte Rio-Niterói, a juros de 14 por cento, uma calamidade. (Foi incorporado à dívida externa. Delfim não aceitaria pagar juros de apenas 2 por cento, o que sobraria para o por fora?)

Quando Marcos Tamoio sugeriu ao governador a abertura do Túnel Rebouças (uma das mais importantes obras, inaugurada em agosto de 1965), ressalvou: “Governador, abrindo esse túnel, tem que abrir outro na Gávea, na Covanca, ou então o Jardim Botânico vai engarrafar completamente”. Resposta do governador: “Vou fazer um deles, não sei como arranjar dinheiro. Para o outro túnel, nem pensar”.

Aconteceu o que Marcos Tamoio previa e Lacerda sabia, mas o que fazer?

Lacerda, que eu apelidei (e ele gostou muito) de “Dromedário do trabalho”, porque, como os camelos, acumulava e mastigava trabalho. Tinha um estilo próprio, não perdia tempo despachando diariamente com secretários. Chamava, digamos, o de Obras, ficavam horas estudando, vendo o que teria que ser feito, como fazer e como pagar. Marcava na agenda dele e do secretário, novo despacho para dentro de 90 dias.

No dia seguinte, no outro e no outro, fazia com diversos secretários. Adorava viajar, mas não podia, em parte do mandato o vice era Eloy Dutra, grande inimigo. Ainda vigorava a “invenção” da Constituinte de 1946, o governador e o presidente se elegiam, e podiam ser eleitos vices de outro partido.

Continuava inquieto, impulsivo, às vezes inamistoso, imprudente e inconsequente. Quando caiu o Estádio de Remos da Lagoa, o secretário de Obras era o Laviola, campeão brasileiro e sulamericano de natação.

Foi demitido sem saber, para o lugar nomeou o brigadeiro Terra, (excelente figura) que era diretor de Rotas Aéreas. Algum comentário?

Um dia me telefona às 2 da madrugada, “preciso falar com você agora”. Respondi, “mas não sei nem como se entra a esta hora no teu apartamento”. E ele: “Estou no Guanabara”. Na verdade raramente saía de lá. Esse era o autêntico Carlos Lacerda, jornalista, político, administrador.

Não se preocupava com dinheiro, ficou rico quando vendeu a SUA TRIBUNA DA IMPRENSA para Nascimento Brito, herdeiro do Jornal do Brasil.

Fez história, mas não foi seguido ou imitado pelo menos em matéria de NÃO DESPERDIÇAR O DINHEIRO PÚBLICO. Nisso, os que vieram depois, (quase todos) o AMALDIÇOAVAM, tinham que tomar cuidado. (Excluídos Roriz e Arruda, na capital, que abusaram da desonestidade, da corrupção e da tranquilidade que exibiam nesses atos).

Estamos vendo diversos governadores afastados pelo Tribunal Eleitoral, e o espetáculo de Brasília, que substituiu o Rio, mas inovou espantosamente em matéria de enriquecimento ilícito, de desperdício do dinheiro público. Que República.

***

PS – Política, jornalística ou pessoalmente foi o nosso melhor tempo. Lacerda construiu um cineminha de 12 lugares, onde era um subterrâneo de “guardados”. Eram noites e noites de filmes excelentes e conversas altamente polêmicas quanto as que tivemos no Regimento Caetano de Farias, de 14 de dezembro de 1968, (o dia seguinte ao AI-5, eu preso no mesmo dia 13) até 22, véspera de Natal, quando foi solto. Eu passei Natal, Ano Novo, fui solto no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, os ditadores eram muito religiosos.

PS2 – Essas conversas demolidoras mas construtivas, duraram 8 dias, praticamente sem interrupção. Não gostávamos de dormir, ele fingia greve de fome. Gravadas, dariam um livro maravilhoso, autêntico e elucidativo. Um lamento e uma tristeza, que CONVERSÁSSEMOS 8 DIAS, sem gravação.

PS3 – Morreu em 1977, com 63 anos. Dois anos depois vinha o que se chamou, “ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA”, Lacerda já não estava à disposição.

PS4 – Sempre esperei que Lacerda e Brizola (talvez um depois do outro) fossem presidentes. Não se sabe o que aconteceria, agora não há análise possível ou imaginável. Acreditei em Juscelino, pensei que Janio pudesse ser (participei das duas campanhas), em quem acreditar?

PS5 – Como acreditar em Serra, que fez campanha e carreira no exterior. Ou Dona Dilma, autoritária e imprevisível? Ou assustadoramente previsível?

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