Alemão não é a única matriz do tráfico no Rio

Pedro do Coutto

Na sua edição de ontem, sábado, O Globo publicou na primeira página, sustentando a manchete, uma foto excepcional de Marcelo Piu, de rara beleza dramática, mostrando forças dos paraquedistas do Exército – tropa tradicionalmente de elite – subindo vielas do Complexo do Alemão para encurralar os bandidos do tráfico que, através das vendas de tóxicos, auferem grandes lucros e praticam crimes de todas as espécies. Da venda do vício, ao contrabando de armas , assaltos, roubos de motos e automóveis, passando pelos assassinatos mais cruéis, como foi o do jornalista Tim Lopes.

A foto sustenta a reportagem – também excelente – de Ana Cláudia Costa, Gustavo Goulart e Natanael Damasceno. Começa a batalha do Alemão é o forte título da matéria, totalmente oportuno, pois de fato o confronto não terminou com a tomada da Vila Cruzeiro, tampouco  vai acabar com a esperada queda do Complexo do Alemão, a ser igualmente libertado para seus habitantes. Não.

O Complexo do Alemão, com seus mais de 400 mil moradores, não é a única matriz do tráfico do Rio. Não é a única cidadela de crime, não é tampouco a única fábrica de maldade. Existem várias outras quer podem ser ligeiramente menos violentas, mas que ostentam os mesmos padrões e estilos de crimes e criminosos. Uma dessas cidadelas de fornecimento de drogas está em plena zona sul da cidade com vista para o mar. Suas encostas não são menos perigosas e fatais. Ponto nervoso do comércio terrível, inclusive porque situa-se em área de renda mais alta. Com o Alemão no cerco, como na guerra, o abastecimento e o comércio maldito deslocam-se para lá. Com base na lei da oferta e da procura, os preços vão subir.

Os traficantes, fora do raio das Forças Armadas, por enquanto vão se sentir à vontade. Esta é a razão pela qual afirmo que as etapas de Vila Cruzeiro e da trilha do Alemão têm que representar apenas o começo de uma jornada de caráter permanente que assim as configura com o ingresso do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, da Polícia Federal nas ações, deixando patente que, sozinho, o sistema policial-militar do estado do Rio de Janeiro não teria capacidade de desencadear.

Os fatos comprovam que as unidades de polícia pacificadora não detiveram os rumos do drama previsto após alguns meses de paz aparente. Nem poderia. Afinal, o que significa a palavra pacificação? Paz entre contrários, ponto de concordância comum, encontro de idéias e condutas. Coma presença do tráfico no meio das frases não se torna possível qualquer acordo permanente, portanto não se torna possível a pacificação almejada. Uma palavra a mais no dicionário da realidade.

Como não pode haver logicamente acorde entre o legal e o ilegal, entre a ordem e a desordem, entre o crime o comportamento ético, entre a desonestidade e a honestidade, o cerco ao Alemão representa, como destacou O Globo na bela edição a que me refiro, o início de um longo combate. Não apenas armado, mas também no plano social. A luta em sua verdadeira dimensão começou esta semana, mas não tem data para terminar. Somente poderá chegar ao fim no momento em que o poder público vencer, não só os inimigos aparentes, mas também o fantasma do falso aliado, incômodo, por sinal, que é o nível de consumo de drogas ilícitas que impelem ao caminho da morte e também os bandidos que disputam esse mercado sinistro. No meio da batalha estratégica situam-se a sociedade de hoje, as gerações de amanhã, todos aqueles que vieram depois de nós, como disse Bertoldt Brecht  no arremate de uma de suas peças mais famosas.

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