Alianças estaduais não seguem diretriz nacional

Pedro do Coutto

Na realidade. em política é ingênuo alguém supor que as seções estaduais dos partidos vão sempre seguir as diretrizes nacionais aprovadas para as coligações. Na prática, como dizia o senador Benedito Valadares, a teoria é outra coisa. Ele tinha razão. Os fatos de agora, em torno da sucessão presidencial de outubro, estão comprovando. Lendo-se as reportagens de Letícia Lins e Isabel Marchezan, O Globo de 7 de maio, vemos logo de cara que o PMDB está anunciando duas cisões regionais. Em Pernambuco, o senador Jarbas Vasconcelos afirmou que será candidato a governador, apoiando Serra e não Dilma Roussef, enquanto no Rio Grande do Sul o candidato tucano está fechando acordo com José Fogaça, também do PMDB, que disputa o governo gaúcho com Tarso Genro, do PT.

A aliança nacional foi para o espaço na terra dos pampas. Lá, inclusive, José Serra quer distância da governadora Yeda Crusius, que é do PSDB, cuja impopularidade estabelece talvez um recorde brasileiro. Há uma corrente tucana que defende até a ideia de o partido afastá-la da tentativa de reeleição em face de seu incrível desempenho, só comparável à sua rejeição pelos gaúchos.

Aqui estão, como se constata, dois casos concretos de dissidência. Mas surge logo um terceiro, este até mais importante por tratar-se de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. O ex-governador  Orestes Quércia candidata-se ao Senado pelo PMDB, mas apoia também a candidatura José Serra. O que poderá fazer o PMDB nacional? Nada. Qualquer intervenção nas três regionais acabaria sendo pior para a candidatura de Michel Temer a vice-presidente na chapa de Dilma Roussef. Não há jeito. Essas coisas acontecem com frequência.

Não é só o PMDB que se afasta da diretriz nacional. Em Minas Gerais, é o PT que ameaça lançar candidato próprio ao Palácio da Liberdade, o ex-prefeito Fernando Pimentel, contra Hélio Costa do PMDB. É praticamente impossível manter-se uma aliança nacional que seja acompanhada por todas as seções estaduais. Qualquer intervenção, qualquer ato de força da Executiva ou Diretório nacional terminaria criando problemas ainda maiores e acabaria dando mais força aos dissidentes.

Ao longo da política, através do tempo, são muitos e muito fortes os exemplos. Em 55, por exemplo, as seções do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Pernambuco do PSD mandaram votar em Juarez Távora e não em Juscelino. A do Paraná preferiu Ademar de Barros. Na sucessão de 60, no tempo em que a eleição do vice não era diretamente vinculada à do presidente da República, as regionais de São Paulo e Paraná apoiaram a chapa Jânio e Jango, e não a chapa Lott-Jango, aliança firmada pelas convenções nacionais dos antigos PSD e PTB. João Goulart inclusive, dessa forma assegurou sua reeleição a vice, o que a legislação da época permitia, embora vedasse a reeleição do próprio presidente da República.

Em 1960. também em Minas Gerais, Benedito Valadares e José Maria Alckmim apoiaram Magalhães Pinto, da UDN, contra Tancredo Neves. Magalhães foi vitorioso por 25 mil votos, 1% dos eleitores mineiros. Fosse Tancredo o vencedor o movimento político militar de 64 teria outro destino. Mas foi o ponto de partida. O desfecho das urnas mudou o rumo da história do Brasil. Benedito Valadares, que fazia revelações quase sempre indiretas, acentuou na época: é melhor um adversário cordial do que um correligionário hostil. Ele não se dava bem com Tancredo Neves. Nem ele, nem José Maria Alckmim, que se lançou candidato a vice-governador pelo PDC mineiro, configurando a situação e acrescentando mais força à dissidência. Coisas da política.

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