Alô, esquerda. Como se sente?

Raquel Landim
Folha

Passado o Ano Novo, já começa a contagem regressiva para o Carnaval. Com o novo ministério que toma posse hoje, uma marchinha de sucesso da folia de 2015 bem que poderia ser assim: “Alô esquerda, como se sente? Votar na Dilma e eleger Aécio presidente”.

Joaquim Levy (Fazenda), Armando Monteiro (Desenvolvimento), Kátia Abreu (Agricultura), Gilberto Kassab (Cidades), Cid Gomes (Educação), Eduardo Braga (Minas e Energia), George Hilton (Esportes) – um time em ministérios chave que poderia fazer parte de qualquer governo tucano.

A gritaria de colunistas e políticos de esquerda foi geral: “uma bofetada”, “uma equipe econômica afinada com a banca”, “símbolo de políticas antipopulares”, “governo conservador”. Mas não consegui entender o porquê da surpresa.

FAVAS CONTADAS

Não era segredo que Kátia Abreu seria ministra. No meio da campanha eleitoral, a indicação era favas contadas no setor agrícola devido à amizade entre ela e a presidente.

Tampouco era novidade que Kassab ocuparia uma cadeira na Esplanada. No primeiro turno da eleição, o ex-prefeito acompanhou o vice-presidente Michel Temer até a urna e sua indicação era comentada entre os políticos e jornalistas presentes.

Também já faz tempo que Dilma procurava alguém capaz de melhorar sua interlocução com o setor privado para a pasta do Desenvolvimento. Depois de perder o governo de Pernambuco, Monteiro, ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria, aceitou a dura missão.

Cid Gomes, George Hilton e Eduardo Braga são apenas mais um sinal de que o PT cedeu faz tempo, mas muito tempo, ao jogo político tradicional.

LIBERAL CONVICTO

A única surpresa foi Levy. Ex-Bradesco e um liberal convicto, efetivamente é uma escolha ousada para quem passou a campanha dizendo que o adversário entregaria o país aos banqueiros e tiraria a comida da mesa dos pobres. Mas, com a economia em frangalhos, é ótimo que a presidente tenha cedido.

A massa da população, que consome a propaganda dos marqueteiros nas eleições, pode até ter sido surpreendida com a escolha dos novos ministros. Mas políticos, líderes sociais e comentaristas que apoiaram tenazmente Dilma na campanha sabiam muito bem onde estavam pisando.

MINISTÉRIO FRACO

O novo ministério de Dilma é fraco e todo mundo tem o direito de reclamar, mas não faz sentido esse pessoal encarnar o papel de amante traído, porque nada disso era desconhecido para eles. E, principalmente, porque votariam e defenderiam Dilma de novo se a eleição fosse hoje.

Para uma parcela dos eleitores, votar no PT já virou uma crença, algo próximo de uma religião, porque esse partido “seria o único ao lado dos pobres e oprimidos”.

Em 2003, muitos chegaram a sonhar com isso. Mas, em 2014, passado o mensalão e iniciado o petrolão, perdeu completamente a graça. Já está mais do que provado que nenhum partido ou grupo político detém o monopólio da virtude e que sem uma reforma política o país não vai para frente

15 thoughts on “Alô, esquerda. Como se sente?

  1. A massa mesmo, só acompanha propaganda. Se a propaganda é boa, o governo é bom.
    O nome dos Ministros, poucos sabem. Aliás, não é qualquer um que saiba o nome de todos Ministros. A própria Dilma EDUCAÇÃO (agora não é mais Dilma PACote), precisará de uma Secretária só para lembrá-la dos nomes da turma toda.
    Quanto ao Kassab, da turma do quibe de SP, esse senta em qualquer colo que lhe renda dividendos, políticos ou financeiros.

  2. Mantiveram alguns para ficarem cacarejando alguns slogan, como o Ricardo Bancoop Berzoini, com o eterno nheco nheco contra a ‘imprensa burguesa’. Corto o pescoço se eles diminuírem as verbas da Globo. No máximo vão aumentar um pouco os penas de aluguel dos blogs chapa branca.

  3. É duro escrever-se as mesmices sem que haja eco.
    O texto diz tudo certinho, dentro do vidrinho.
    É a pura e sacrossanta realidade/verdade.
    E o povinho preocupado com a vida, prepara-se para entrar nas filas de venda de ingressos carnavalescos.
    Os consciente de hoje, choram o leite derramado. Os “dorminhocos” apatetados, quando acordarem (se acordarem) nem leite terão para chorar!

  4. No Império Romano, quando Júlio Cesar desfilava em uma biga, atras dele ia um escravo dizendo: LEMBRA-TE
    QUE ÉS APENAS UM HOMEM.
    No palácio do planalto, esta faltando um serviçal, para ficar atras da DILMA, dizendo: LEMBRA-TE QUE ÉS
    APENAS A CRIATURA.

  5. A realidade é que ser de esquerda, mesmo honesta, significa não entender bem a condição humana. O planeta em que vivemos.
    Toda esquerda é ideológica e, por sê-lo, é produto do ideal. E para quem percebe, o ideal é uma mentira. Tanto é que sempre contraria a natureza. Um exemplo dentre centenas, iguais ou pior, é o tal igualitarismo entre as pessoas. A genética está aí para desmentir esse absurdo.

    Já não ser de esquerda mostra que não se está muito longe da realidade. Mais próximo da natureza. Daquilo que se é.

    Como vivemos em sociedade, não há como não haver algumas leis para conter alguns de nossos impulsos naturais. Infelizmente é necessário. O que não pode , e isto é o fundamento básico da esquerda, criar um mundo à sua imagem e semelhança e querer enquadrar o ser humano nisso.

    Para encurtar, homem casar com homem até que pode, o que não pode é proibir o homem de casar com uma mulher. Isso é esquerda.
    Cuidado.

      • Mauro, Mauro, Mauro ….
        A tua frase final sobre, “homem casar com homem até que pode, o que não pode é proibir o homem de casar com uma mulher. Isso é esquerda.
        Cuidado.”
        … é simplesmente antológica!
        Parabéns pela forma irônica e sutil que deste a tua definição sobre a esquerda política brasileira, diga-se de passagem, um simples arremedo de idéias retrógradas, segregacionistas, preconceituosas e ofensivas ao próprio ser humano.
        Magistral, Mauro.
        Havia tempo que eu não lia algo de qualidade humorística como esta frase que postaste neste blog incomparável.
        Um abraço.

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