Amacord de Fellini e a morte de Ghiggia, herói de 50

Ghigglia, um grande craque, um nome na história

Pedro do Coutto

Duas excelentes e emocionantes reportagens sobre a morte de Ghiggia, ponta direito do Uruguai, uma de Pedro Mota Gueiros, outra de Carolina Oliveira Castro, O Globo, edição de 17, fizeram justiça ao último protagonista do dramático desfecho da Copa de 50, no Maracanã, quando perdemos para o Uruguai por 2×1, após termos feito o primeiro gol. Os três gols da partida ocorreram no segundo tempo: Friaça, Schiafino, Ghiggia. Estava no estádio Mário Filho com os amigos Mário Pucheu e Carlos Eduardo Fernandes, este falecido agora em 2015.

Me vem à mente “Amacord”, filme extraordinário de Frederico Felini que lança a emoção à tona e reforça a memória. Eu me lembro de tudo. Até dos bastidores que antecederam a partida, quando o capitão uruguaio Obdúlio Varela, na sede do Fluminense, pois os uruguaios treinavam no gramado das Laranjeiras. revelou a João Coelho Neto, o Preguinho, como a celeste ia atuar na defensiva, tentando os contra-ataques. Creio ser eu a única testemunha viva da conversa. Na roda, entre outros nascidos antes de mim, encontrava-se também o treinador Otto Glória Vieira, que em 49 e 50 dirigia a equipe tricolor. Mas esta é outra questão.

A principal figura do jogo foi Obdúlio, que comandou o Uruguai dentro do campo. Com os dedos agitava a camisa, pedindo amor à celeste, amor ao Uruguai. Foi a flama que nos faltou naquela final. Futebol se vence no campo. Não na véspera. Por falar em véspera, no sábado, 15 de julho de 50, já havia carnaval na cidade. Havíamos derrotado a Espanha por 6×1 e a Suécia por 7×1. O regulamento era diferente do de hoje. Foram classificadas quatro seleções. Jogávamos pelo empate. Tínhamos tudo para vencer, menos a compreensão de que, no futebol, a tática pode neutralizar a técnica. E também a arte.

Faltou garra e percepção melhor da ocupação do espaço pelo técnico Flávio Costa. Falei em regulamento diferente. Não eram permitidas substituições. Mas onde estava a importância de Ghiggia na extrema direita? Não só no gol da vitória, aos 30 minutos do desfecho. A importância esteve no fato de passar facilmente todas as vezes pelo lateral esquerdo Bigode, situação que passou a intranquilizar nossa defesa, especialmente o goleiro Barbosa. Flávio Costa não mandou ninguém do meio campo brasileiro recuar para auxiliar Bigode na marcação. Ou então recuar o ponta esquerda Chico para a tarefa. Resultado, Ghiggia começou a ser lançado seguidamente tanto por Obdúlio quanto por Júlio Peres, meia esquerda do Uruguai, que atuava no estilo Gerson, embora não fosse tão excepcional quanto o comentarista da Rádio Tupi, companheiro nas transmissões de José Carlos Araújo.

SEM COBERTURA

Ghiggia balançava o corpo, cortava Bigode e partia em frente para a nossa área. Como não havia a devida cobertura, ficava um amplo espaço entre Bigode e o zagueiro central Juvenal. Esta posição rígida desapareceu no tempo. Porém em 50 tornou-se decisiva. Contra nós.

Num lance que começou com Ghiggia, Schiafino recebeu o centro e emendou de voleio. Um a um. Barbosa esperava o chute, enganou-se. Não falhou. Tampouco falhou no segundo gol. Ghiggia passou de novo por Bigode e avançou sozinho. Chutou de muito perto. A defesa era dificílima. Barbosa não teve culpa. Estava decretada nossa derrota. Ghiggia, que morreu exatamente no dia 16 de julho, entrou para a história. Nela, aliás, ficará para sempre. Ele, em sua glória, levará sua imagem, para a eternidade. A mesma eternidade que consagra a magia do futebol que emociona até às lágrimas. Na vitória. E na derrota. O gol de Ghiggia fica à direita da tribuna de honra do Maracanã.

One thought on “Amacord de Fellini e a morte de Ghiggia, herói de 50

  1. Barbosa descreveu em docuentário esse mesmo problema: que o grande ponta uruguaio estava fazendo umestrago pela direita, chegando com facilidade à linha de fundo e cruzando, deixando o arqueiro intranquilo, até que num desses grandes golpes do destino, quando se esperava o cruzamento, o ponta, enganando o grande goleiro, deu aquele matreiro chute fatal, no cantinho entre a trave e Barbosa, que se disse condenado a uma pena pior que a de um homicida, já que a pena máxima no Brasil é de 30 anos, e após 50 anos, ainda se sentia um condenado, tendo morrido sem glória, no esquecimento, salvo engano, da baixada santista.

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